Rock in Rio Lisboa. Linkin Park voltaram a pisar solo português 12 anos depois. Lágrimas de vocalista e pausa estranha marcaram a noite

A banda de rock mais aguardada do cartaz do RIR regressou a Portugal após uma longa pausa, apresentando-se com a sua nova vocalista. No meio do ceticismo e da euforia generalizada, o público tomou as rédeas do concerto e criou um dos momentos mais arrepiantes da história do festival.

Havia medo, havia ceticismo, mas acima de tudo, havia uma ânsia avassaladora que se fazia sentir na Cidade do Rock desde a abertura das portas. A enorme mancha preta de t-shirts com a marca oficial da banda espalhada pelo recinto não deixava margem para dúvidas: a plateia do segundo dia do Rock in Rio Lisboa veio, sobretudo, para testemunhar o regresso dos Linkin Park a Portugal 12 anos depois, a primeira atuação em solo nacional após a pausa que se seguiu à trágica morte de Chester Bennigton, vocalista, que morreu aos  41 anos, estando agora no seu lugar Emily Armstrong.

A viagem começou minutos mais cedo do que era previsto ser a hora do concerto (que estava marcado para as 23h15) com algumas imagens de homenagem a Chester Bennigton juntamente com a frase “A parte mais difícil de terminar é começar de novo” e ainda um anúncio que surpreendeu todos os presentes: um filme sobre a banda, apesar de os detalhes ainda permaneceram no segredo dos deuses.

O ambiente serviu de combustível para uma contagem decrescente de 10 minutos. À medida que o relógio avançava, a multidão reagia a cada segundo, e era impossível não sentir o entusiasmo e a ansiedade presente no recinto. Assim que os últimos 60 segundos apareceram nos ecrãs, o público começou a chamar pelos Linkin Park, criando uma autêntica atmosfera de entusiasmo e animação.

Já nos últimos 10 segundos, o Parque Tejo uniu-se num grito uníssono a fazer a contagem decrescente tão eletrizante que se tornou difícil ficar indiferente. Com uma pontualidade irrepreensível e perante uma plateia em absoluta loucura, o espetáculo dividiu-se em quatro atos, arrancando com o novo single que assina esta era de renascimento “The Emptiness Machine”. Mike Shinoda assumiu os primeiros versos, abrindo alas para a entrada de Emily Armstrong (a nova vocalista da banda), uma escolha acertada uma vez que a integração da vocalista não foi bem vista por todos os fãs (que a compararam negativamente com Chester Bennington).

Nas primeiras canções do do primeiro ato, que incluiu hinos pesados como “Lying From You”, “Crawling” e “Somewhere I Belong”, o fantasma do passado pareceu pairar sobre o palco. Era notório o nervosismo de Emily Armstrong, que ao início tinha uma postura mais recatada enquanto Mike Shinoda puxava pelo público, que retribua com sucesso. Sentia-se que Emily Armstrong ainda procurava o seu espaço de legitimação num palco onde os restantes membros da banda claramente já têm o amor incondicional dos fãs.

Contudo, ao longo do concerto fomos comprovando que os Linkin Park funcionam em democracia. Nenhum dos integrantes procurou ser o centro das atenções, pelo contrário, os artistas foram constantemente trocando de microfones, alternavam de posições e os guitarristas fizeram questão de se deslocarem até às extremidades do palco. Como Brad Delson (guitarrista da banda), que foi o primeiro a ir para a extremidade direita criando um autêntico furor nos fãs mais próximos do palco. Quando a banda soltou o primeiro “obrigado” em português, a multidão enlouqueceu e respondeu com uma ovação ensurdecedora. 

O gelo quebrou-se definitivamente no Ato 2, aberto de forma apoteótica com “The Catalyst” sob uma chuva de confetes cor-de-rosa. Foi ao som do clássico “Burn It Down” que Emily Armstrong começou finalmente a soltar-se correndo pelo palco e arriscando interações mais diretas, que foram sempre correspondidas pelo público que vibrava juntamente com a vocalista, mostrando que a apoiavam. Mas o momento mais emotivo e cru da noite chegou logo a seguir com “Waiting For The End”.

