Mariana Abecasis publicou uma parceria paga com uma marca de iogurtes com açúcar adicionado, defendendo que podem ser uma opção para os lanches das crianças. A explicação sobre os açúcares presentes no produto não convenceu todos os seguidores e gerou uma onda de críticas.
Uma publicidade a iogurtes e uma nutricionista está a gerar grande polémica nas redes sociais. A protagonista é a nutricionista Mariana Abecasis, que partilhou no Instagram uma publicação identificada como publicidade a uma marca de iogurtes, onde apresenta os produtos como uma opção prática e nutritiva para os lanches dos mais pequenos.
Na legenda, a nutricionista destaca que estes produtos fornecem “cálcio, proteína e vitamina D”, nutrientes importantes para o desenvolvimento ósseo e para o sistema imunitário, e sublinha ainda que os produtos não têm corantes, conservantes nem aromas artificiais.
A publicação, contudo, acabou por gerar críticas, sobretudo relacionadas com a presença de açúcar nos iogurtes e com a recomendação de um produto deste género para crianças.
Veja a publicação em questão.
Nos comentários, vários seguidores questionaram Mariana Abecasis sobre a adequação dos produtos enquanto opção para um lanche infantil.
“Iogurtes com açúcares adicionados é recomendado por si, para um lanche diário?”, perguntou uma utilizadora. A nutricionista respondeu, defendendo que estes produtos foram “desenvolvidos mesmo a pensar nas crianças”, cumprem os requisitos descritos para a faixa etária e têm “das percentagens mais baixas de açúcar por unidade”. A profissional acrescentou ainda que, “entre pouco açúcar ou ter adoçantes e ingredientes artificiais, segundo os estudos, é preferível ter um bocadinho de açúcar”.
Outro comentário foi ainda mais crítico. “A sério?! Uma nutricionista a fazer publicidade a iogurtes com açúcar adicionado?! Pouco ou muito é açúcar adicionado!!!!!”, escreveu uma seguidora, chegando a identificar a Ordem dos Nutricionistas na publicação.
Houve também quem ironizasse a situação, enquanto outros utilizadores defenderam que existem opções mais simples para os lanches das crianças, como fruta, iogurtes naturais, pão ou queijo.
A explicação da nutricionista
Perante as críticas, Mariana Abecasis decidiu deixar uma explicação mais longa na caixa de comentários. “Enquanto nutricionista, acredito que falar de alimentação infantil exige sempre contexto, transparência e equilíbrio”, começa por escrever.
A profissional explicou que os iogurtes em questão fornecem proteína, cálcio e vitamina D e argumenta que o valor de “açúcares” indicado no rótulo inclui também a lactose, naturalmente presente no leite, bem como açúcares provenientes da fruta em algumas variedades. Deu como exemplo que uma porção destes iogurtes, que apresenta cerca de 8,7 gramas de açúcar, comparando esse valor com os cerca de 10 gramas por porção que, segundo a própria, podem estar presentes noutros iogurtes de aroma.
A informação disponível no site oficial da Nestlé confirma que algumas variedades Yoco apresentam valores próximos dos referidos. No Yoco líquido de morango e banana, por exemplo, uma embalagem de 90 gramas apresenta 8,7 gramas de açúcares e 2,5 gramas de proteína. A lista de ingredientes inclui leite magro pasteurizado, mas também açúcar.
É precisamente aqui que está uma das questões levantadas pelos críticos: o facto de parte dos açúcares totais corresponder à lactose não significa que todo o açúcar indicado no rótulo seja naturalmente presente no alimento. O produto contém também açúcar adicionado na lista de ingredientes.
Na tentativa de esclarecer a sua posição, Mariana Abecasis fez questão de dizer que não considera estes iogurtes superiores aos iogurtes naturais. “Os iogurtes naturais devem ser sempre a primeira escolha e devem ser priorizados”, escreveu, acrescentando, contudo, que existem crianças que não os aceitam devido à acidez.
É nesse contexto que defende a existência de alternativas que sejam igualmente fontes de cálcio e vitamina D. A nutricionista reforça ainda que não se devem categorizar os alimentos simplesmente como “bons” ou “maus”, sendo necessário considerar “o contexto, a frequência e a pertinência com que são consumidos”. A posição está alinhada com uma ideia que a profissional repete ao longo da resposta: um alimento não deve ser analisado apenas através de um único nutriente.
O que dizem as recomendações da DGS?
A questão torna-se mais complexa quando se olha para as recomendações oficiais. A Direção-Geral da Saúde estabelece, no seu perfil nutricional para as restrições à publicidade alimentar dirigida a crianças, um valor de referência de 10 gramas de açúcar por 100 gramas para iogurtes e leites fermentados. O documento explica, contudo, que o objetivo considerado seria que o açúcar adicionado não ultrapassasse 5 gramas por 100 gramas e que, tendo em conta a lactose naturalmente presente no leite, seria desejável um teor total inferior a 8,8 gramas por 100 gramas.
Os valores variam consoante a variedade. No Yoco de frutas variadas, por exemplo, a Nestlé indica 9,5 gramas de açúcares por 100 gramas, enquanto uma embalagem de 90 gramas tem 9,3 gramas.
A própria DGS tem alertado para o peso dos iogurtes na ingestão de açúcar pelas crianças. Num documento recente, a entidade indica que os iogurtes com adição de açúcar continuam a apresentar, em média, valores elevados, embora exista uma grande variação entre produtos.
Além da composição dos iogurtes, a polémica levanta a questão de que até que ponto é consensual que um profissional de saúde faça publicidade a produtos alimentares destinados a crianças. A Ordem dos Nutricionistas determina que os profissionais devem pautar a sua atuação por rigor técnico e científico e evitar situações de potencial conflito de interesses, que devem ser declaradas publicamente quando existam.
A Ordem também salienta que as declarações públicas de nutricionistas devem respeitar as regras deontológicas e não podem ser falsas ou desprovidas de fundamentação científica.
Isto não significa, por si só, que uma parceria comercial de um nutricionista com uma marca alimentar seja automaticamente irregular. A questão é diferente: as afirmações feitas numa publicidade de saúde devem continuar a respeitar critérios de rigor, transparência e fundamentação científica. A própria Ordem dos Nutricionistas sublinha estes princípios quando aborda a publicidade na área da saúde.
