Está a pensar comprar casa? Falámos com um consultor e estas são as 9 coisas que deve saber antes de fechar negócio

A MAGG falou com Daniel Henriques, consultor imobiliário, sobre tudo o que implica comprar uma casa nos dias de hoje, e da conversa saíram nove tópicos que precisa de saber antes de se aventurar.

Comprar casa nunca foi, na verdade, uma decisão pequena. No entanto, numa altura em que encontrar uma que reúna uma boa localização, espaço suficiente e um preço que consigamos realmente pagar parece cada vez mais difícil, é fácil sentirmos que temos de agarrar a primeira oportunidade que nos aparece à frente – sobretudo quando entramos numa casa e, em poucos minutos, ficamos demasiado emocionais e já estamos a imaginar onde vamos pôr o sofá.

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No entanto, existe um problema que precisa de ser cada vez mais falado: uma casa pode ser perfeita nas fotografias, ser até perfeita na vida real, mas pode não servir todas (ou as poucas, em muitos casos) as necessidades que temos. Pode ter a cozinha de sonho, uma varanda enorme ou até o jardim que sempre quisemos, mas ficar demasiado longe do trabalho, ter vizinhos problemáticos ou até obrigar-nos a viver no limite do nosso orçamento todos os meses.

É precisamente por isso que, antes de começar a procurar, há algumas perguntas que devemos fazer – e Daniel Henriques, consultor imobiliário, acredita que a emoção tem um lugar importante nesta decisão, sim, mas não pode ser a única a mandar. “A compra de uma casa é uma decisão muito importante e que tem de ser ponderada. É uma decisão que tem uma componente emocional mas também tem de ter uma racional, e a mistura das duas é fundamental”, começou por dizer à MAGG. 

Assim, e a partir da experiência de quem já acompanhou centenas de compradores, a MAGG falou com Daniel Henriques sobre esta temática, e da conversa saíram nove tópicos que deve mesmo ter em conta antes de se apaixonar por uma casa e lançar-se de cabeça para os tubarões. Porque, como explicado logo no início, comprar casa não é, de todo, uma decisão pequena, e vai certamente ficar consigo durante décadas. 

Tem uma ideia de quanto pode mesmo gastar?

Pode parecer óbvio, mas perceber quanto conseguimos gastar é uma das primeiras coisas que devemos fazer – e não apenas quando já encontrámos a casa de que gostamos. Antes mesmo de começar a marcar visitas, é importante olhar para os rendimentos, despesas e estabilidade profissional. “É fundamental fazer uma análise financeira”, explicou Daniel Henriques. “Não basta olhar para o valor final da prestação, perceber que ela cabe no orçamento atual e concluir que estamos preparados para avançar”.

Há, portanto, uma diferença importante entre saber qual é o valor máximo que o banco nos pode emprestar e perceber qual é o valor que, na realidade, faz sentido para nós, sendo que um dos erros mais comuns é olhar apenas para a prestação mensal. Além disso, é preciso pensar também no futuro. “Se trabalho numa área segura, quais são as minhas expectativas a curto e médio prazo? Posso ter uma taxa variável ou uma taxa fixa? Como pode evoluir a minha situação? Tudo isto tem de ser tido em conta”, explicou.

Não se deixe ficar por apenas um banco

Depois de percebermos quanto podemos gastar, chega a altura de perceber como vamos financiar a compra. E, apesar de ser natural começar pelo banco onde já temos conta, Daniel Henriques aconselha, na verdade, a não ficar por aí. “Os bancos são empresas e, tal como negociamos o preço da casa, também podemos negociar tudo aquilo que está relacionado com o crédito”, explicou. Por isso, faz sentido consultar o banco com que já trabalhamos, mas também procurar mais mercado.

O mesmo vale para os seguros associados ao empréstimo. “Muitas vezes, os bancos apresentam seguros que podem ser mais caros do que outras opções existentes no mercado”, disse Daniel Henriques. A ideia é, portanto, simples: antes de assumir uma prestação durante muitos anos, vale a pena perceber exatamente o que estamos a contratar e comparar alternativas, porque negociar uma casa “não termina no momento em que chegamos a um acordo”. 

Mais do que aquilo que quer, saiba aquilo que precisa 

É aqui que a emoção começa a ganhar espaço. Uma piscina, um jardim, uma cozinha grande ou uma sala cheia de luz podem fazer-nos pensar imediatamente que encontrámos a casa certa, mas será que são realmente as características de que precisamos? Daniel Henriques deu um exemplo simples para explicar isto. “Porque é que vou comprar uma casa numa determinada zona, se depois vou ter muito trânsito todos os dias no percurso para o trabalho?”.

Isto acaba por nos fazer pensar, porque apesar de nos apaixonamos pela casa e por tudo aquilo que ela tem, a verdade é que há a grande possibilidade de passarmos mais horas do dia fora dela a tentar lá chegar do que propriamente lá dentro. É por isso que, antes de procurar, devemos distinguir aquilo que queremos daquilo que precisamos. Onde trabalhamos? Quanto tempo estamos dispostos a passar em deslocações? A nossa família pode crescer? É tudo uma questão de respostas. 

Tenha em consideração o bairro

Uma casa não existe sozinha – tem uma rua, vizinhos, acessos, zonas de comércio, transportes e um ambiente que vai fazer parte da nossa rotina todos os dias. Por isso, uma simples visita ao imóvel pode não ser suficiente, e Daniel Henriques aconselha mesmo a explorar mais. “É importante visitar também o bairro, inclusivamente à noite, para perceber se é um ambiente confortável”, explicou, deixando claro que a vida noturna é também importante para perceber se quer ficar naquela zona. 

