Rock in Rio. Katy Perry levou êxitos, nostalgia e muita diversão ao Palco Mundo (e ninguém conseguiu ficar parado)

Há quem diga que ninguém se diverte mais num concerto de Katy Perry do que a própria. Mas o público também não se safou mal. Saiba o que achámos.

Se houve um concerto que conseguiu colocar várias gerações a saltar, a cantar e a gritar em plenos pulmões no primeiro dia do Rock in Rio Lisboa, foi sem dúvida o de Katy Perry. Cabeça de cartaz e nome mais aguardado da noite, a artista subiu ao Palco Mundo com o peso (e o privilégio) de ser aquela que toda a gente queria ver, e a verdade é que não desiludiu, pois cumpriu a promessa de uma noite cheia de êxitos.

De saias metalizadas a botas cowboy. Tem de ver os looks destes 14 festivaleiros no primeiro dia de Rock in Rio
De saias metalizadas a botas cowboy. Tem de ver os looks destes 14 festivaleiros no primeiro dia de Rock in Rio
Ver artigo

Até porque, verdade seja dita, a artista não chegou como uma novidade fresquinha que todos estavam desejosos de conhecer, e sim como um catálogo de músicas que marcaram gerações inteiras – e que, na nossa opinião, mereciam ser berradas e gritadas em plenos pulmões. Foi uma viagem no tempo com memórias da cultura pop que tantos decoraram durante tantos outros anos, e que foi finalmente partilhada.

Posto isto, adiantamos já antes de ler a nossa opinião sobre o concerto que foi sem dúvida um dos mais mexidos e divertidos em que já estivemos presentes. Ninguém estava aborrecido, ninguém contava os minutos para ir embora e ninguém ficou estático a ouvir Katy Perry cantar. A nostalgia foi tanta que as pessoas pulavam e dançavam sem sequer olhar para o palco, aproveitando a felicidade do momento. E que felicidade.

O atraso pensado e as “raízes portuguesas”

Comecemos pelo início: um dos momentos mais falados acabou por ser a chegada aparentemente atrasada de Katy Perry, resolvida com humor e uma videochamada. Foi notório o pensamento por detrás da situação, percebendo-se claramente que a artista não estava atrasada e que estava tudo planeado, e isso acabou por ser revelador: há aqui uma artista que já percebeu como transformar a logística numa narrativa. 

Outro detalhe que rapidamente circulou foi a piada sobre o seu suposto tetravô português, natural de Ponta Delgada, o que a tornaria “24% portuguesa” segundo um teste de ADN. A cantora agarrou nessa ideia com humor e transformou-a quase numa espécie de regresso simbólico às origens, e não tendo um grande peso histórico (será sequer verdade?), teve certamente peso emocional num festival em Lisboa.

E por falar em Lisboa, Katy Perry soube trazer a nostalgia até à capital portuguesa não só com as suas músicas mas também com o seu segundo look. Com um conjunto verde de calções e top brilhante e com um lacinho cor de rosa, a artista admitiu que aquele foi um dos outfits que usou na sua primeira passagem por Portugal em 2009, o que acabou por ser quase como um fio invisível entre duas versões diferentes da mesma artista.

A má ligação dos ecrãs gigantes e a produção extraordinária 

No entanto, se houve algo que fugiu ao controlo da artista, foram sem dúvida os ecrãs gigantes. Ao longo do concerto, existiram várias falhas de ligação que interrompiam a experiência visual durante alguns segundos, e num palco daquele tamanho e com uma multidão tão densa, esse detalhe acabou por ser bastante notado – sobretudo porque o espetáculo vive muito da componente visual.

Ainda assim, quando tudo funcionava, era impossível ignorar o cuidado visual do concerto, o que nos deixou ainda mais entusiasmados com todo o pensamento que houve por trás. Notou-se que a produção foi mesmo pensada ao detalhe, com uma estética muito alinhada com a fase mais recente da carreira de Katy Perry, e os visuais eram fortes, coloridos e claramente desenhados para dar nova vida às músicas.

