Deve-se evitar ir à praia entre o meio-dia e as 16h? Tenho de esperar 3 horas depois de comer para ir à água, caso contrário não faço a digestão? Falámos com um médico para esclarecer alguns dos mitos e questões mais polémicas do verão.
Ir à praia, ficar bronzeado, dar mil e um mergulhos na piscina ou na praia são algumas das coisas que faz tantas pessoas elegeram o verão como a melhor estação do ano. Contudo, ano após ano, surgem vários mitos que acabam por nunca ser esclarecidos.
Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu os pais a dizerem para não ir à água depois de comer. Mas será que temos mesmo de esperar 2 a 3 horas depois de comer para ir à água, caso contrário ficamos com a digestão parada? E se bebermos álcool podemos ir à água ou é perigoso? O céu nublado pode ser tão ou mais perigoso para a pele do que um dia de céu limpo? Devemos evitar ir à praia entre o meio-dia e as 16h? E estar debaixo do chapéu de sol é suficiente para nos protegermos dos raios ultravioleta ou são refletidos na areia? Entre muitos outras questões.
Nos dias que correm, toda a gente gosta de dar a sua opinião sobre estas questões e mitos, mas muitas vezes podemos levar os outros à desinformação – e não há nada melhor do que a ciência para explicar tudo direitinho. Para esclarecer estas dúvidas e perceber de se facto se tratam de mitos (ou não), falámos com Ricardo Moutinho Guilherme, médico de medicina geral e familiar, que também se decida a medicina estética. O especialista ajuda a distinguir mitos de factos e a compreender o que é prejudicial na época balnear.
Depois de comer, é necessário esperar 2 a 3 horas para fazer a digestão antes de ir para a água?
Este é capaz de ser dos mitos de verão mais antigos. Quantos de nós não ouvimos a mãe a dizer: ‘Tens de esperar 2 a 3 horas para fazeres a digestão e ires outra vez para a água’ – e quantos de nós ficámos tristes com essa espera. Contudo, este mito é falso. “Não existe evidência científica de que entrar na água depois de uma refeição provoque uma paragem digestiva. É verdade que se comer refeições muito abundantes ou comida mais pesada não é recomendável fazer atividade física e aqui estamos a falar de qualquer tipo”, começa por explicar o especialista.
“Claro que ir para o mar e à piscina, mas mais para o mar, implica algum esforço físico. Tem de se nadar contra a maré, portanto, o nadar já é uma atividade física ligeira. Agora, só por si comer e não poder ir para a água não faz sentido”.
Mas, afinal, o que é fazer a digestão? Quando ingerimos alimentos, a comida passa um período no estômago e até completar essa digestão e passar para o intestino, absorve muito energia e a pressão sanguínea é direcionada para o sistema digestivo. O mito consistia em dizer que a circulação era desviada para outros sítios e parava a digestão, mas “se entrarmos na água, a circulação não vai ser direcionada para mais lado nenhum, ela já está lá e não vai parar a digestão por entrarmos na água”.
O médico continua por explicar que apenas se deve esperar cerca de 2 horas antes de ir à água caso coma uma refeição pesada, como feijoada, tripas à moda do Porto ou uma grande francesinha. “Aí sim pode existir uma sensação de enfartamento, maior sonolência e assim convém evitar exercício físico, Mas de qualquer tipo, não é obrigatório ser na água. É como qualquer atividade física, não recomendo ir ao ginásio ou dar cambalhotas porque não vai correr bem”. Portanto, não é a refeição que aumenta o risco de perigo na água, mas sim os excessos.
Se beber álcool não posso mesmo ir à água? É realmente perigoso ou é mito?
Era bom que fosse um mito, mas está longe de o ser. “O álcool e os banhos no mar e na piscina nunca são uma boa combinação. Desaconselho completamente porque o álcool diminui os nossos reflexos, alterna a nossa capacidade de avaliar riscos, prejudica a coordenação motora e pode aumentar a probabilidade de afogamento”, explica. Além disso, o álcool favorece a desidratação, principalmente nos dias de maior calor, o que também não ajuda.
Contudo, não existe uma regra que o proíba de entrar na água após consumir álcool. Mas o médico reforça que quanto maior a quantidade ingerida, maior o risco, então se consumir álcool, é muito mais desaconselhável ir à água do que se comer uma refeição. “Às vezes estamos preocupados com a comida, mas o álcool mata muita gente porque diminui os reflexos. Muitos afogamentos na praia são por ingestão de álcool e não quer dizer que a pessoa estivesse embriagada”, detalha.
O céu nublado queima mais do que o limpo?
Quantos de nós pensámos que só por não estar sol, não era preciso meter tanto protetor solar? O resultado era visível no final do dia: um escaldão certo. A verdade é que “o tempo nublado não queima mais do que o céu limpo, o que acontece é que muitas pessoas baixam a guarda quando o sol está encoberto” e não se protegem devidamente.
Muitas vezes baixamos a guarda porque não sentimos tanto calor, não reaplicamos o protetor, ficamos mais tempo ao sol e a absorver a radiação, e há na mesma queimaduras graves no tempo nublado. “Embora as nuvens reduzam parte da radiação, é uma quantidade significativa que continua a atravessá-las. Ou seja, ele está lá, mas não o vemos, não sentimos e isso é um problema porque é perfeitamente possível apanhar um escaldão num dia nublado”. Por isso, um dia nublado não é um dia sem radiação ultravioleta, são necessários os cuidados habituais.
