Ainda sem direção formada nem manifesto divulgado, o movimento já tem apoios de peso e críticas à mistura. Saiba tudo.
O movimento de Mulheres Conservadoras prepara-se para ser lançado oficialmente em novembro, mas a 11 de julho deu o seu primeiro passo público. Foi no Palácio Valenças, em Sintra, um espaço da câmara municipal, que aconteceu o pré-lançamento que juntou deputadas do Chega e uma representante da bancada evangélica brasileira.
Entre os presentes estiveram as deputadas do Chega Rita Matias, Cláudia Estevão e Madalena Cordeiro, além da deputada federal brasileira Priscila Costa, ligada ao Partido Liberal no Brasil. A presença desta última reforça as ligações que o movimento tem vindo a estabelecer com os setores da política brasileira associados à evangelização, numa aproximação que já levanta questões sobre a natureza e os objetivos do movimento.
No pré-lançamento a 11 de julho, além das deputadas do Chega, estiveram presentes: Catarina Nicolau Campos (Jurista e Chefe de gabinete do grupo parlamentar do CDS), Carolina Resque (Candidata a deputada federal do Pará e advogada), Teresa Nogueira Pinto (consultora na área da Relações Internacionais, análise de risco e business Intelligence), Rute Sousa (especialista em comunicação), Débora Luciano (advogada) e Jonathan Hall (pastor), Lorena Gato (influenciadora digital brasileira), Marisa de Oliveira, Ana Carvalho (Psicanalista).
Pouco se sabe ainda sobre o movimento político de Mulheres Conservadoras, mas a MAGG falou com Rebeca Batista, fundadora do mesmo movimento, para perceber o que está em causa.
Para Rebeca Batista, a fundadora, a criação do movimento de Mulheres Conservadoras nasce de uma necessidade. “Consideramos que o movimento feminista deixou de representar a maioria das mulheres”, defendendo que “o problema surge quando uma parte do feminismo abandona essa vocação universalista e passa a interpretar a sociedade sobretudo através de uma lógica interseccional e de conflito entre grupos.” Segundo Rebeca Batista, há mulheres que “não se revêm neste feminismo” e que “também precisam de representação”. A fundadora diz que o movimento “quer ser ponte entre associações, pessoas, empresárias, mentes pensantes, intelectuais, pessoas da política para que tenham aqui um ponto de encontro onde possam reunir-se”.

Questionada sobre o que significa ser uma “mulher conservadora”, Rebeca Batista recusa a ideia de um modelo único. “Podemos ter percursos, profissões, famílias e escolhas de vida completamente diferentes. O que partilhamos é uma determinada visão sobre aquilo que vale a pena preservar e transmitir às próximas gerações.”
Sobre o manifesto do movimento, ainda por divulgar, a fundadora prefere não adiantar, dizendo que “está neste momento em construção e será apresentado publicamente no evento de lançamento oficial do movimento, previsto para mais perto do final do ano”. Explica que “está a ser trabalhado coletivamente” e que “não parece correto antecipar agora o seu conteúdo definitivo”. Rebeca Batista diz também que, “no momento do lançamento, serão apresentados de forma clara os princípios, valores e objetivos que orientarão o movimento”.
Rebeca Batista considera não se tratar de “um movimento antifeminista”. “O problema está quando se pretende que, para defender esses direitos, todas as mulheres tenham obrigatoriamente de subscrever uma determinada visão ideológica sobre a sociedade”, acrescenta.
Sobre a estrutura do movimento, Rebeca Batista revelou que está numa “fase de construção e consolidação da estrutura”, pelo que não há “números oficiais”, mas confirma que contará com uma direção e com “embaixadoras”. A fundadora garante que “o movimento é apartidário” e acrescenta que “existem mulheres envolvidas ou próximas de diferentes sensibilidades partidárias, incluindo Chega, PPD/PSD e CDS” e diz que não são “estruturas de nenhum partido” nem pretendem “transformar-nos numa”.
Pelo que já é público, este movimento defende uma visão conservadora da sociedade, com uma forte presença cristã. Nas redes sociais, os conteúdos associados ao movimento abordam temas como a defesa da família tradicional, a oposição à interrupção voluntária da gravidez (IVG), críticas à libertação sexual e social das últimas décadas e uma presença da religião na vida pública. Para além do que já foi mencionado, este grupo de mulheres defende o anti-feminismo, a defesa do estado de Israel e até ideias ‘bolsonaristas’, segundo o “Expresso“.
De ressalvar que esta entrevista com a fundadora esteve marcada, de forma a que a MAGG conseguisse fazer questões abertas e esclarecer todas as dúvidas, mas depois de várias tentativas, a única coisa que obtivemos foram respostas enviadas por WhatsApp, fora dos timings pedidos, acabando por não esclarecer as dúvidas que pudessem existir.
“Se isto é melhorar os direitos das mulheres, então, minhas amigas, está na altura mesmo de refletirmos sobre aquilo que nós queremos para as nossas vida”
A MAGG falou também com Paula Cosme Pinto e Francisca de Magalhães Barros, ativistas dos direitos das mulheres, para perceber o que está em causa com o aparecimento deste movimento.
Do outro lado do espectro, a leitura é bem diferente. Para Paula Cosme Pinto, o aparecimento do movimento não é motivo de estranheza. “Nós, enquanto cidadãs de um País felizmente democrático, somos livres de ceder as nossas opiniões, as nossas ideologias e de viver conforme as nossas crenças”, começa por dizer. O problema começa quando essas crenças “se tentam transformar em movimentos que são políticos”, sublinha em entrevista à MAGG. Acrescenta que o objetivo é “espartilhar sobre a vida das pessoas”, num País que recorda ser laico.
A ativista questiona sobretudo os apoios do movimento: o aval do Chega e a ligação às bancadas evangélicas do Brasil, que têm protagonizado “ataques cerrados aos direitos femininos do outro lado do oceano, portanto há aqui uma componente bastante política”.

