A MAGG já teve a oportunidade de ver a adaptação do livro de Colleen Hoover, e uma coisa é certa: este continua a ser, sem sombra de dúvidas, um dos melhores livros de Colleen Hoover.
Parece que as adaptações literárias vieram para ficar – e Colleen Hoover é daqueles nomes que vê muitas das suas histórias ganharem vida no ecrã. Obras como “Isto Acaba Aqui”, “Sempre Tu” ou ainda “Tudo Me Lembra de Ti” foram algumas das narrativas da autora que chegaram aos cinemas, e esta quinta-feira, 1 de outubro, chega mais uma que promete trocar o romance pelo suspense. “Verity”, com Dakota Johnson e Anne Hathaway no centro da história, deixa bem claro que acreditar na pessoa errada pode mudar tudo.
Mas há duas formas de entrar numa sala de cinema portuguesa para ver esta adaptação: ter o livro tão presente na memória que quase conseguimos antecipar a próxima cena ou não fazer ideia daquilo que nos espera. No nosso caso, cometemos – ou talvez não – o erro de reler “Verity” imediatamente antes de ver o filme, e se isso tornou algumas alterações impossíveis de ignorar, também confirmou outra coisa: este continua a ser, sem sombra de dúvidas, um dos melhores livros de Colleen Hoover.
Ora, a história acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora que recebe a oportunidade de terminar os livros de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma autora de sucesso que, depois de um acidente, deixou de conseguir escrever. É, portanto, assim que Lowen entra na casa de Verity e do marido, Jeremy (Josh Hartnett), e encontra um manuscrito que nunca deveria ter lido. A partir daí, passado e presente começam a misturar-se e impera uma pergunta: afinal, em quem podemos acreditar?
E se no livro queremos constantemente chegar ao capítulo seguinte, não podemos negar que o filme consegue criar praticamente a mesma sensação de urgência. As duas horas de produção passaram num ápice, e houve sempre qualquer coisa no ar que nos disse que não devíamos ficar demasiado confortáveis. A música contribuiu muito para essa inquietação, mas foram talvez os momentos em que desapareceu que funcionaram melhor – e, para nós, os silêncios desconfortáveis são aquilo que fazem um thriller.
Além disso, este filme tinha uma particularidade: o livro de Colleen Hoover está quase que dividido entre presente (a história de Lowen) e passado (o manuscrito de Verity), pelo que, para a história fazer sentido, a produção tinha de seguir a mesma lógica. Ora, a verdade é que o filme encontra uma forma visual bastante inteligente de separar – e, por vezes, até cruzar – as duas narrativas, pois a sobreposição de imagens faz com que nunca seja difícil perceber em que ponto da história nos encontramos.
Espreite as imagens do filme.
Mas depois há Anne Hathaway, e é mesmo difícil falar de “Verity” sem falar dela. A atriz é, sem qualquer dúvida, o grande destaque do filme, e constrói uma Verity Crawford tão fria quanto perturbadora. Há expressões faciais que dizem tudo e, curiosamente, há também “não expressões” que dizem ainda mais, uma vez que um olhar fixo chegou para criar desconforto. E se no livro não lemos nada escrito por Verity (a não ser o manuscrito), na produção temos essa oportunidade, o que torna a sua personagem ainda mais inquietante.
Dakota Johnson também entregou uma boa Lowen, apesar de existirem momentos em que é mais fácil ver a atriz do que a personagem, e a relação entre a jovem autora e Jeremy também não tem sempre a intensidade que tinha nas páginas do livro. É, na verdade, precisamente aqui que entra a parte mais complicada para quem conhece bem a obra original de Colleen Hoover, porque há momentos quase transportados palavra por palavra para o ecrã, sobretudo quando entramos no manuscrito de Verity, mas também existem mudanças.
[Este parágrafo contém spoilers do livro e do filme] No livro, por exemplo, Jeremy e Verity têm três filhos, e a tragédia que envolve aquela família é fundamental para percebermos certos comportamentos. O filme acaba, no entanto, por simplificar essa parte da história, assim como a famosa e intrigante cena do cabide. Este é um daqueles momentos que Colleen Hoover descreve de forma tão gráfica que a imagem fica gravada na cabeça dos leitores e, por isso, é estranho chegar ao filme e perceber que simplesmente não está lá.
Não que fosse extremamente necessário reproduzir cada detalhe do livro, até porque nenhuma adaptação consegue colocar em menos de duas horas mais de 200 páginas, mas a verdade é que essa é uma das cenas (senão a cena) que melhor traduz até onde pode ir a crueldade descrita no manuscrito de Verity. Por isso, quando uma comunidade de leitores está cada vez mais atenta às adaptações das histórias que adora, são esses pequenos e grandes detalhes que dificilmente passam despercebidos – e connosco não foi exceção.
E sobre o final, o que podemos dizer? O que é certo é que o filme não se esquece de uma das coisas que tornou a obra tão famosa: o facto de que quando achamos finalmente que percebemos a história, aparece uma razão para voltarmos a questionar tudo. Na sessão em que vimos o filme bastou chegar esse preciso momento para várias pessoas na sala susterem a respiração (claramente não sabiam ao que iam), e foi aí que percebemos que não havia melhor prova do que essa de que o filme tinha conseguido igualar o livro nesse aspeto.
Assim, para um leitor ávido, “Verity” não é uma adaptação totalmente fiel, mas é tenso, inquietante, tem ritmo e uma Anne Hathaway que deixou claro o porquê de ter sido escolhida para o papel. A parte divertida para quem não leu a obra é que certamente saiu da sala de cinema com mais perguntas do que respostas, e numa história construída para nos fazer duvidar de tudo aquilo que achávamos ser real, dificilmente poderia haver melhor resultado.






