Antes do Le Défilé da L’Oréal Paris, Cara Delevingne falou com a MAGG sobre saúde mental, o medo que deixou de ser um obstáculo e a vontade de rebentar a bolha da perfeição.
Temos 10 minutos de videochamada com Cara Delevingne e começamos por avisá-la de que passam depressa. “Eu sei, o tempo voa”, brinca. O mote da conversa é o Le Défilé da L’Oréal Paris, mas esta depressa ganha outros contornos. O que acontece quando uma mulher cuja profissão passa por ser observada decide explicar como se vê? Da saúde mental à liberdade de mudar de rumo, há uma resposta que fica a ecoar, devido à utilização de palavras pouco habituais num currículo de supermodelo: “[Quer ser recordada como] Humana, imperfeita”.
A declaração tem logo outro peso vinda de alguém cujas sobrancelhas se tornaram uma assinatura numa indústria habituada a ditar o que se tira, o que se disfarça e o que se corrige. A própria L’Oréal Paris, que a recebeu como embaixadora em 2024, identifica-a como um dos rostos que marcaram a estética do início da década de 2010. A modelo britânica, hoje em dia com 34 anos, conhece, portanto, os dois lados desta história – o de corresponder a um ideal e o de trilhar um caminho que ajuda a alterá-lo.
“Há padrões de beleza que existiam na indústria da moda que são simplesmente impossíveis e ridículos, que não representam as mulheres maioritariamente”, conta-nos. Para Cara Delevingne, repensar esses padrões passa, então, por mudar quem vemos nas passerelles e por abrir espaço a diferentes idades, origens e formas de beleza. “Queremos conseguir ver-nos representadas na moda em algum momento, certo? E acho que, sobretudo para as mulheres jovens, isso é muito importante”, continua.
É precisamente isso que explica a sua forte ligação ao Le Défilé. O desfile da L’Oréal Paris reúne mulheres de diferentes corpos, etnias, idades e percursos, tendo acontecido esta segunda-feira, 28 de setembro, na capital francesa, sob o lema “Express Your Worth” (expressa o teu valor, em português). “Não parece um desfile de moda convencional. É mais uma celebração de quão incríveis as mulheres podem ser“, admite. O que espera que chegue a quem está a vê-lo também vai além da estética. “Espero que inspire outras mulheres a criarem uma comunidade e a apoiarem-se umas às outras”, confidencia.

Afinal, na sua perspetiva, a imagem só cumpre o seu propósito se tiver algum efeito extra-passerelle. É por isso que, ao longo da entrevista, usa uma expressão de forma recorrente: aprender com os outros – uma escolha curiosa para alguém a quem tantas vezes se pede que seja a inspiração. “Fazer perguntas e conhecer as histórias das pessoas ajuda-nos sempre a refletir sobre a nossa própria vida e sobre aquilo que podemos alcançar”, explica. Trabalhar com mulheres que admira tem esse efeito. “Inspira-me no sentido em que depois levo isso comigo e acredito em mim para fazer alguma coisa“, admite.
A conversa torna-se especialmente interessante quando chegamos à dificuldade de a arrumar numa categoria. Modelo, atriz, intérprete em palco, em 2024, estreou-se no West End como Sally Bowles, em “Cabaret”, e, nesse mesmo ano, foi anunciada como apresentadora da transmissão do Vogue World, em Paris. São contextos diferentes, com exigências diferentes, que tornam inevitável a pergunta de “o que ganha em recusar uma definição única?”.
“Não sei. É simplesmente quem sou. Não sei ser de outra maneira”, responde. A ideia de mudar de carreira pode fazer sentido para quem acompanha o seu percurso, mas Cara Delevingne não vê uma rutura de cada vez que aceita um novo desafio. “Não estou a tentar confundir as pessoas nem a irritá-las quando mudo de carreira. Aliás, nunca sinto que estou a mudar de carreira. Estou apenas a expressar-me através de uma forma diferente de criatividade”, reitera.
