Uma investigação expôs o esquema de publicidade enganosa por trás dos jogos de azar não licenciados em Portugal. Há bónus falsos e fuga ao Fisco, e envolve figuras públicas e influenciadores.
Diariamente, ao percorrer o Instagram ou o TikTok, multiplicam-se os vídeos de figuras públicas e influenciadores a celebrarem ganhos extraordinários em plataformas de jogo online. Contudo, as vitórias exibidas no ecrã são muitas das vezes falsas e fazem parte de uma engrenagem bem oleada que enriquece promotores e plataformas ilegais, enquanto conduz milhares de seguidores ao vício e a perdas financeiras.
Uma investigação da CMTV e do “Correio da Manhã” desmantelou os bastidores do negócio. De acordo com a investigação, o programa “Doa a quem Doer” simulou interesse em promover estes casinos e recebeu propostas que incluíam pagamentos por cada publicação, uma percentagem do dinheiro perdido pelos utilizadores angariados e o envio de documentos e imagens adulterados para fingir lucros reais nas redes sociais. Tudo isto acompanhado pela promessa explícita de que os pagamentos seriam feitos à margem do Fisco, configurando indícios de burla e fraude fiscal.
Apesar de existirem mais de 4.000 queixas entregues às autoridades, ainda não existem acusações formais. Sandrina Pratas, ex-concorrente do “Big Brother”, é uma das poucas figuras públicas a admitir o envolvimento e a dar a cara. “Entraram em contacto comigo e propuseram-me um negócio. Davam-me bónus para eu jogar no casino e filmar-me apenas quando ganhasse. Pagavam-me mensalmente pelas histórias que publicava. Tinha de fazer crer que era fácil ganhar dinheiro […] Caí na realidade quando o meu tio perdeu 500 euros. Senti que estava a destruir a minha vida e a dos outros.”
A jovem de 28 anos disse que aceitou as propostas por necessidade financeira, mas que o próprio processo a acabou por transformar numa jogadora compulsiva antes de recuar.
A lista de figuras públicas associadas à divulgação de plataformas não licenciadas abrange nomes oriundos de vários programas de televisão, como Catarina Miranda, Bruno Savate, Bernardina Brito, Francisco Monteiro, Helena Isabel, Joana Diniz, Afonso Leitão e Vânia Sá, além de criadores de conteúdo com centenas de milhares de seguidores, como o “Sr. Mirtilo” ou Vasco Meska.
De acordo com a investigação, a maioria dos influenciadores recusou prestar qualquer tipo de esclarecimentos sobre os contornos dos contratos ou a veracidade dos ganhos exibidos. Bernardina Brito alegou desconhecimento sobre a ilegalidade das operações, afirmando que lhe “apresentam documentos que parecem legais”. Já Bruno Savate, alvo de uma queixa-crime em 2024, optou por não responder, mantendo a divulgação das plataformas.
Enquanto em Portugal existem menos de 20 entidades de apostas devidamente legalizadas e sujeitas a regras estritas de proteção ao jogador, estima-se que operem nos País cerca de 4.000 casinos ilegais sem qualquer limite de publicidade. O impacto social desta exposição contínua reflete-se no aumento de casos de dependência em idades cada vez mais jovens.
