O Ministério Público está a investigar uma médica de Santo Estêvão, em Benavente, por suspeitas de liderar um esquema de fraude que garantia reformas antecipadas por invalidez em troca de pagamentos ilícitos. A investigação foi confirmada pela Procuradoria-Geral da República, após uma denúncia apresentada pela Carris, que estranhou o facto de dezenas dos seus trabalhadores terem passado à reforma através de processos conduzidos pela mesma profissional, segundo a "SIC Notícias".
Emuna Mia, de 72 anos, e reformada desde 2020 com uma pensão de 2.863 euros, cobrava mil euros por cada processo de reforma por invalidez, valor pago sem emissão de fatura. De acordo com a investigação da SIC, a clínica sugeria aos utentes que mudassem a residência para a zona de Benavente para facilitar a avaliação da junta médica, alegando “Em Lisboa os médicos são terríveis, não podemos estar a meter-nos na boca do lobo”.
Este esquema terá lesado o Serviço Nacional de Saúde em milhares de euros, uma vez que a clínica solicitava exames (como TAC e ecografias) em nome do Lar Padre Tobias, em Samora Correia, garantindo a total gratuitidade das análises. O processo avançava com receitas manuscritas sem assinatura ou dados, direcionando os utentes para locais específicos em Vila Franca de Xira ou Leiria. Caso surgissem dificuldades nos resultados, a médica sugeria uma consulta com uma psiquiatra, que custaria cerca de 155 euros.
João Boavista, especialista em juntas médicas da Segurança Social, analisou os relatórios do esquema e garantiu que os exames consultados “não teriam hipótese alguma para pedir reforma por invalidez”.
Em declarações à SIC, Emuna Mia negou que cobrasse os mil euros. Justificando ainda não tratava de casos de pessoas beneficiárias da ADSE uma vez que a abrigariam a deslocar-se a Lisboa, argumentando “tenho um problema grave de saúde, por isso não posso ir a Lisboa”.
Face à investigação do Ministério Público, a Ordem dos Médicos (OM) confirmou ter aberto um inquérito. O bastonário Carlos Cortes classificou os factos como uma “violação ética intolerável”, sublinhando que as práticas indiciadas são “uma quebra gravíssima da confiança que a sociedade deposita na classe médica”.