Confrontada com a densidade de uma letra que aborda a mortalidade, a resignação e a tremenda dificuldade em fechar ciclos e seguir em frente após perdas traumáticas, Emily Armstrong não aguentou e emocionou-se, chegando mesmo a chorar em palco, e sendo apoiada pelo público que estremecia ao som da música. Foi um momento de pura vulnerabilidade humana que conquistou o respeito definitivo de quem ainda estivesse cético acerca da escolha para vocalista.

Para limpar as lágrimas, o rock puro voltou a imperar. Houve espaço para um mosh pit protagonizado pelo público da front line ao som da frenética “Two Faced” (do último álbum da banda “From Zero”), e o público chegou mesmo a tentar lançar o icónico cântico português “Esta m**** é que é boa”, embora sem grande sucesso devido aos ritmos implacáveis da bateria. O 2º ato fechou em picos de adrenalina pura com “A Place For My Head”, “Igyeih” e o clássico agressivo “One Step Closer”.

A transição para o 3º ato, trouxe um dos momentos mais confusos da noite. O ecrã gigante começou a projetar os rostos da plateia com uma enorme racha vermelha, acompanhada apenas por música eletrónica e um pequeno ruído de fundo. Enquanto o ecrã mostrava o público da plateia, o palco ficou completamente deserto. Embora tenha criado um ótimo suspense, pensando que a banda poderia trocar de roupa ou mudar o cenário do palco, a pausa pareceu algo injustificada, já que a banda regressou sem qualquer alteração.

Nada que beliscasse a devoção de um autêntico público transgeracional, onde pais orgulhosos cantavam de braço dado com os filhos adolescentes e crianças ao som de “Lost (into) Breaking The Habit”. A meio do terceiro ato os fãs empunharam os braços no ar e cantaram o refrão de “What I’ve Done”. Mas nada, absolutamente nada, se comparou ao que aconteceu quando os Linkin Park ecoaram as primeiras notas de piano de “Numb”, sem dúvidas a canção mais famosa da banda.

A Cidade do Rock transformou-se num coro colossal e numa só voz. Visivelmente surpreendida com o poder da multidão, Emily Armstrong estendeu o microfone para a plateia, que cantou de forma tão estrondosa e vibrante que, em pequenos momentos, quase só dava para ouvir a voz dos fãs. Foi um momento de arrepiar, mesmo para aqueles que não sejam tão fãs da banda americana. No meio do delírio, houve até quem surfasse pela multidão empunhando uma câmara de filmar nas mãos. A energia esteve de tal forma contagiante que Emily Armstrong lançou-se ao público durante a poderosa “Heavy Is The Crown”, encerrando depois o ato 3 com “Bleed It Out”.

Mesmo tratando-se de um domingo (com a segunda-feira mesmo à espreita) e mesmo tendo alguns festivaleiros começado a desmobilizar mais cedo, a moldura humana continuava impressionante para o arranque do 4º ato, o último, que arrancou com a visceral “Papercut”. O ponto alto da noite estava reservado para “In The End”. Se o coro em “Numb” já tinha provado o poder do público, o arranque deste clássico superou todas as expectativas. O público tomou as rédeas do concerto, cantando o refrão com uma forma e uma carga emocional tão intensas que demonstraram a tremenda falta que os Linkin Park faziam aos palcos portugueses.

Emily Armstrong foi-se despedindo emocionada: “Thank you so much! I Love you!”. O espetáculo terminou em grande estilo rock: confetis a voar, solos finais de bateria e o eco distorcido das guitarras de “Faint”. No momento dos agradecimentos Emily Armstrong e Mike Shinoda distribuíram palhetas pelo público tendo o baterista do grupo, Collin Brittain, atirado as suas baquetas também para a enorme multidão, erguendo depois sobre os ombros a bandeira de Portugal ao som dos fortes aplausos do público.

Emily Armstrong curvou-se profundamente perante o público português, um gesto humilde de profunda gratidão por ter sido acolhida na casa que Chester Bennington ajudou a construir. Esta hora e meia de concerto provou que os Linkin Park estão vivos, recomendam-se e continuam a ser uma força imparável da natureza, preparados para entrar nesta nova era da banda.

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