O Faminto teve de aguentar a fome de se dar a conhecer durante mais de dois anos. Isto porque o novo restaurante de Santos, que abriu oficialmente esta segunda-feira, 9 de março, e é inserido no hotel Inspira Santos (mas com entrada independente e com todas as ganas de mostrar que vive por si só e não é um restaurante de hotel), ficou em stand by durante o longo período que as obras do Metro de Lisboa assolaram a Avenida Dom Carlos I.
"Isto é um projeto que tem dois anos e meio. Não arrancou mais cedo, precisamente por causa das obras no Metro de Lisboa. Para nós, não fazia qualquer sentido estar a abrir com a zona debilitada. E, agora, nesta fase, que já estão a terminar as obras, entendemos que esta seria a altura para avançar e abrir", conta Ricardo Ribeiro, do Grupo do Avesso e sócio do Faminto, que abre juntamente com mais dois sócios, Ricardo Rodrigues e Joana Faria.
E o grupo não é, de todo, novato nestas andanças. Há negócios que têm os três, outros em dupla, mas são nomes responsáveis pelo fenómeno Fauna & Flora, em Lisboa, o Fava Tonka, o Terminal 4450 e a Sushiaria, em Leça da Palmeira, entre outros espaços.
Mas porquê abrir este Faminto, um conceito assente na parrilla, a famosa grelha de inspiração sul-americana? "O Hotel Inspira Santos fez-nos o convite para abraçarmos este projeto. Mas atenção que não queremos ser o restaurante do hotel. Temos nome, somos o Faminto, temos porta para a rua e é assim que nos queremos caracterizar", contextualiza Ricardo Ribeiro à MAGG.
"A loja foi-nos entregue completamente em bruto e, juntamente com a arquiteta Inês Moura, recebemos algumas influências de lá fora. Gostamos muito de viajar, somos pessoas que gostamos muito de procurar sítios lá fora e criámos este mundo juntamente com a Inês", diz sobre o restaurante, que conta com três espaços distintos.
Espreite as fotos do espaço.
O Faminto tem capacidade para 60 pessoas, número que vai aumentar com a abertura da esplanada, que será inaugurada um pouco mais para a frente, "talvez em maio", garantem os proprietários.
Ao entrar, há uma sala principal com uma das mesas centrais do restaurante e cadeiras bem instagramáveis desenhadas pela arquiteta —"a mesa mais importante da sala", diz Ricardo Ribeiro —, uma segunda sala mais interior com recantos incríveis e intimistas, e uma terceira com mais visibilidade para a rua e onde o foco é a fogosa parrilla. E até há quatro lugares a um balcão com vista privilegiada para a ação — isto é, se conseguir aguentar o calor.
A parrilla é a alma do Faminto. O serviço é o coração
Para além do centro da sala, a parrilla é a alma deste Faminto. "Gira tudo à volta da parrilla. Cerca de 80% da nossa carta sai daqui", diz Ricardo Ribeiro, que explica também a aposta neste conceito, que apesar de ser bastante focado em carnes, não exclui os pratos de peixe e até a oferta vegetariana, que é feita com o mesmo cuidado e afinco que as restantes propostas da carta.
"O nosso maior prazer é jantar fora, comer fora e perceber o que poderia funcionar. Em Lisboa, aquilo que sentimos é que já está praticamente tudo inventado. Mas também sentimos que o que cada vez mais funciona é a interação com as pessoas. Então pensámos em fazer algo aberto, mas também já existe muita coisa do género, exceto baseado na parrilla, que não vemos muito. E fez-nos sentido apostar nisto para que as pessoas percebessem o que é feito, da forma que é feito. Quisessem interagir com quem está ali, brincar com o fogo, por assim dizer", salienta o sócio do Faminto.
Com o chef Rúben Santos ao leme, que chega ao Faminto depois de um background em restaurantes de fine dining, este espaço assume a aposta nas tendências sul-americanas, argentinas, uruguaias, e muitos cortes de carne, embora não queiram ficar completamente presos a essa proteína.
"Temos soluções vegetarianas e temos soluções de peixe. E esta grelha dá-nos mesmo para trabalhar o peixe. Aliás, em algum momento, e os snacks também, o processo de confeção dessas propostas para além da carne passa por ali para dentro do fogo", diz Ricardo Ribeiro.
"Aquilo que nós tentamos fazer aqui foi trazer o que o mercado está a pedir, que é descontração, um ambiente tranquilo, rigoroso obviamente, mas uma coisa muito descontraída, muito tranquila e com simplicidade. Qualidade no produto e simplicidade em todos os processos. Se o produto é bom, pode ser tudo simples, não são precisos grandes artifícios, apenas técnica afinada", completa o chef Rúben Santos.
E falando de um restaurante focado em carnes, há semelhanças com o Terminal de Leça da Palmeira, outro dos chamarizes do grupo? "Aquilo que nós sentimos e queremos privilegiar aqui é essencialmente o serviço. Obviamente a qualidade da comida é extraordinária, mas queremos ter um serviço atento, acolhedor, quente, caloroso. Acho que o serviço é algo que começa a ser muito descurado. E, no norte, temos um bocadinho isso, que é o que queremos trazer para aqui", salienta Ricardo Ribeiro.
O sócio do Faminto explica também o porquê dessa dedicação ao serviço. "Nós não temos turismo em Leça da Palmeira, temos o cliente local, logo vivemos da fidelização desse cliente, que vem hoje, tem que vir amanhã e tem que vir no futuro. Não vivemos de turismo. Temos mesmo que agarrar as pessoas que temos. E é isso que queremos fazer aqui. Talvez as semelhanças com o Terminal tenham que ver com a nossa forma de receber, que faz parte do nosso ADN, e trouxemos para aqui", explica, salientando que pretende trazer essa hospitalidade para Santos.
