Eyepatch-gate (ou quando 4 marcas anunciaram o mesmo produto ao mesmo tempo). 6 pontos para entender o drama viral

Quatro marcas mostraram patches com embalagens quase iguais e a internet ficou ao rubro. Entre acusações e memes, explicamos o que aconteceu e o que significa ter exclusividade.

Era suposto serem patches que prometiam tirar o ar de quem dormiu apenas quatro horas, mas acabaram por pôr os aficionados de beleza a perder o sono. Falamos do mais recente drama da Fenty Skin, Glow Recipe, Huda Beauty e Vitamasques, que anteciparam produtos para o contorno dos olhos com um detalhe impossível de ignorar: embalagens tão parecidas que as redes sociais sentiram que estavam a brincar ao jogo das diferenças.

A protagonista é uma caixinha que corta hidrogel em fatias, num formato pronto a aplicar debaixo dos olhos. Basta rodar o mecanismo para sair uma nova unidade. Por isso, se inicialmente isto parecia uma novidade capaz de conquistar as prateleiras da casa de banho, o que é certo é que se transformou numa pergunta repetida nas redes: quem copiou quem?

Seguiram-se acusações de promessas de exclusividade falhadas, explicações das marcas e memes. Pelo meio, entrou na conversa a Wonder Bath, uma marca coreana que já vendia este formato antes de a polémica começar. Afinal, a corrida à novidade tinha mais participantes do que parecia e alguém já tinha saído da linha de partida há algum tempo.

Mas como é que várias marcas apresentam embalagens praticamente iguais em tão poucos dias? Isso significa que as fórmulas também são iguais? Houve um fornecedor a prometer exclusividade a demasiada gente ou estamos a confundir a apresentação de um produto com uma invenção? E quem tem, afinal, direitos sobre o packaging? Vamos por partes.

Que produtos foram apresentados?

A Fenty Skin, de Rihanna, começou a divulgar os Dew N Plump Fresh-Sliced Hydrogel Eye Patches a 17 de setembro. Nos dias seguintes, surgiram apresentações dos Exopeptide Caffeine Brightening and Depuffing Fresh Slices, da Glow Recipe, dos Undereye Jelly Patches, da Huda Beauty, e uma antecipação da Vitamasques, segundo a “BeautyMatter“.

Só que já havia outra marca a vender um produto com este formato: a Wonder Bath. Segundo a “ELLE“, a marca coreana lançou a linha Slice Serum em julho. O catálogo da marca confirma três versões, dedicadas aos poros, às manchas e à firmeza, com 60 unidades cada. Ou seja, o formato não se estreou no mundo da beleza com a apresentação da Fenty.

Convém, por isso, acertar a narrativa que se tem espalhado no meio de tanto burburinho: não foram quatro produtos a chegar às lojas no mesmo dia. Foram apresentações e antecipações muito próximas, de marcas diferentes, de um formato que já tinha presença no mercado coreano. E comercializar um produto primeiro também não prova, por si só, quem inventou o mecanismo.

Como é que várias marcas acabam com a mesma embalagem?

Uma marca de cosméticos não tem necessariamente de inventar o frasco, o doseador e tudo o que está lá dentro. Pode fazê-lo, atenção, mas também pode recorrer a empresas especializadas em embalagens, que disponibilizam as suas soluções a diferentes clientes.

É aqui que entra a sul-coreana Samhwa, que apresenta na plataforma Impacked um doseador com mecanismo de corte de hidrogel. Segundo a descrição comercial, cada rotação separa um patch, mantendo o restante conteúdo fechado e evitando o contacto dos dedos com o produto que fica no interior. A embalagem pode ainda receber diferentes acabamentos e elementos de personalização.

Há, portanto, todo um trabalho anterior ao momento em que o logótipo aparece no packaging. Mas a presença desta solução num catálogo não confirma, por si só, quais das marcas envolvidas a compraram à Samhwa – se é que compraram –, mas este modelo ajuda a perceber de que forma é que várias empresas podem interessar-se por soluções semelhantes e trabalhar nos respetivos produtos em paralelo, sem estar cientes de que a concorrência está a trilhar o mesmo caminho.

Houve um esquema da fábrica?

É a parte mais sumarenta da história, diga-se de passagem, mas convém conhecer as diferentes versões antes de escolher o vilão. Huda Kattan acusou o fornecedor de embalagens de ter enganado as marcas quanto à exclusividade, ressalvando que as fórmulas eram diferentes. A Glow Recipe, porém, não subscreveu essa interpretação.

