Jorge Palma fugiu da guerra, viveu em Paris e demorou 18 anos a escrever uma música. 5 coisas que não sabia sobre o cantor português

Com mais de cinco décadas de carreira, Jorge Palma morreu durante a noite de segunda-feira, 21 de setembro, deixando assim uma obra que atravessou várias gerações, países e corações.

Jorge Palma, um dos músicos mais marcantes da história da música portuguesa, morreu esta segunda-feira, 21 de setembro, aos 76 anos. A notícia foi avançada pela família através das redes sociais ao final da noite, pedindo respeito pelo momento e explicando que mais informações sobre as cerimónias vão ser divulgadas nos próximos tempos. Com mais de cinco décadas de carreira, Jorge Palma deixou assim uma obra que atravessou várias gerações, países e corações.

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“É com profundo pesar e consternação que a família e agência de Jorge Palma informam a sua morte, ocorrida esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória”, lê-se na mensagem partilhada. “Com uma carreira de 54 anos dedicada à música portuguesa, Jorge Palma deixa uma obra assinalável que faz parte da nossa história. Deixa também muitos amigos pelo mundo, pessoas que conquistou com a sua generosidade e genialidade”, acrescentaram. 

Nos últimos anos, Jorge Palma enfrentou vários problemas de saúde, tendo, em novembro de 2025, cancelado concertos devido a problemas respiratórios. No verão desse mesmo ano, segundo o jornal “Observador”, também já tinha adiado atuações com os filhos, devido à recuperação de uma “cirurgia programada” no final de junho que tinha corrido “muito bem”. Estas atuações eram para acontecer em abril, mas, também por motivos de saúde, Jorge Palma teve de cancelar. 

Mas se a música foi uma constante ao longo da vida de Jorge Palma, o percurso até se tornar numa das figuras mais marcantes da música portuguesa esteve longe de ser linear. Entre estudos de Engenharia, uma fuga para a Dinamarca para escapar à Guerra Colonial, dois anos a tocar pelas ruas de Paris e histórias insólitas por detrás de algumas das suas canções mais conhecidas, há muito para descobrir. Espreite cinco curiosidades sobre Jorge Palma que ajudam a conhecer melhor o homem por detrás da música.

Antes da música, Jorge Palma ia ser engenheiro

É de conhecimento geral que a música entrou cedo na vida de Jorge Palma e que nunca mais saiu. Começou a estudar piano aos 6 anos e, ainda criança, frequentou a Academia Musical dos Amigos das Crianças, onde aprofundou a formação no instrumento, segundo a revista “Leme”. Aos 12 anos, conquistou o segundo lugar no Festival das Juventudes Musicais, em Palma de Maiorca, e, já adolescente, começou a trocar o piano clássico pela música popular americana e inglesa.

No entanto, durante algum tempo, o caminho de Jorge Palma podia ter sido bem diferente. Ao que tudo indica, de acordo com o “Expresso”, foi entre 1969 e 1971 que Jorge Palma frequentou o curso de Engenharia na Faculdade de Ciências de Lisboa, pois os pais achavam que ele ia ser engenheiro eletrónico. A experiência, contudo, não durou muito: em 1972, abandonou o curso e decidiu dedicar-se cada vez mais à música, mas foi nesse mesmo ano que acabou por trocar Portugal pela Dinamarca.

Jorge Palma fugiu para a Dinamarca para não ir para a Guerra Colonial

Ora, depois de abandonar o curso de Engenharia, Jorge Palma decidiu então deixar Portugal e instalar-se na Dinamarca – mas a decisão não foi apenas uma mudança de País. Pouco depois de editar o seu primeiro single, segundo a RTP, o músico foi convocado para cumprir o serviço militar obrigatório no Ultramar, mas decidiu não embarcar. Em vez disso, partiu para a Dinamarca, onde pediu asilo político, numa altura em que a Guerra Colonial marcava a vida de milhares de jovens portugueses.