Se estivermos debaixo do chapéu de sol não é preciso colocar protetor solar?
Este é outro mito que não podia estar mais errado. “O chapéu de sol reduz muito a exposição direta aos raios solares, mas não bloqueia totalmente a radiação porque se refletir em outros objetos, nomeadamente na areia ou na água, está na mesma a atingir as pessoas”. Claro que a sombra protege, “mas não torna ninguém invisível ao sol”.
Ou seja, pode estar à sombra e continuar a receber uma quantidade significativa de radiação ultravioleta, apesar de ser menor. “O problema é que até estamos fresquinhos e ficamos mais tempo lá, e isso é um erro muito frequente pensar que se estamos na sombra não é preciso protetor solar. O sol reflete-se em todas as superfícies”.
Devemos evitar a praia entre as 12h e as 16h?
Este é uma pergunta clássica que todos os anos surge e que realmente é verdade. “Em Portugal, o período de maior intensidade de radiação ultravioleta é do meio-dia às 16 horas e é quando faz mais sol, por isso há maior risco de escaldões, desidratação, insolação, exaustões”, salienta Ricardo Moutinho Guilherme. “Entre o meio-dia e as 16 horas é proteção absoluta, ficar à sombra e evitar a exposição, e hidratar-se muito“, acrescenta.
De quanto em quanto tempo devemos colocar protetor solar?
No verão, os cuidados precisam de ser reforçados. “No verão expomo-nos mais e a superfície da pele também fica mais exposta, por isso temos de usar uma maior quantidade e reaplicar mais vezes”. Se a pessoa está na praia terá de de aplicar mais vezes. E se é daquelas pessoas que vai muitas vezes à água e que tem daqueles cremes que são à prova de água, mesmo nesses casos é preciso reaplicar.
“Uma regra básica é ir aplicando de hora em meia ou de duas em duas horas. Se se estiver de manhã à noite na praia convém ser mais vezes e se for à água convém ser mais vezes. E eu digo sempre para evitar as maiores horas de calor”, sublinha.
As crianças têm de usar um protetor solar diferente ou toda a família pode usar o mesmo?
Hoje em dia existem uma panóplia de protetores solares para todos os tipos de peles e mais algumas. Seja para crianças, grávidas, plasmas, rosácea, peles atópicas ou problemas oncológicos, o mundo dos protetores não permite desculpas para as pessoas não os usarem e continuarem a apanhar escaldões, e de facto, cada pessoa deve encontrar o mais adequado para a sua pele.
“As crianças devem ter mais cuidados e sobretudo usar produtos indicados para a sua faixa etária. Mas também há protetores solares para maiores de 18 anos, para a adolescência e protetores solares que podem ser aplicados desde o nascimento. Por isso, convém comprar um protetor adequado à faixa etária correspondente.”
“Sempre que possível usar o 50+. O 30 podemos usar em zonas específicas que não necessitem de mais proteção ou que estejam esquecidas, mas na dúvida eu digo sempre: é 50+. É o que está comprovado que protege bem das radiações solares. Na cara ainda é preciso meter mais porque é a parte do corpo que está mais exposta ao sol por mais tempo”, refere o especialista.
“O SPF 30 é adequado para a maioria das pessoas em situações de exposição solar quotidiana, como deslocações na cidade, atividades ao ar livre de curta duração ou dias em que a exposição ao sol é moderada. Quando aplicado corretamente, bloqueia cerca de 97% da radiação UVB. No entanto, em situações de exposição intensa ou prolongada, como praia, piscina, desportos ao ar livre, montanha ou atividades durante as horas de maior radiação solar, é geralmente preferível utilizar SPF 50 ou 50+, sobretudo em crianças, pessoas de pele clara, indivíduos com antecedentes de cancro da pele ou quem tenha maior sensibilidade ao sol”, frisa.
As pessoas com pele morena ou bronzeadas não precisam de usar tanto protetor solar. É mesmo assim?
A resposta depende do caso. “Se estamos a falar de raça africana, essas peles têm menor tendência a gerar queimaduras, a gerar cancros de pele. Digamos que estão mais protegidas. Mas se estamos a falar de uma pessoa caucasiana que já está mais bronzeada, aí já é diferente. O tipo de pele da pessoa já está lá em baixo, não vai mudar porque está mais bronzeada. Eu não mudo para raça africana se ficar bronzeado, por isso, continua a precisar de se proteger e a colocar protetor solar”, refere o médico.
Solários fazem mal à saúde. Será verdade?
“Solários não. A resposta tem de ser a negrito, sublinhada e em letras maiúsculas. Está mais do que provado que na literatura científica que os solários aumentam exponencialmente o cancro de pele, problemas de pele e todos os tipo de de problemas relacionados com a radiação. Os solários não são aconselhados pelos sistemas de saúde em todos os países”, esclarece de forma determinante o especialista.
“Os solários nem deveriam existir porque causam problemas de saúde graves. É como se fosse uma exposição solar muitíssima mais intensa do que estar ao sol todo o dia e isso não é bom, mesmo com protetor solar”, finaliza.





