Entre a guitarra portuguesa e a sua performance carregada de força, houve momentos em que o palco pareceu pequeno para aquilo que saía dos pulmões de Sara Correia.
Sara Correia subiu na noite de quinta-feira, 13 de agosto, ao palco principal d’O Sol da Caparica com uma missão que, por si só, já merecia atenção: levar o fado a um festival conhecido por outros géneros e por um público tendencialmente mais jovem. No entanto, se a escolha poderia parecer, à partida, pouco óbvia, a fadista entrou em palco sem hesitações – e a sua voz tratou rapidamente de ocupar todo o espaço.
Isto porque há vozes que se ouvem e há vozes que preenchem um palco inteiro, e a de Sara Correia pertence claramente à segunda categoria. Entre a guitarra portuguesa e a sua performance carregada de força, houve momentos em que o palco pareceu pequeno para aquilo que saía dos seus pulmões, assim como para a guitarra portuguesa. Com o seu momento de protagonismo ao longo do concerto, ficou claro o porquê de este ser um instrumento tão importante na cultura nacional.
E o público, apesar de não ser necessariamente o mais energético para o fado que se cantava, recebeu a artista de braços abertos. Os aplausos foram constantes e, aqui e ali, surgiam vozes a acompanhar as canções. Contudo, nem todos pareciam igualmente envolvidos: entre os mais novos, sobretudo nas filas mais afastadas, havia quem assistisse com alguma distância, e talvez fosse precisamente aí que estivesse o verdadeiro teste desta atuação.
Porque a questão foi feita: será o fado uma escolha acertada para um festival como O Sol da Caparica? A verdade é que a resposta não é totalmente simples, porque se, por um lado, o público deste tipo de festivais procura outros géneros, por outro, ver o fado ocupar um lugar de destaque é, por si só, uma conquista – e Sara Correia mostrou que há espaço para essa tradição fora dos palcos onde habitualmente a encontramos.
Mas foi quando chegaram as canções mais conhecidas que a distância entre o público e a artista parece que desapareceu. A colaboração com Pedro Abrunhosa foi uma das mais cantadas da noite, tal como “Respirar”, que levou o público a juntar-se à voz da cantora. E quando esta puxou pelo grito de “Chelas”, a resposta foi imediata, pelo que foi nesses momentos que se percebeu a ligação que se foi criando ao longo do tempo.
Ainda assim, talvez o maior mérito da noite tenha estado na própria Sara. Comunicativa, próxima e visivelmente apaixonada por aquilo que estava a fazer, a fadista nunca pareceu estar simplesmente a cumprir uma atuação, uma vez que havia entrega em cada interpretação e uma vontade evidente de levar o público ao rubro. Mesmo quando a resposta não era imediata, Sara continuava a cantar como se o fosse, deixando claro que sim, cantar é mesmo uma das coisas que mais gosta de fazer.
O concerto terminou com os instrumentos e a banda da fadista a ganharem espaço e com um final menos espontâneo, mas ficou o essencial: num festival que não parece ter sido feito à medida do fado, Sara Correia mostrou que uma voz destas não precisa de um contexto perfeito. Talvez esta noite não tenha provado que o fado encontrou o seu palco ideal n’O Sol da Caparica, mas provou que merece continuar a procurar o seu lugar em palcos onde, à primeira vista, parece não caber.