A permanência na Dinamarca acabou por durar até à Revolução dos Cravos. Como tinha saído de Portugal para escapar ao serviço militar, Jorge Palma só regressou depois do 25 de Abril de 1974 (que descobriu ao ver a BBC), quando a ditadura chegou ao fim e a Guerra Colonial terminou. De volta a Portugal, começou a trabalhar como orquestrador e, no ano seguinte, lançou o primeiro álbum, “Como uma viagem na palma da mão”. Era, assim, o início oficial de uma carreira a solo.

Músico viveu dois anos em Paris e tocou no metro na passagem de ano

Crédito da foto: Catarina Gralheiro

Na passagem de ano de 1977 para 1978, Jorge Palma foi convidado para ir até à capital francesa acompanhar cantores portugueses num concerto, mas o espetáculo acabou por não acontecer devido a um boicote. Jorge Palma ficou, ainda assim, em Paris para a passagem de ano e, perto da meia-noite, encontrava-se junto a uma estação de metro com uma guitarra emprestada por Marie Myriam, cantora francesa que tinha vencido o Festival Eurovisão em 1977. 

Foi aí que dois músicos de rua lhe fizeram uma proposta simples: “queres fazer algum dinheiro?”, disseram-lhe, segundo a entrevista que o músico deu à “A Mensagem”. Jorge Palma aceitou e, entre as 23 horas e a meia-noite, os três conseguiram juntar “imenso dinheiro”. O músico acabou por ficar por lá durante dois anos, e, de acordo com o “Jornal de Negócios”, fazia a vida a tocar nas ruas e no metro cantando as músicas de Bob Dylan, Paul Simon, James Taylor, Crosby e Stills and Nash.

Demorou quase 20 anos a escrever uma canção para Carlos do Carmo

Créditos: Rita Carmo Photography

Perto dos anos 2000, Carlos do Carmo fez um pedido ao músico: que lhe escrevesse uma canção, mas que não fosse um fado e sim uma música “à maneira” de Jorge Palma. O pedido acabou por ficar guardado durante cerca de 18 anos, até que o músico encontrou finalmente a frase que lhe deu o ponto de partida: “nascemos tão furiosamente sábios”. A partir daí, a letra e a música saíram rapidamente, e deram origem ao sucesso “Canção de Vida”.

Quando terminou a canção, Jorge Palma foi a casa de Carlos do Carmo entregar-lhe uma gravação feita no estúdio de Rui Veloso, segundo “A Mensagem”. Os dois beberam um chá e, nessa mesma noite, o fadista ligou-lhe para dizer que aquilo que Jorge Palma tinha entregado não era “uma letra” e sim “um poema”, que deixou o músico particularmente orgulhoso. Carlos do Carmo gravou assim a música que foi lançada meses depois de morrer, e, em 2023, Jorge Palma também a gravou para o seu álbum.

O famoso álbum “Só” nasceu porque Jorge Palma não tinha músicas novas

Em 1990, a editora de Jorge Palma achava que estava na altura de lançar um novo álbum, mas havia um problema: o músico não tinha composições novas. Ao mesmo tempo, depois de terminar o Curso Superior de Piano no Conservatório, Jorge Palma queria voltar a colocar o instrumento no centro da sua música, e foi então que Tó Zé Brito, responsável de Artistas e Repertório da Polygram, teve uma ideia: em vez de esperar por novos temas, porque não pegar nas canções que Jorge Palma já tinha lançado?

Assim nasceu “Só”, editado em 1991, um disco com 15 temas de trabalhos já feitos mas apresentados apenas com voz e piano. Para a gravação, segundo o “Diário de Notícias”, Jorge Palma escolheu um piano Steinway e foi até aos Estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, onde já tinha gravado com Amália Rodrigues e onde tinham passado grandes nomes e orquestras. O disco acabou por ser também a última gravação realizada naquele estúdio, antes de este encerrar.

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