Anda a ser tema de conversas em cafés, escritórios, casas e até nas ruas. A possibilidade de o hantavírus, vírus que provocou um surto de infeções dentro de um cruzeiro, vir a deixar a população novamente fechada e sem contacto humano está a preocupar a população, tais são as parecenças com o Covid-19, e há quem acredite que vem aí uma nova pandemia. Mas será que é mesmo assim?

Surto de hantavírus. Influenciador foi a casamento após desembarcar de cruzeiro infetado
Surto de hantavírus. Influenciador foi a casamento após desembarcar de cruzeiro infetado
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Tudo começou a 1 de abril, quando o navio MV Hondius partiu da Argentina em direção a Cabo Verde, e uma das hipóteses, de acordo com o “Jornal de Notícias”, é que uma pessoa infectada teria entrado no barco na zona de origem para fazer o trajeto. Sabe-se que são reportados cerca de 100 a 200 casos de hantavírus por ano na Argentina, pelo que não seria de espantar que este fosse mesmo o início da contaminação.

Uma coisa levou à outra e o vírus acabou por se propagar, dando origem, até ao momento, a três mortes e vários infectados confirmados, sendo que também existem muitas pessoas que estão à espera dos resultados. A primeira morte ocorreu 10 dias depois do embarque, a 11 de abril, e desde aí que tem existido precaução e bastantes cuidados para que nada pior aconteça. 

No entanto, é consenso geral dentro da comunidade médica de que não existe qualquer probabilidade de, neste momento, existir um "Covid-19" novamente, onde toda a população fica em quarentena durante duas semanas. É preciso, sim compreender o que está a acontecer e prevenir algumas medidas, mas Ricardo Moutinho Guilherme, especialista em medicina geral e familiar, explica melhor tudo sobre o hantavírus. 

Ricardo Moutinho Guilherme, médico especialista em medicina geral e familiar
Ricardo Moutinho Guilherme, médico especialista em medicina geral e familiar Ricardo Moutinho Guilherme, médico especialista em medicina geral e familiar créditos: CUF

O que é, afinal, o hantavírus? E como se transmite?

"O hantivírus é uma família de vírus, ou seja, são os hantivírus, na realidade. É um vírus que tem como principal transmissor, como se tem vindo a divulgar muito, os roedores, sendo que neste caso o mais comum é a transmissão por ratos. Eles são os principais reservatórios deste hantavírus", começou por explicar Ricardo Moutinho Guilherme à MAGG.

"Este é um vírus que se transmite por partículas que eles podem emitir na urina, nas fezes e nas salivas, e a transmissão não é por uma mordida direta e sim pela comida. Eles andam a rondar reservatórios de comida, e depois se ter pensado que isso tinha acontecido no cruzeiro, verificou-se que afinal vêm de uma estirpe muito rara chamada Andes, que vem da América do Sul", continuou, explicando então que esta é a única estirpe que, depois de transmitida de um roedor para um humano, pode ser transmitida de um humano para outro.

"Após a primeira infeção, que partiu então do roedor, a transmissão entre humanos só é possível através de um contato muito próximo, ou seja, gotículas a nível aéreo, pelo ar, digamos assim. É muito semelhante neste contexto, nesta especificidade, ao Covid, a questão é que neste caso é preciso um contacto muito mais duradouro e muito mais próximo, por isso é que é muito mais raro."

Quais são os sintomas mais comuns?

"Numa fase inicial parece uma gripe normal, com sintomas como febre, dores musculares, aquela sensação de que dói a cabeça e o corpo inteiro. Eventualmente pode causar, mas nem sempre, sintomas gastrointestinais, do género vómitos ou diarreias. Depois, passados alguns dias é que se começa a desenvolver essa fase grave como aconteceu no navio, altura em que se suspeita que poderá ser algo mais além de uma gripe."

Ou seja, a realidade é que, no início, nada distingue um caso potencialmente grave de uma infecção mais ligeira, uma vez que os sintomas são os mesmos. "Tudo parece apontar para algo mais ligeiro, como uma febre, dores musculares, dor a cabeça. Depois, passados alguns dias, é que começa a aparecer essa insuficiência respiratória, ou seja, aquela dificuldade em respirar, mesmo ofegante, e a pessoa ficar muito debilitada, ao ponto de nem conseguir se levantar da cama durante vários dias", explicou o especialista em medicina geral e familiar. 

