A Polícia Judiciária (PJ) realizou esta terça-feira, 20 de janeiro, uma megaoperação. Batizada de Operação Irmandade, esta levou à detenção de 37 pessoas suspeitas de integrarem o grupo neonazi 1143, liderado por Mário Machado. Segundo a investigação, o grupo difundia ideologia neonazi, incitava ao ódio e à violência racial e estaria preparado para atuar de forma organizada contra minorias, sobretudo imigrantes.

Entre os detidos estão perfis que chamaram a atenção das autoridades e da opinião pública, como um sargento da Força Aérea, um polícia do Comando de Setúbal, um profissional de saúde, militantes e ex-militantes de partidos de extrema-direita, bem como pessoas com antecedentes por agressões, furtos e crimes de ódio, segundo o "Diário de Notícias". Há ainda elementos ligados a claques de futebol e ao rugby, com processos disciplinares por violência.

A investigação aponta para uma estrutura hierarquizada, com células regionais, coordenação nacional e ligações internacionais. O grupo financiava-se através da venda de merchandising e da presença nas redes sociais, onde partilhava mensagens racistas e xenófobas. Segundo a PJ, não havia um ataque concreto iminente, mas deveriam agir "quando fosse preciso", descrevendo a preparação para uma eventual "guerra racial", de acordo com o processo citado pelo "Jornal de Notícias".

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Esta operação surge num contexto de crescimento acentuado dos crimes de ódio em Portugal. De acordo com dados revelados pelo diretor nacional da PJ, Luís Neves, citado pelo "Público", este tipo de crimes aumentou sete vezes entre 2019 e 2025, passando de nove para 64 casos. Muitas vítimas continuam a não denunciar por medo, o que agrava o fenómeno.

Mas, afinal, o que é o Grupo 1143 e quem são as pessoas que o integram? Há ligações a partidos políticos de extrema-direita, como o Chega ou o Ergue-te? O grupo apelou ao voto e participou em manifestações? Nós explicamos.

O que é o Grupo 1143?

O Grupo 1143 é uma organização de extrema‑direita com inspiração neonazi, liderada por Mário Machado, figura histórica do movimento skinhead em Portugal e atualmente a cumprir pena de prisão, por incitamento ao ódio e à violência contra mulheres de esquerda em publicações nas redes sociais. Mesmo detido, continuava a dirigir o grupo a partir da cadeia.

A ideologia do 1143 assenta no nacional‑socialismo, com discurso racista, xenófobo e violento. O grupo tem sido associado a agressões com motivação ideológica, sobretudo contra imigrantes, e à intimidação em manifestações públicas. A sua conta de YouTube foi suspensa por incitamento ao ódio e à violência.

Quem são as pessoas detidas?

Os 37 detidos na Operação Irmandade têm perfis muito diversos, o que levou a PJ a sublinhar a capacidade de infiltração social e institucional do Grupo 1143. Entre eles há militares, polícias, profissionais qualificados, candidatos políticos, ativistas de extrema-direita e indivíduos com histórico criminal, unidos não por um percurso comum, mas por uma ideologia partilhada.

Dois dos casos mais sensíveis envolvem elementos das forças de segurança. Foi detido um sargento da Força Aérea, cuja detenção foi confirmada pela própria instituição, que aguarda o apuramento dos factos para aplicar, eventualmente, um processo disciplinar, diz o "Observador". O militar integrou a banda de música da Força Aérea, segundo despachos publicados em Diário da República entre 2006 e 2015.

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Há também um agente da PSP do Comando de Setúbal entre os arguidos. O grupo inclui ainda um profissional de saúde, bem como indivíduos com percursos públicos ou semipúblicos. Entre eles contam-se militantes e ex-militantes partidários, alguns dos quais foram candidatos autárquicos ou legislativos, tanto pelo Chega como por partidos de extrema-direita entretanto extintos, como o PNR, ou pelo seu sucessor político, o Ergue-te.