É por isso que reconhece que experimentar é um privilégio. “Sinto-me muito sortuda por conseguir fazer estas coisas. Se não tivesse estes trabalhos, não sei o que mais poderia fazer. Não tenho nenhuma outra competência”, brinca. A frase tem, efetivamente, graça no meio de um percurso com tantas frentes, mas também interrompe a tentação de transformar cada escolha numa grande estratégia. Nem tudo precisa de vir acompanhado de um manifesto, diga-se.
Quando lhe perguntamos pela fama de destemida, a resposta começa por confirmar aquilo que se espera. “Acho que o medo pode impedir-nos de correr riscos e de cumprir o nosso destino. Não, de concretizar os nossos sonhos”, corrige. A pequena emenda merece ficar. Depois chega a distinção que interessa. “À medida que o tempo passa e me preocupo mais com o meu bem-estar, acho que tenho um medo saudável“, relata.
Esse cuidado consigo própria tem um contexto. Na entrevista de capa da “Vogue” de abril de 2023, a modelo falou sobre a sobriedade, a procura de apoio terapêutico e a importância da comunidade no seu processo. Recusou também apresentar a recuperação como uma transformação instantânea, com princípio, meio e um final convenientemente feliz. É um antecedente que ajuda a perceber por que razão a expressão “medo saudável” merece tanta atenção nesta conversa.

Há espaço para a prudência na pessoa que continua a querer arriscar, mas o que Cara Delevingne questiona são as limitações que aceitamos antes sequer de experimentar. “As pessoas criam obstáculos por medo. E acho que há sempre uma maneira de contornar um obstáculo“, afirma. A confiança de que fala admite agora essa negociação com o bem-estar e ouvi-la é perceber que ser destemida pode incluir fazer perguntas, rever decisões e reconhecer que há coisas que merecem ser protegidas.
Também há uma versão bastante menos previsível desta história fora do trabalho. Numa entrevista à “Vogue“, em setembro de 2024, contou que, depois de “Cabaret”, criou um canteiro de espargos e falou ainda de gostar observar pássaros, beber chá e jogar videojogos. Entre estrear-se num musical e dedicar-se à horta, a distância parece grande, mas o que é certo é que, no retrato que vai compondo, cabe tudo. Afinal, a mulher a quem se pede constantemente uma reinvenção também pode apenas querer dar-se ao luxo de ver uma planta crescer.
No trabalho, o critério que descreve é igualmente pessoal. “Sou uma pessoa muito apaixonada. Importo-me mesmo com aquilo que faço. Não o faço se não me importar muito”, confirma. Por isso, quando lhe perguntamos o que torna um projeto relevante, enumera as pessoas, as lições e aquilo que poderá levar consigo. E, sobre regressar ao palco da L’Oréal Paris, é rápida a descrevê-lo com uma palavra especialmente reveladora: pertença. “Adoro essa sensação de família, de casa”, frisa.
É quando falamos do legado que gostaria de deixar que todas estas ideias se encontram. “Gostava que as pessoas se lembrassem da minha honestidade e, espero eu, de ter tentado rebentar a bolha do perfeccionismo no mundo das celebridades ou da moda”, afiança. A resposta podia ficar por aqui, mas Cara Delevingne acrescenta o que quer ver dentro dessa memória. “A honestidade em relação à saúde mental e a importância de as mulheres terem uma comunidade e se apoiarem umas às outras“, continua.
Os 10 minutos estão a acabar quando lhe perguntamos que lutas espera que sejam mais fáceis para quem vier a seguir. Cara Delevingne não dá a questão da saúde mental por resolvida. “Haverá sempre essas conversas difíceis. Por isso, se esse for o meu caminho, estarei sempre disponível para as ter”, garante. É uma promessa que diz tanto sobre o seu futuro como qualquer próximo papel ou desfile. Mesmo sem saber se o estigma alguma vez desaparecerá, promete que vai continuar a falar.