E sim, também existem pessoas assintomáticas, tal e qual como aconteceu no Covid-19. "No início pode haver uma fase assintomática, que nós chamamos de incubação. Ou seja, a pessoa está a transportar o vírus sem sequer saber, e só sabe se existir alguma suspeita, precisamente como aconteceu no cruzeiro. Mas nem todas têm sintomas, como já aconteceu, e só se percebe através de exames."

Além disso, o médico explicou também que, à semelhança do Covid-19, os grupos mais propícios a apanhar o hantavírus são a faixa etária mais velha e quem tem problemas de saúde. "Pessoas com mais idade, mais idosas, ou com algum problema de saúde, nomeadamente no sistema imunitário que é o que debilita sempre mais, uma vez com que faz com que a resposta seja mais ineficaz e que evolua para sintomas mais graves ou morte."

Não se verifica qualquer possibilidade de um "COVID 2.0"

Como explicou Ricardo Moutinho Guilherme, o hantavírus é muito mais difícil de propagar, pelo que, até ao momento, a comunidade médica acredita que não há qualquer possibilidade de uma nova quarentena mundial à vista. "Este vírus já existe há muitas décadas, mas é tão difícil de propagar que esse é o porquê de não se ter tornado numa pandemia global. É preciso um contacto durante um período muito mais prolongado, mais próximo, estar em contacto durante muitas horas com a mesma pessoa que está doente."

Desta forma, há duas razões pelo qual não se acredita numa nova pandemia. "Uma pandemia, para se tornar uma pandemia assim mundial como foi a Covid, tem que ser muito facilmente transmissível de pessoa para pessoa, o que não é o caso, e outra coisa é que a verdade é que não é tão fácil a pessoa ser o carregador", explicou. 

"É certo que este vírus tem uma letalidade muitíssimo maior que o Covid, mas o risco global neste momento ainda continua a ser muito baixo. O que nós achamos é que acabarão por morrer, entre todos estes ocupantes, uma meia dúzia de pessoas", acrescentou Ricardo Moutinho Guilherme, deixando assim claro que não está de todo à vista uma nova pandemia. 

Um fim? Só se as normas forem cumpridas

E como é que isto vai, afinal, chegar ao fim? O especialista em medicinal geral e familiar explicou que discussões já têm sido tidas, e que há duas possibilidades para que tudo fique no passado. "Em princípio irá desenvolver-se uma vacina, porque sempre que há um surto que assusta os humanos, digamos assim, é desenvolvida uma vacina. Até agora não foi desenvolvida porque os números eram muito mínimos e não se justificava, mas tendo existido todo este alarme, é provável que se meta mãos ao trabalho."

"Segundo, é preciso existir aqui um controlo destes roedores, especialmente em zonas rurais ou espaços fechados, pouco ventilados, como são os porões dos cruzeiros, por exemplo. É evitar já desde aí a partir da fonte", acrescentou Ricardo Moutinho Guilherme, que também não deixou de lado o compromisso da população e as suas próprias regras de conduta. 

"Devíamos também aprender um bocadinho mais com o Covid, e sempre que há um surto destes não podemos facilitar e acontecer o caso que foi a esposa do primeiro senhor que faleceu, que se deixou depois viajar livremente. Tem que haver o que estão a fazer neste momento, um período de quarentena, de isolamento, com vigilância médica, manter as pessoas isoladas para não se disseminar rapidamente e tornar uma pandemia como foi o caso do Covid-19."

E depois de tudo isto, o que precisa de reter?

"Nem alarmismo, nem desvalorização. Sinto que houve algum alarmismo, o que é normal porque o Covid não foi assim há tanto tempo, mas também não se pode desvalorizar, deixar-se a pessoa viajar e vamos andar para a frente. Este é um evento que merece uma reflexão nossa, rigorosa, científica, mas neste momento a mensagem é de tranquilidade. Atenção sim, mas alarmismo não."

"Não há aqui indicações de  qualquer tipo de medida neste momento, porque é certo que já morreram pessoas, mas estes surtos estão sempre a acontecer em todo o mundo. Este tem especial relevância pelas semelhanças ao Covid, mas não tem nada que ver. É muito mais letal, é verdade, mas é muito mais dificilmente transmissível", rematou Ricardo Moutinho Guilherme.