Há também detidos com antecedentes criminais e disciplinares. Um dos arguidos foi condenado por furto e há também um ex-membro dos Super Dragões, condenado num processo relacionado com um plano de intimidação que culminou em agressões. Estão ainda identificados jogadores de rugby com processos disciplinares por agressões, incluindo um dos detidos que foi filmado a agredir pessoas na manifestação do 25 de Abril, em Lisboa.

Há mulheres no grupo?

Entre os 37 detidos, há cinco mulheres, o que contraria a ideia de que estes grupos são exclusivamente masculinos. De acordo com informação apurada pelo "Público", pelo menos duas tiveram participação política ativa, como Ana Rita Castro, que foi candidata pelo Chega em várias eleições, e Vanda Loureiro, que geria uma loja de merchandising ligada ao grupo e foi candidata pelo Ergue-te nas eleições de maio do ano passado.

Qual é a suposta ligação a partidos de extrema‑direita?

A par de Ana Rita Castro, a investigação e o trabalho jornalístico de vários órgãos de comunicação social revelam ligações diretas e indiretas entre membros do 1143 e o Chega, por exemplo. Entre os detidos está João Peixoto Branco, que foi candidato do Chega à Junta de Freguesia de Selho São Lourenço e Gomilhães, em Guimarães, e ex‑dirigente concelhio do partido, diz a "SIC Notícias".

Outro nome sonante é o de Rui Roque, acrescenta a mesma publicação. Este é conhecido por ter apresentado, numa convenção do Chega, uma moção que defendia a retirada dos ovários a mulheres que recorressem à interrupção voluntária da gravidez no SNS. Apesar de ter sido anunciado como expulso, acabou por integrar listas opositoras internas e, em 2024, foi candidato pelo Ergue‑te, liderado por Rui Fonseca e Castro e herdeiro político do PNR.

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A "SIC Notícias" dá ainda conta de um quarto elemento ligado ao Chega citado no processo, que não terá sido detido. Em causa está o militante Tirso Faria, conhecido por ter participado em inúmeros encontros e manifestações do 1143 e que, além disso, terá enviado dinheiro para contas relacionadas com o movimento extremista.

Também há fortes ligações do Ergue‑te ao 1143, que são descritas como próximas, sobretudo nos canais internos de Telegram, onde existe apoio mútuo e partilha de posições. Alguns dos detidos foram candidatos pelo PNR em eleições passadas, antes da extinção do partido. A somar isto, há ainda pontos de contacto ideológico e pessoal com outros grupos extremistas, como o Movimento Armilar Lusitano (MAL), desmantelado no ano passado por suspeitas de planeamento de atos terroristas, incluindo uma alegada invasão ao Parlamento.

O grupo chegou a apelar ao voto no Chega?

De acordo com o "Expresso", o Grupo 1143 apelou abertamente ao voto em candidatos apoiados pelo Chega através das redes sociais. Em várias publicações, comentava sondagens e atacava elites económicas e culturais, defendendo que a imigração representa uma ameaça à identidade nacional.

Em manifestações contra a imigração convocadas pelo Chega, Mário Machado chegou a mobilizar membros do 1143 para funcionarem como cordões de segurança. Em setembro de 2024, a revista "Sábado" revelou que um deputado do Chega utilizou autocarros do partido para participar numa dessas manifestações, onde viajavam também membros do 1143 inscritos como militantes ou simpatizantes.

André Ventura já reagiu?

André Ventura negou qualquer conhecimento das ligações entre militantes do Chega e o grupo neonazi 1143, segundo o "Expresso". Em declarações na "Grande Entrevista", da RTP, afirmou que o partido é grande e que, como em qualquer força política, podem existir casos isolados. Garantiu que afastou “quem tinha de afastar” e sublinhou que “qualquer pessoa pode ser militante do Chega”.

Confrontado com o apoio do grupo à sua candidatura, André Ventura, que vai à segunda volta das eleições presidenciais com António José Seguro, a 8 de fevereiro, classificou a pergunta como “deslealdade jornalística” e atacou os jornalistas, acusando‑os de parcialidade. Chegou a comparar críticas ao seu partido com apoios históricos a outras figuras políticas.