Quanto a pratos, não há cópias e a carta do Faminto foi feita de raiz e com identidade própria, com a devida exceção para uma proposta muito especial. "Há uma sobremesa que nos acompanha há 12 anos, que é a Bola de Berlim, e essa trouxemos aqui para Lisboa. Só no tamanho é que é diferente, que em Leça da Palmeira é maior", diz Ricardo Ribeiro.
E o Faminto mete mesmo a carne toda no assador, no sentido literal e figurado. "Não há uma segunda oportunidade para criar uma boa primeira impressão, tal como diz o meu sócio Ricardo. E nós queremos arrancar já com a força toda desde o início, queremos que as pessoas percebam que queremos tentar fazer a diferença. Eu já sei que todos os restaurantes que abrem dizem isto, mas queremos ser diferentes. A verdade é que nós já temos 14 operações abertas, não somos amadores. Já abrimos muitos restaurantes", completa.
Quanto à carta do Faminto, Ricardo Ribeiro explica que há margem para alterações. "Até porque se estamos muito tempo com esta carta, o chef Rúben despede-se", diz o sócio do restaurante, entre risos. "As pessoas não gostam de estar sempre a trabalhar o mesmo e, sazonalmente, vamos tendo coisas novas. Queremos também ter umas sugestões da semana — não é menu de almoço, atenção —, e o chef não descarta a ideia de trazer francesinhas ou até cachorrinhos à moda do Porto."
Para já, nesta primeira semana, o restaurante já teve pratos como feijoada à transmontana (14€), açorda de bacalhau (14€), e ainda vai a tempo de provar coelho frito com arroz de ervilhas (13€) na quinta-feira ou carne de porco à portuguesa (12€), na sexta-feira (estas sugestões são servidas ao almoço, entre as 12 e as 15 horas).
Não é preciso uma segunda oportunidade, o Faminto conquistou-nos ao primeiro bikini
Já completamente contextualizados sobre o conceito do restaurante e acolhidos pela simpatia do trio de sócios, passámos à prova dos nove: provar a carta do Faminto.
Ainda antes de qualquer snack ou entrada, tivemos de nos controlar para não ficarmos de estômago cheio logo com o couvert (3€ por pessoa), tão guloso que era o pão de massa-mãe com manteiga dos Açores e as grandes e saborosas azeitonas marinadas.
Depois de segurarmos a gula, matámos logo a curiosidade com um dos pratos mais enigmáticos da carta: bikini trufado na parrilla (entre 8€ e 14€, 3 e 6 unid.). "É uma tosta mista em esteróides", dizem os sócios, que não podia ser a melhor forma de descrever este simples snack, mas eficaz e guloso, com a trufa a dar o toque certo.
As empanadas artesanais de carne (3,50€) foram também uma boa surpresa, com a massa a ser mais delicada do que aquilo que estamos habituados neste salgado mas que, para o nosso gosto, funciona melhor.
Elevamos a fasquia para entradas mais compostas como os ovos rotos Faminto (14€), com batatas fritas "verdadeiras" e cortadas à mão e uma linguiça saborosa até mais não. Mais um momento para pôr o pé no travão, já que era preciso espaço para provar o tártaro de vaca velha (16€) cortado à faca, com uma maionese que dá um toque bastante interessante, e que torna esta proposta bem viciante e a fazer-nos repetir várias vezes acompanhado das tostinhas que chegam no prato.
Ainda antes da carne, a estrela do Faminto, houve tempo para dar razão às promessas de que, aqui, as opções vegetarianas tinham a mesma atenção, e ficámos agradavelmente surpreendidos com a polenta cremosa, cogumelos assados e parmesão DOP (14€).
Não podemos dizer que esperávamos outra coisa que não fosse sabor de um prato que serve algo tão incrível como barriga de atum, mas o bitoque de atum do Algarve com 2 ovos a cavalo (34€) conseguiu elevar a experiência com o molho da carne, tal e qual como numa cervejaria, a aliar-se ao peixe de forma exímia.
Quanto aos cortes de carne, há bavette (20€), entraña (22€), picanha (26€), asado de tira (28€), bife de Chorizo Angus (32€), lomo bajo 45 dias de maturação (98€/kg) e chuletón 45 dias de maturação (98€/kg). Provámos os cortes maturados e também o assado de tira, e há pouca coisa a dizer quando a delicadeza da carne e a qualidade do produto só precisa da técnica, que aqui é mais que entregue em pontos perfeitos nas matérias primas de excelência. Rebentaram a escala.
No caso dos cortes de carne, os acompanhamentos são à parte, e há propostas como batata frita (3,50€), puré de batata trufado (7€) ou coleslaw (3€), mas deixamos duas dicas: vá "roubar" das entradas os corações de alface com molho Caesar e parmesão (6€) e nem pense em abandonar o Faminto sem comer o fantástico arroz de forno (12€), que justifica os 12 minutos de espera a preparar.
A oferta de sobremesas não é extensa, mas aposta na qualidade. Há propostas como leite creme queimado (4,50€), brownie de chocolate e avelã (7,50€), tarte basca (5€) e a Bola de Berlim Faminto (7€), sendo esta última a nossa clara favorita.
Pode acompanhar a refeição com várias propostas de cocktails que chegam do bar Sedento (que, no futuro, também terá novidades) ou com várias referências de vinho a copo ou em garrafa, com preços a começar nos 6€ no caso dos copos e 22€ no que diz respeito às garrafas.