Rock in Rio Lisboa. Já fomos a funerais mais animados do que o concerto de Shaggy — que deixou a desejar

A grande lenda do dancehall atuou no Rock in Rio Lisboa 2026, mas passou a maior parte do tempo a falar. Entre as trocas de músicas silenciosas e a conversa interminável com a plateia, valeram os clássicos e a resiliência da primeira fila.

©Hugo Moreira

Existem concertos que valem pela música e outros que parecem uma longa sessão de conversa misturada com animação de discoteca. A passagem de Shaggy pelo Rock in Rio Lisboa 2026 este sábado, 27 de junho, tendeu perigosamente mais para a segunda opção.

Quem ia à espera de uma maratona de êxitos dançáveis do início ao fim, acabou por bater numa atuação onde se falou muito e se cantou surpreendentemente pouco.

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O concerto começou morno. Shaggy entrou em palco a gritar “Lisbon!” e a tentar que o público respondesse à altura, mas as tentativas iniciais não se mostraram à altura — o público pouco se exaltou, valendo apenas o ecrã gigante, que ia transmitindo imagens da plateia e dos músicos da banda, o que ajudou a dar alguma escala ao momento.

Se ao início o recinto parecia despido, a verdade é que o público foi-se juntando à medida que os primeiros acordes ecoavam, deixando depois o recinto muito bem composto.

Ouviram-se temas como “I Need Your Love” e “Bombastic” (ou “Mrs. Lover Lover”, como o público reconhece mais), gerando uma mancha de mãos a abanar no ar. Estavam dessincronizadas, é verdade, mas visualmente engraçadas.

Um dos grandes problemas do concerto residiu principalmente no ritmo. Não existiam transições fluidas entre canções: a música acabava, o público aplaudia e instalava-se um silêncio desconfortável de alguns segundos, e só depois vinha o tema seguinte ou alguns minutos de conversa de Shaggy para o público. Estas pausas constantes cortavam o clima a uma plateia que, já de si, estava incrivelmente apática.  

Em comparação com outros artistas do festival, o público de Shaggy parecia saído de uma sessão de meditação. À exceção da primeira fila (que se manteve viva e animada), o resto do recinto parecia apenas estar a ouvir a música, e não a senti-la.

Pouco se ouvia a plateia cantar, as pessoas focavam-se mais em dançar timidamente do que em acompanhar as letras. Nas primeiras vezes que Shaggy perguntou “Estamos em festa, Lisboa?”, o público gritou tão baixo que quase não se ouviu.

O concerto apenas despertou verdadeiramente quando a banda de Shaggy injetou um trecho de “Turn Down for What” e quando o artista perguntou se queriam reggae. Aí sim, o público voltou à vida para “Bad Boys” e “Mad Mad World”. Pelo meio, Shaggy recordou a primeira vez que atuou no Rock in Rio em 1993, num segmento demasiado longo passado apenas a falar com a plateia e a lançar pedaços de outras músicas.

Ao voltar à música, Shaggy pediu ao público que se baixasse até ao chão e depois se levantasse em simultâneo ao som de “Go Down Deh”, porém não teve grande adesão dos festivaleiros, que se mantiveram apenas a ouvir a música.

A fasquia subiu um pouco mais ao som de “She’s My Woman”, “Dancehall Nice”, “Boom Body” e “Stand Up”, onde a plateia conseguiu acenar os braços em sincronia com o artista.

Pode-se dizer que grande parte do concerto foi passado em conversa – e não nos interpretem mal, era boa e animada, mas para quem queria ouvir música do início ao fim o espetáculo soube a pouco. Shaggy arrancou ainda algumas gargalhadas genuínas a soltar a piada: “As mulheres não precisam de homens. Só de mim”.

A caminhar para o fim, antes de lançar o hino “Hey Sexy Lady”, Shaggy tentou colocar o público a cantar à capela o icónico refrão de “It Wasn’t Me”. O resultado? Um fiasco total. O silêncio instaurou-se, havendo poucas vozes que estivessem a acompanhar a canção, provando que se o artista não estivesse constantemente a guiar e a pedir reações, a plateia simplesmente não respondia.

Para tentar salvar o momento, o cantor jamaicano recorreu ao clássico “Esta m**** é que é boa”, que até não foi um fiasco, mas ficou muito aquém de outros concertos vividos na Cidade do Rock.

Entrávamos na reta final e a festa parecia estar finalmente a começar. Mas a ilusão durou pouco. “It Wasn’t Me” foi recebido com alguma animação, parecendo mesmo que esta era a música mais aguardada do concerto.

Porém, o refrão foi cantado do princípio ao fim apenas por alguns dos presentes, não conseguindo criar uma atmosfera vibrante e eletrizante. Shaggy despediu-se por fim dos fãs ao som de “Feel the Rush”, no final de um concerto que soube a pouco.

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