Depois da passagem devastadora da depressão Kristin, Portugal está a enfrentar, novamente, um episódio de mau tempo, agora associado à depressão Leonardo. O sistema depressivo começou a afetar o território nacional a partir desta terça-feira, 3 de fevereiro, trazendo consigo chuva intensa e prolongada, vento forte, agitação marítima e queda de neve nas terras altas.
Isto é preocupante, sendo que acontece num contexto em que o solo já está saturado e as infraestruturas fragilizadas em muitos locais do País. Por isso, este autêntico comboio de tempestades mantém Portugal sob elevada pressão operacional, com autoridades e serviços de emergência a reforçarem o acompanhamento no terreno.
A Proteção Civil e as forças de segurança alertam para a combinação particularmente perigosa entre precipitação persistente, descargas das barragens e linhas de água já em níveis elevados, fatores que aumentam o risco de cheias e deslizamentos. No entanto, os efeitos desta nova tempestade também se fazem sentir na capital.
Lisboa e a Área Metropolitana surgem entre as regiões mais afetadas nesta nova fase de instabilidade, com registo de inundações urbanas, cortes de vias e dezenas de ocorrências durante a madrugada. Ao mesmo tempo, há uma preocupação acrescida com os territórios ainda a recuperar dos efeitos da Kristin, como Leiria e Alcácer do Sal, onde a situação se agravou devido à continuidade da chuva.
De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), o padrão atmosférico deverá manter-se muito instável até sábado, 7 de fevereiro, com vários distritos sob avisos meteorológicos e impacto esperado na circulação rodoviária, ferroviária e marítima. Perante este cenário, a Guarda Nacional Republicana (GNR) reforçou as recomendações à população. Eis o que precisa de saber.
País registou várias ocorrências, em especial na Grande Lisboa
A Proteção Civil, diz o "Diário de Notícias", registou 121 ocorrências diretamente ligadas ao mau tempo entre a meia-noite e as 7 horas da manhã, mantendo-se as autoridades a avaliar e monitorizar o nível das águas em várias regiões, que parece estar estável até ao momento. A maior parte aconteceu na sub-região de Lisboa e na Península de Setúbal.
Dito isto, houve várias cheias e inundações na Grande Lisboa, com especial incidência no concelho de Oeiras. De acordo com a SIC Notícias, a Ribeira da Laje transbordou em Santo Amaro de Oeiras e galgou as margens junto ao Jardim Municipal e à estação ferroviária, o que levou à submersão de veículos estacionados e ao corte de várias áreas ao trânsito, devido à persistência da acumulação da água.
Em Paço de Arcos, o cenário não foi muito diferente. Na zona envolvente à superfície comercial Auchan, a acumulação de água da chuva voltou a causar constrangimentos significativos. Quanto a outras zonas do País, a atenção das autoridades está também centrada no rio Douro, onde a precipitação persistente e o contributo das descargas a montante levaram a uma subida dos níveis de água.
Há constrangimentos nos transportes?
De acordo com a Infraestruturas de Portugal, citada pelo "Diário de Notícias", a circulação ferroviária encontra-se suspensa em vários troços da rede nacional. Na Linha do Sul, o tráfego está interrompido entre Grândola e Azinheira dos Barros, enquanto na Linha do Douro a circulação permanece suspensa entre a Régua e o Pocinho.
Já na Linha do Oeste, os comboios não circulam entre Mafra e Amieira. A empresa sublinha que estas interrupções resultam de inundações, queda de árvores e acumulação de detritos na via, estando as equipas técnicas no terreno a trabalhar na reposição das condições de segurança.
No que diz respeito ao plano rodoviário, registam-se também vários cortes e condicionamentos. Em Alcácer do Sal, no distrito de Setúbal, a Estrada Nacional 253, que liga o concelho a Montemor-o-Novo, encontra-se encerrada ao trânsito, tal como diversas vias urbanas e acessos a localidades vizinhas.
Já o IPMA, diz o "Jornal de Notícias", dá conta de que várias barras marítimas encontram-se encerradas ou condicionadas à navegação. É o caso de Aveiro, Caminha, Douro, Figueira da Foz, Nazaré, Ericeira e Albufeira, cenário que surge como consequência da agitação marítima forte que se tem feito sentir.
Como está a situação nas zonas mais afetadas por Kristin?
Uma semana depois da passagem da depressão Kristin, várias regiões continuam longe da normalidade, especialmente agora, que se encontram sob o impacto da tempestade Leonardo. De acordo com dados da E-Redes, divulgados pela SIC Notícias, mais de 103 mil pessoas continuam sem eletricidade em todo o País. Leiria mantém-se como o distrito mais afetado, com mais de 75 mil clientes sem energia, seguindo-se Santarém, Castelo Branco e Coimbra.
