Mais de 50 restaurantes premiados com uma ou duas estrelas, mas Portugal continua longe da terceira. Afinal, o que falta, segundo os chefs galardoados pelo Guia, para conquistar as três estrelas Michelin?
Ano após ano, Portugal tem cada vez mais restaurantes distinguidos pelo Guia Michelin, mas há uma estrela que continua a escapar, a terceira. Parece que é uma utopia algum projeto ser galardoado com três estrelas. Mas, afinal, o que falta para esse marco? A pensar nisso, aproveitámos o Congresso de Cozinha, que decorreu nos dias 27 e 28 de setembro, em Oeiras, e fomos falar com três chefs premiados para tentar perceber o que ainda escapa.
Até agora, apenas nove restaurantes portugueses foram distinguidos com duas estrelas Michelin, entre eles Antiqvvm, Belcanto, Casa de Chá da Boa Nova, Il Gallo d’Oro, The Yeatman, Vila Joya, Ocean, Fifty Seconds e Henrique Sá Pessoa.
“As três estrelas Michelin representam a mais alta distinção do Guia. Embora as estrelas sejam atribuídas a restaurantes, e não a chefs, os espaços com três estrelas costumam ter cozinheiros no auge da profissão, capazes de elevar a culinária à categoria de arte, com pratos destinados a tornar-se clássicos”, lê-se no site. Posto isto, o que será que está por cumprir?
João Sá (Sála, 1 estrela Michelin)

“É uma questão de tempo. É normal que o Guia, nos primeiros anos, tenha de se consolidar e estruturar. Os clientes também têm de estar preparados para o mercado e para a estruturação do Guia em Portugal”, frisa.
“Eu percebo que há pressa porque há vontade e é um marco importante para o País, mas se calhar às vezes é preciso tempo. Não me parece uma questão de incapacidade técnica, as coisas demoram e a três estrelas não são dadas facilmente, têm de ser coisas muito importantes“, remata.
Afonso Dantas (Cozinha do Paço, 1 estrela Michelin)

“Eu acredito que cada vez mais Portugal se tem vindo a assumir verdadeiramente como um destino gastronómico. De ano para ano vamos crescendo de forma consistente, o que é muito importante. Acho que Portugal tem talento, sem dúvida nenhuma, e restaurantes com potencial para as três estrelas não faltam. No entanto, é confiar no processo. Se não aconteceu é porque ainda não teve de acontecer. Acredito que o momento vai chegar e acredito que esteja para breve“, afirma.
“Acho que chega de especular se, de ano para ano, vai haver um restaurante três estrelas em Portugal. Há talento e vai nascer nos próximos anos. Não sei se será já nesta gala de 2027, mas com certeza que vai ser nos próximos anos”, finaliza.
Gil Fernandes (Fortaleza do Guincho, 1 estrela Michelin)

“Acho que temos candidatos e algumas possibilidades. Os candidatos estão há muito tempo na área, com chefs conceituados, vão melhorando a cada ano, então essa possibilidade pode estar mais iminente. Não sei se vai acontecer ou não, não se entende muito bem a 100% os critérios. Eu acho que sim, se não for este ano é para o próximo ou para o outro. Temos de estar motivados nesse aspeto”, crê.
“Muitas vezes está preso por detalhes. Pode ser um serviço que não está a 100%, ou um prato que não esteve tão bem. Acredito que há seis pontos para falar sobre estrelas Michelin, mas há muito mais do que isso. Há centenas de pontos que os inspetores avaliam e há tantos pontos que é difícil de perceber, sem ir a um restaurante com 3 estrelas, os parâmetros. Mas vai acontecer, só não sei se é este ano“, acrescenta.
“É um caminho, cada chef com duas estrelas vai melhorando todos os anos, vai limando arestas, construindo um serviço afinadíssimo, uma comida exímia sem grandes falhas, e chegará a um ponto que é um local único, que valerá fazer uma viagem propositadamente para isso”, termina.