A pergunta é, portanto, bem introspectiva: conseguimos imaginar-nos a viver ali? Gostamos daquela zona? Sentimo-nos seguros? E se tivermos filhos, é ali que queremos que eles cresçam? “É fundamental visitar a casa, mas não podemos ficar apenas pela casa”, disse. Ou seja, podemos sim apaixonarmo-nos pelo interior, mas descobrir mais tarde que não gostamos da vida lá fora e arrependermo-nos durante décadas da nossa decisão. 

As fotografias no site não são suficientes

Uma coisa é certa: os portais imobiliários podem ajudar-nos a descobrir casas, comparar preços e perceber o que existe no mercado, mas há coisas que nenhuma fotografia consegue mostrar – e que podem fazer toda a diferença. Uma fissura na parede, por exemplo, pode ser apenas um detalhe ou esconder um problema maior. “Podemos, por exemplo, falar de uma parede com uma fissura: é grande? É pequena? O que é que pode estar por detrás dela?”, explicou Daniel Henriques. 

E, se existir também a possibilidade de compra, há um lugar a que deve sempre prestar especial atenção: a garagem. “As garagens são, muitas vezes, aquilo que melhor reflete as condições de um prédio ou de um condomínio”, explicou o consultor. Desta forma, pode parecer um pormenor quando estamos a visitar uma casa, mas é precisamente nestas zonas em que existem menos fotografias que o comprador vai perceber melhor como está na realidade a ser tratado o edifício.

E os custos que chegam depois?

Ora, comprar uma casa não significa comprar apenas aquilo que vemos no dia da visita –  há despesas e decisões futuras que podem ter um impacto significativo no orçamento. “É importante perceber se o telhado está em boas condições, se as partes comuns estão bem cuidadas, se existem obras previstas e que despesas poderão surgir no futuro”, explicou Daniel Henriques. Até porque, aliado ao que já foi explicado no tópico anterior, o estado do condomínio também pode dizer muito sobre aquilo que nos espera. 

Isto porque “se as partes comuns estão degradadas, se existe falta de manutenção ou se há sinais de desorganização”, vale a pena perceber o porquê. “São aspetos menos apelativos, mas fundamentais numa compra que, na maioria das vezes, é uma das maiores decisões financeiras da vida de uma pessoa”. Assim, não basta perguntar apenas quanto custa a casa, e sim quando vai custar continuar a mantê-la. 

Compare o que está a comprar 

Comparações neste mundo são muito importantes, pois duas casas podem ter exatamente o mesmo preço mas representar decisões completamente diferentes. Uma pode, por exemplo, estar numa zona com melhores acessos, ter um condomínio bem gerido e não precisar de obras, enquanto que a outra pode esconder despesas futuras que só vamos descobrir depois. É também aqui que, para Daniel Henriques, entra o conhecimento de quem está no terreno.

“Os portais conseguem apresentar escolas, rankings, preços e distâncias. Mas um consultor que está no terreno consegue perceber muito mais”, explicou. Uma rua pode estar a mudar, uma obra pode estar prevista, os acessos podem ser alterados ou uma determinada zona pode estar a ganhar ou perder atração, e nada disso se vê num portar. “Existem acontecimentos que surgem diariamente”, disse. Por isso, olhar apenas para o preço por metro quadrado pode não ser suficiente. 

Só entre no mercado se for para avançar

Depois de tudo isto, basta dizer que uma das melhores formas de não comprar por impulso é precisamente preparar tudo antes de encontrar a casa ideal. “Antes de começar a ver casas, temos de começar por perceber o que podemos comprar”, disse Daniel Henriques. Isso, lá está, significa saber qual é o orçamento, quais são as zonas prioritárias e alternativas e quais são as características que procuramos. Para isso, o consultor imobiliário dá umas dicas. 

“Escolher três zonas específicas como primeiras opções e, depois, mais uma ou duas como alternativas também pode ser uma boa estratégia”. E depois de sabermos quanto podemos gastar e onde queremos procurar, estamos numa posição muito mais confortável. “Se encontrarmos a casa certa, estamos em condições de avançar”, e essa preparação, para Daniel Henriques, pode ser precisamente aquilo que faz a diferença num mercado competitivo.

Faz sentido daqui a três anos?

No entanto, no meio de todas as contas, visitas e propostas, é fácil esquecer uma das perguntas mais importantes: como é que eu me vou sentir com esta decisão daqui a alguns anos? Daniel Henriques acredita que uma boa compra não deve ser avaliada apenas no momento em que as chaves são entregues. “Muitas vezes, só três anos depois é que o cliente olha para trás e pensa ‘eu tomei realmente a decisão certa’”.

É por isso que o acompanhamento deve ir além da concretização do negócio. “O meu trabalho não é vender casas. O meu trabalho é acompanhar esta pessoa, perceber quais são as suas necessidades, qual é a sua realidade e quais são os seus objetivos”, até porque, afinal, uma casa é o lugar onde vamos viver uma grande parte da nossa vida. Assim, e voltando ao início, Daniel Henriques resume tudo ao equilíbrio do comprador. “A emoção faz-me escolher uma casa, mas a razão faz-me escolher a casa certa”, rematou.

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