A aldeia da Ereira, no concelho de Montemor-o-Velho, está completamente rodeada por água e só é possível aceder ao local de barco. Desde a noite de sábado que a subida gradual do nível das águas cortou todos os acessos terrestres, transformando a localidade numa espécie de ilha no Baixo Mondego. O transporte de pessoas tem sido assegurado pelos fuzileiros e pelos bombeiros voluntários de Montemor-o-Velho, diz o "Correio da Manhã".

Entre quem tenta manter alguma normalidade está um homem que regressou à aldeia para cuidar dos animais, recorrendo a um camião do exército para parte do trajeto e, depois, a um barco, segundo a mesma publicação, à qual diz que esta é "a nova normalidade". "A preocupação é salvar vidas e bens. Desta vez tivemos tempo porque encheu de forma gradual", disse João Paulo Pedrosa.

A subida do nível das águas, aliada à ondulação provocada pelo vento forte, levou mesmo à suspensão temporária das travessias ao final do dia. A rotina da população ficou profundamente condicionada e há quem tenha ficado retido fora de casa e quem dependa de horários incertos de transporte fluvial para trabalhar ou estudar.

"Andamos sempre à espera de transporte, em constante alvoroço, mas temos de continuar com a nossa vida", descreveu ao mesmo jornal Pedro Nobre, treinador de futebol no concelho. Para alguns, como uma criança de 4 anos que passou a noite fora de casa com os avós, a situação é vivida como uma experiência invulgar, mas, para os adultos, é mais um sinal de um inverno excecionalmente instável.

Como estão as coisas no resto do País?

A situação da Ereira é apenas um reflexo de um cenário mais vasto. A passagem sucessiva de depressões tem agravado cheias, derrocadas e falhas no abastecimento de energia em várias regiões do território. De acordo com o "Expresso", a depressão Marta veio piorar um quadro já crítico, deixando mais de 100 mil pessoas sem eletricidade num só dia, sobretudo nos distritos mais afetados anteriormente pela tempestade Kristin, como Leiria, Santarém, Castelo Branco e Coimbra.

Segundo a Proteção Civil, citada pela mesma publicação, estavam contabilizadas até ao final de sábado, 7 de fevereiro, 1.163 pessoas desalojadas, sobretudo devido a movimentos de massa e derrocadas, com risco acrescido de novos deslizamentos nas horas seguintes. Em Almada, 35 pessoas foram retiradas de edifícios em São João da Caparica devido à instabilidade da arriba.

Em várias zonas do centro e do sul, os solos saturados e a continuidade da precipitação mantêm elevados os riscos de novas cheias, sobretudo junto a rios e zonas ribeirinhas. As autoridades admitem que a reposição da normalidade está condicionada pela evolução meteorológica, numa altura em que muitas regiões ainda não recuperaram totalmente dos episódios anteriores.

De acordo com o "ECO", 58 mil clientes da E-Redes no continente estavam, por volta das 18 horas de domingo, 8 de fevereiro, sem eletricidade, na sequência do mau tempo. Destes números, 38 mil diziam respeito a Leiria, seguindo-se oito mil em Santarém, dois mil em Coimbra e mais dois mil em Castelo Branco. Assim, o Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos.

Vai continuar a chover esta semana?

Apesar de a depressão Marta ter dado tréguas este domingo, 8, as previsões dizem que esta semana voltará a ser marcada por uma instabilidade persistente. Segundo a meteorologista Ângela Lourenço, do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, citada pela SIC Notícias, a chuva regressa com força a partir de terça-feira, 10, sendo que esse dia e o seguinte, quarta-feira, 12, serão particularmente críticos.

Em ambos os dias, esperam-se muitas horas consecutivas de precipitação, sobretudo nas regiões norte e centro. A par disso, de acordo com informações divulgadas pelo IPMA e citadas pela "Sábado", Portugal continental está sob a influência de uma corrente perturbada de oeste, associada a uma massa de ar muito húmida, com precipitação persistente pelo menos até esta quarta-feira, 12.

Assim, para terça-feira, 11, estão já previstos avisos laranja de chuva em vários distritos, como Viana do Castelo, Braga, Porto, Vila Real, Aveiro e Viseu. Embora se preveja uma ligeira melhoria a partir de quinta-feira, 13, a meteorologista alerta que a chuva não deverá desaparecer por completo ao longo da semana e que o vento continuará a soprar com alguma intensidade. As temperaturas, contudo, deverão manter-se acima do normal para a época.