Os visuais deixaram, na verdade, de ser apenas um fundo: eram parte ativa da narrativa de cada canção, também elas um pouco modificadas para tornar o espetáculo ainda mais grandioso. Um toque de música eletrónica em algumas canções e aquilo que poderiam ser horas tardias transformaram-se num autêntico momento de injeção de adrenalina, e Katy Perry, uma vez mais, soube meter o público a mexer. 

E porque tudo parecia fazer parte de uma história maior, também os momentos mais caricatos encontraram o seu espaço no concerto. A temática das chamadas telefónicas, que esteve presente em vários momentos da produção, deu origem a uma das interações mais divertidas da noite, quando Katy Perry decidiu rejeitar chamadas dos seus ex-namorados e atender apenas a do atual companheiro. A brincadeira ajudou a reforçar uma ideia que se tornou evidente ao longo de todo o espetáculo: nada estava ali por acaso.

Êxitos? Temos. Saltos? Também temos

E depois há o essencial: o alinhamento. Isto foi, sem rodeios, um verdadeiro shuffle do Spotify de Katy Perry, e não dizemos isto, de todo, no mau sentido. Uma sucessão de êxitos que não deu espaço para respirar foi o que a artista proporcionou no Rock in Rio, e de “California Gurls” a “Roar”, não houve um único momento de silêncio. Era impossível não cantar, mesmo quem dizia não ser muito fã, e até a voz da artista ficava perdida no meio de tanta cantoria.

Aliás, parte do sucesso da noite nem esteve necessariamente nas músicas em si, e sim na forma como Katy Perry as apresentou. Soube quando puxar pelo público, quando o deixar a cantar sozinho e quando criar monólogos estranhos e divertidos, nunca dando a sensação de que estava a apressar o momento. Algumas falas percebiam-se decoradas, sim, mas percebeu-se que vinham do coração.

E há um outro pormenor que não podemos mesmo deixar de lado. Katy Perry, apesar de não ser das artistas mais novas em palco, continua a ter uma presença que muitas ainda não alcançaram – há até quem diga que ninguém se diverte mais num concerto de Katy Perry do que a própria. Saltou, dançou, interagiu, entrou dentro de uma garrafa e fez crowd surfing, deixando claro que estava mesmo a divertir-se em cima do palco e a criar memórias com quem lá estava. E essa proximidade com o público acabou por fazer a diferença.

Aliás, isso ficou evidente num dos momentos mais reflexivos da noite. A meio do concerto, a artista decidiu deixar uma reflexão sobre Inteligência Artificial, defendendo que deve ser a humanidade a controlá-la e não o contrário. Num espetáculo onde a tecnologia esteve constantemente presente, a mensagem acabou por soar pertinente, e, naquele instante, tornou-se difícil imaginar qualquer IA a reproduzir o que estava a acontecer no Palco Mundo.

O final podia ter sido (mais) perfeito 

Antes de fechar o concerto, Katy Perry tinha todos os ingredientes para o fazer de uma forma perfeita. Contou com um momento mais íntimo e inesperado, fazendo uma chamada falsa com a filha, Daisy, com conversas simples que trouxeram humanidade a um espetáculo gigantesco, e cantou ainda uma versão de “Roar” que certamente empoderou todos os presentes. No entanto, foi agridoce.

Isto porque “Fireworks”, foi a sua última canção, que poderia ter fechado o seu concerto de forma inigualável ao trazer, literalmente, fogo de artifício. Sentimos que, para um concerto destes, onde a maré de gente era tanta e a felicidade saía dos poros de qualquer pessoa, esta seria mesmo a cereja no topo do bolo. Talvez seja possível daqui a oito anos, se Katy Perry demorar o mesmo desde o seu último concerto em Portugal (em 2018 também no Rock in Rio).

Mas no fim de tudo, ficou claro que este concerto não quis ser apenas um alinhamento de músicas e sim um grande espetáculo cheio de tecnologia, memória e personalidade – e até a sua ida ao espaço acabou por ser evocada como mais um capítulo dessa estética. Foi, assim, um concerto muito forte naquilo que realmente importa num festival: fazer milhares de pessoas sentirem, cantarem e esquecerem o mundo por umas horas.

Fale connosco

Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado.

Veja também

Scroll to Top