“Que melhorias é que este movimento pretende trazer à vida das mulheres, aos direitos que já foram conquistados e àquilo que são as leis atuais?”, questiona. Na sua leitura, o movimento representa um retrocesso sobre o papel da mulher, nomeadamente a ideia da maternidade “como quase compulsória”.
A propósito de declarações recentes em televisão de uma porta-voz do movimento, Rute Sousa, onde esta afirma que qualquer mulher violada (menor ou não) deveria ser obrigada a levar uma gravidez até ao fim, Paula Cosme Pinto diz que “se isto é melhorar os direitos das mulheres, então, minhas amigas, está na altura mesmo de refletirmos sobre aquilo que nós queremos para as nossas vidas no futuro”.
A ativista afirma haver uma contradição no discurso pois, segundo a mesma, as porta-vozes que defendem o regresso das mulheres ao “lar”, são “mulheres que são independentes financeiramente” e “que estão numa posição política”.
Também Francisca de Magalhães Barros, ativista, deixou críticas ao movimento. “É a própria luta feminista que garante a estas mulheres o espaço, a liberdade e o direito de intervenção política que hoje usam”, sublinha em declarações enviadas à MAGG, considerando que transformar o conservadorismo numa “bandeira política” para limitar direitos de outras mulheres, é “instrumentalizar a própria liberdade que o feminismo lhes conquistou”.

A ativista associa diretamente o surgimento do movimento das Mulheres Conservadoras aos índices de violência em Portugal. “Num País com os índices de violência que Portugal regista, onde a violência doméstica e os crimes sexuais exigem uma resposta legal e penal muito mais severa e a consolidação do conceito de feminicídio, criar movimentos para questionar a agenda da igualdade revela uma profunda insensibilidade prioritária”, afirma.
Para Francisca de Magalhães Barros, as verdadeiras causas das mulheres “passam pela proteção da vida, da integridade e da segurança”.”Tudo o que fuja a isto e tente limitar a autonomia das mulheres não é apenas um desvio de atenção — é um obstáculo na luta contra os crimes mais graves da nossa sociedade.”
Questionada sobre se o impacto do movimento vai trazer problemas, a ativista alerta que nos encontramos numa “emergência cultural silenciosa, em que a proliferação da ‘manosfera’ e de conteúdos de ódio digital está a moldar o comportamento dos jovens rapazes contra as raparigas”.
“Quando surgem movimentos feministas a validar narrativas de regressão, o sinal enviado aos jovens é devastador”, remata, alertando para “a ideia de que a igualdade é um excesso e não uma garantia” e que “proteger os direitos adquiridos e educar as novas gerações para o respeito mútuo não é uma opção ideológica — é uma necessidade de sobrevivência democrática”.