No entanto, Leiria começa a dar ligeiros sinais de retoma progressiva à normalidade. A par de continuarem a ser mobilizadas ajudas de todo o País para o distrito, pelo menos os estabelecimentos de ensino estão a voltar ao ativo, tendo a maior parte dos mesmos aberto portas esta quarta-feira, 4 de fevereiro, decisão que surge após avaliações técnicas às infraestruturas, acessos e condições de segurança, diz o "Notícias ao Minuto".
Embora persistam falhas no fornecimento de eletricidade e comunicações em algumas zonas, as autoridades consideram reunidas as condições mínimas para o regresso das atividades letivas em vários concelhos. Mantém-se, no entanto, a monitorização permanente da situação, na expectativa de que não volte a piorar.
No distrito de Setúbal, a situação agravou-se de forma particular em Alcácer do Sal. Segundo o "Diário de Notícias", o nível de cheia na zona baixa da cidade já ultrapassou 1,20 metros. Várias ruas encontram-se inundadas, estradas nacionais e municipais estão cortadas e algumas localidades permanecem isoladas. A continuidade das descargas das barragens para o Rio Sado e a previsão de nova precipitação mantêm o risco elevado nas próximas horas.
Até quando vai durar a tempestade? E que avisos estão em vigor?
De acordo com o IPMA, as ondulações frontais associadas à depressão Leonardo vão continuar a influenciar o estado do tempo em Portugal continental até sábado, 7 de fevereiro. A precipitação deverá ser persistente e, em alguns períodos, forte e prolongada, passando gradualmente a regime de aguaceiros, por vezes acompanhados de trovoada e granizo, segundo informação divulgada pelo organismo.
O sistema frontal começou por afetar a região sul na tarde de terça-feira, 3 de fevereiro, estendendo-se progressivamente às restantes regiões do continente ao longo do dia, com maior intensidade prevista durante a noite e madrugada seguintes. O IPMA alerta ainda para vento forte, com rajadas que podem atingir 90 quilómetros por hora e até 100 quilómetros por hora nas serras, um fator que agrava o risco de quedas de árvores, estruturas e cortes de energia.
Está previsto, por isso, que a depressão Leonardo traga, em 24 horas, a chuva equivalente a três dias de inverno, diz a SIC Notícias. Já a página de Instagram André do Tempo dá conta de que, entre a tarde de terça-feira, 3, e a madrugada de quinta-feira, 5, "poderá chover em alguns locais do País o equivalente à precipitação normalmente registada ao longo de um mês de fevereiro".
No que toca aos avisos meteorológicos, todos os distritos do continente estarão, até quinta-feira, 5, sob aviso amarelo devido à chuva. Vários distritos do litoral, incluindo Lisboa, Leiria, Setúbal, Porto, Faro, Aveiro, Coimbra e Braga, estão sob aviso laranja por agitação marítima entre as 12 horas de quinta-feira e as 18 horas de sábado, 7.
Há ainda avisos específicos para a queda de neve nas terras altas do norte e centro. Os distritos da Guarda, Vila Real, Viana do Castelo, Braga e Castelo Branco estarão sob aviso laranja entre as 12 horas e as 22 horas de sexta-feira, 8, devido à possibilidade de neve acima dos 800 metros, enquanto Bragança, Viseu e Aveiro permanecem sob aviso amarelo no mesmo período.
É recomendado que sejam feitos kits de emergência
A Guarda Nacional Republicana (GNR) e a Proteção Civil reforçaram os apelos à adoção de comportamentos preventivos, sublinhando a importância da preparação individual e familiar. Segundo o "Euronews", a GNR recomenda que todas as famílias tenham preparado um kit de emergência que garanta autonomia por pelo menos 72 horas, permitindo responder a eventuais falhas prolongadas de eletricidade, água e comunicações.
Este kit deve incluir água potável, alimentos não perecíveis suficientes para três dias, uma lanterna, um rádio a pilhas, um power bank para carregamento de dispositivos eletrónicos, medicamentos essenciais, um kit de primeiros socorros, produtos de higiene pessoal, roupa adequada, calçado resistente e uma manta térmica. A GNR aconselha ainda que documentos importantes sejam guardados em cópia e protegidos numa bolsa impermeável, juntamente com dinheiro físico, um mapa e um apito, para situações de emergência.
Para além da preparação material, as autoridades insistem na importância de seguir rigorosamente as indicações da Proteção Civil e dos serviços de emergência. É recomendado evitar deslocações desnecessárias, zonas inundadas, áreas sinalizadas como perigosas, árvores instáveis, estruturas danificadas e cabos elétricos caídos. Trabalhos nas alturas, como intervenções em telhados, devem ser adiados sempre que possível ou realizados apenas com condições de segurança adequadas.
A GNR alerta ainda para a utilização segura de sistemas de aquecimento e de geradores, que devem ser usados exclusivamente no exterior das habitações, afastados de portas e janelas, prevenindo a acumulação de gases tóxicos. A vigilância acrescida de habitações, sobretudo as temporariamente desocupadas, e a comunicação imediata de qualquer situação suspeita às autoridades são igualmente destacadas como medidas essenciais.