Não é a primeira, a segunda ou a terceira vez que vemos os Calema ao vivo, e uma coisa é certa: fartarmo-nos é coisa que não acontece. Eis o que achámos do espetáculo n’O Sol da Caparica.
Há qualquer coisa nos minutos que antecedem um concerto dos Calema. É um nervosismo bom, daqueles que fazem um recinto inteiro esperar pelo primeiro acorde, já sabendo que, quando os irmãos entrarem em palco, vai ser difícil ficar parado – e na sexta-feira, 14 de agosto, n’O Sol da Caparica, não foi diferente. Havia uma multidão à espera (até literalmente ao fundo do recinto) e, quando a dupla finalmente apareceu, percebeu-se que estavam ali para muito mais do que ouvir música.
É que os Calema conseguem uma coisa que nem todos os artistas conseguem: adaptar a sua grandeza ao palco que têm pela frente. A MAGG já teve a oportunidade de os ver em edições passadas d’O Sol da Caparica, no Rock in Rio Lisboa e no Estádio da Luz e, apesar de serem concertos completamente diferentes, há algo que permanece. A comunicação com o público, a vontade de chegar a todos e aquela sensação de que, durante algumas horas, o objetivo é simplesmente deixar toda a gente feliz.
E ontem o público respondeu à altura. O recinto estava completamente cheio, com pessoas até às zonas mais afastadas do palco, e era impossível não reparar na quantidade de gerações que ali se encontravam. Pais, filhos, jovens e adultos mais velhos cantavam as mesmas músicas, dançavam lado a lado e gritavam por Fradique e António. E talvez tenha sido esse o verdadeiro espetáculo da noite: perceber como a música consegue juntar pessoas tão diferentes no mesmo lugar.
Visualmente, também não faltaram os elementos que já fazem parte do universo Calema. O famoso triângulo, adereço que caracteriza o espaço dos irmãos, voltou a marcar presença, desta vez envolto num ambiente cor-de-rosa que deu ainda mais vida ao palco. As bailarinas, como sempre, estiveram à altura, acompanhando cada música com uma energia contagiante. E quando se olha para tudo em conjunto, percebe-se que há uma produção pensada para ser, verdadeiramente, um espetáculo.
Mas é na música que está, inevitavelmente, a magia. Os timbres de António e Fradique continuam a encaixar-se de uma forma quase perfeita, sobretudo quando as vozes se encontram naquelas partes em que já sabemos que o público vai cantar mais alto. Houve medleys, temas mais conhecidos e outros que nem toda a gente parecia reconhecer de imediato, mas bastavam alguns segundos para o recinto voltar a mexer as ancas.
“Maria Joana” trouxe precisamente um desses momentos, com os tambores a tomarem conta do palco e a energia a subir ainda mais – porque, na verdade, se há coisa que os Calema sabem fazer é não deixar que a intensidade baixe, e quando parecia que já não havia mais ninguém para pôr a dançar, eles aproximaram-se ainda mais do público. Saindo do palco e chegando à zona onde conseguiam dar a mão a quem estava na primeira fila, ficou claro que, para eles, a distância entre palco e plateia parece ser sempre demasiado grande.
E houve também espaço para lembrar de onde vieram. Num dos momentos mais emotivos da noite, Fradique falou sobre São Tomé e Príncipe, sobre terem vindo “do nada”, de uma zona de pesca, e sobre a batalha necessária para chegarem ao lugar que hoje ocupam, enquanto António o acompanhava com um bonito assobio. A verdade é que é fácil olhar para a dimensão que os Calema têm hoje e esquecer o caminho percorrido pelos dois, e talvez seja precisamente por isso que estes momentos continuam a ser tão importantes.
“Importante este evento. Às vezes a gente não tem a profunda noção, mas a música cantada em português tem de ser mostrada para ganhar asas e voar pelo mundo. Este é o evento que precisa do apoio de vocês”, disseram os irmãos, numa mensagem que arrancou fortes aplausos. É por isto que gostamos sempre de ver os Calema ao vivo. Porque podemos vê-los num festival, num grande palco ou num estádio e, ainda assim, eles encontram sempre uma forma de fazer parecer que aquele momento é só nosso.






