Cátia Azevedo representou o Sporting durante 18 anos, tornou-se recordista nacional dos 400 metros e participou em três Jogos Olímpicos. A despedida está a provocar polémica — e as versões da atleta e do Sporting sobre o que aconteceu não coincidem.
Foram 18 anos de leão ao peito e praticamente uma carreira inteira ligada ao mesmo clube. Cátia Azevedo é uma das principais figuras do atletismo português, detém o recorde nacional dos 400 metros, com 50,59 segundos, e representou Portugal nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, Tóquio, em 2021, e Paris, em 2024. Agora, poucos meses depois de ter sido mãe, a velocista ficou sem clube. O Sporting anunciou a saída de Cátia Azevedo juntamente com as de Ana Mafalda Ferreira, Carlos Nascimento, Omar el Khatib, Rui Pinto e Tiago Pereira. “Obrigado por todo o Esforço e Dedicação de Leão ao peito. Farão para sempre parte da história do Sporting”, escreveu o emblema de Alvalade na publicação divulgada através da conta @sportingmodalidades.
Mas foi precisamente na caixa de comentários dessa publicação que a saída de Cátia começou a gerar polémica. Marta Pen Freitas, também atleta olímpica portuguesa, reagiu de forma particularmente crítica: “A Cátia acabou de ser mãe, está de volta aos treinos. Inacreditável o clube onde ela cresceu, se tornou atleta olímpica não a apoie neste novo capítulo”. A reação foi posteriormente partilhada pela própria Cátia.
A maternidade é central para perceber por que razão esta saída está a levantar tantas questões. Cátia foi mãe de Afonso em março deste ano e retomou os treinos poucas semanas depois. A gravidez tinha sido planeada tendo precisamente em conta o ciclo olímpico: a atleta explicou anteriormente que queria ter 2026 para recuperar e 2027 para preparar a qualificação para os Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028. Além dos 400 metros, admitia até experimentar uma transição para os 800 metros.
Sporting e Cátia apresentam versões diferentes
Inicialmente, informações divulgadas por “A Bola” e pelo “Record” indicavam que o Sporting teria apresentado à atleta uma proposta de renovação por mais uma temporada, sem redução do valor do contrato, que Cátia teria recusado. Só que a própria atleta apresentou entretanto uma versão diferente. Em declarações publicadas esta sexta-feira, 3 de outubro, por “A Bola”, Cátia garante que, numa primeira reunião com Paulo Reis, responsável pelo atletismo do Sporting, e Miguel Afonso, vice-presidente do clube, lhe foi apresentada uma proposta de apenas um ano e com redução do valor que recebia. “Eu não fiz nada para ter uma redução. Dos 18 anos em que corri pelo clube, 16 foram com vitórias, resultados e representações ao alto nível”, afirmou.
Mais grave é outra alegação feita pela velocista. Segundo Cátia, Paulo Reis terá justificado as dúvidas sobre a sua continuidade com a maternidade e com uma lesão anterior. “Foste mãe. És um tiro no escuro, não sei como virás”, terá ouvido a atleta, de acordo com o seu relato. Cátia afirma ainda que, aquando da renovação anterior, pretendia assinar por quatro anos para poder preparar todo o ciclo olímpico até Los Angeles 2028. Acabou por aceitar dois anos, garante, perante um compromisso verbal de que as mesmas condições seriam mantidas por mais dois. Agora, considera que essa promessa não foi cumprida.
A saída ganha ainda outro contraste dentro do próprio atletismo do Sporting. Dias antes, o clube tinha anunciado a renovação de Liliana Cá, que também interrompeu a carreira para ser mãe. Na altura, a lançadora destacou precisamente o apoio que recebera do Sporting, dizendo que o clube “nunca” a tinha largado, “mesmo depois da paragem para ser mãe”.
Cátia Azevedo, por seu lado, encontra-se agora sem clube numa fase em que tentava reconstruir a forma física depois da gravidez e preparar aquela que poderá ser a quarta participação olímpica da carreira. O objetivo continua marcado: Los Angeles 2028.