À “BeautyMatter”, Christine Chang, cofundadora e co-CEO da Glow Recipe, disse que não encarava a situação como um caso de terem sido enganadas e que desconhecia o fabricante usado pela Huda Beauty. À mesma publicação, a especialista em embalagens Allison Kent-Gunn Garibay referiu a existência de pelo menos dois fabricantes sul-coreanos a disponibilizar esta tecnologia. Portanto, a teoria de que todas compraram ao mesmo fornecedor continua por demonstrar.

De qualquer forma, e recorrendo à informação que tem sido divulgada nos últimos dias, não é possível concluir taxativamente que houve fraude ou um incumprimento contratual. Até porque, para isso, seria necessário conhecer os acordos, perceber o alcance de uma eventual exclusividade e ouvir os fornecedores envolvidos. Há uma acusação pública, efetivamente, mas faltam elementos para a tratar como um facto provado.

Até porque a identidade dos fornecedores de cada marca continua por esclarecer. Será porque as marcas não querem que o mercado fique inundado com mais produtos iguais? Ou será uma questão de perceber quanto custa realmente a embalagem em comparação com o preço que, depois, se pratica nas lojas? À “Marie Claire“,  uma fonte da LVMH disse apenas que “não se trata de um molde personalizado da Fenty. Se fosse, a LVMH/Kendo nunca o permitiria no catálogo aberto”.

Mas ninguém tem direitos sobre o packaging?

A palavra “direitos” abrange proteções diferentes, que não devem ser metidas todas no mesmo saco. Em Portugal, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial explica, no site oficial, que o registo de um desenho ou modelo protege a aparência de um produto, o que pode incluir a forma de uma embalagem. Essa proteção não abrange, por si só, o funcionamento do mecanismo.

Uma patente, por sua vez, protege uma invenção técnica que cumpra os requisitos aplicáveis. O seu titular pode autorizar terceiros a utilizá-la através de licenças, como esclarece a Organização Mundial da Propriedade Intelectual. Assim, uma tecnologia patenteada pode aparecer legalmente em produtos de várias marcas, sendo que ter uma patente não obriga o seu dono a reservar a utilização apenas para si.

Depois existe a proteção da marca, que distingue a origem comercial dos produtos através de sinais como o nome ou o logótipo. Colocar o nome numa embalagem não transforma automaticamente uma empresa na proprietária da invenção. E há ainda a exclusividade negociada por contrato, que exige que uma data de coisas seja acordada: o que ficou reservado, a quem, durante quanto tempo e em que mercados?

Isto porque uma autorização de utilização não equivale necessariamente a uma licença exclusiva. Imagine-se que uma marca garante o uso exclusivo de determinada embalagem nos Estados Unidos durante seis meses. Dependendo do acordo, o fornecedor poderá disponibilizar a mesma solução a outra marca para comercialização na China nesse período, sem que esteja em incumprimento do compromisso assumido.

Aplicado aos patches, isto significa que uma marca pode ter sido a primeira a vender o produto sem ser dona da tecnologia. Poderá haver incumprimento se um fornecedor tiver assumido compromissos incompatíveis – por exemplo, reservar uma solução a um cliente num determinado mercado e fornecê-la a um concorrente para utilização abrangida pela mesma exclusividade.

Então as fórmulas são iguais?

Embalagens semelhantes não chegam para responder a essa pergunta. Contudo, a Glow Recipe afirmou ter desenvolvido a sua própria composição e dá conta de que, na fórmula, existem exopeptídeos, cafeína e pantenol entre os ingredientes. A Wonder Bath, por sua vez, apresenta três variantes dentro da linha Slice Serum, portanto tem, teoricamente, uma tríade de fórmulas diferentes.

E como fica esta novela?

Uma coisa é certa: há pelo menos um dos produtos cuja vida pode estar em jogo. Huda Kattan chegou a escrever, num comentário acompanhado de emojis a rir, que já não lançaria o produto. Resta perceber se se tratava de uma decisão efetiva ou de mais uma reação bem-humorada à polémica, que acabou por abonar a favor de todas as marcas, sendo que se juntaram para produzir conteúdos.

Quanto à possibilidade de aparecerem outras versões, a existência de soluções de embalagem disponíveis para diferentes clientes deixa essa porta aberta. Mas uma lista de marcas com as quais um fornecedor trabalha não prova que todas tenham comprado este doseador ou estejam a preparar patches semelhantes.

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