Um concerto morno num palco gigante. Do que estava à espera o Rock in Rio Lisboa com 21 Savage como cabeça de cartaz?

Quando alguém da geração 2000 gosta mais do espetáculo de Rod Stewart do que do concerto de 21 Savage, isso quer dizer algo – e não, não somos super fãs nem de um, nem de outro.

Há concertos que começam efetivamente quando o artista entra em palco – mas o de 21 Savage no Rock in Rio Lisboa começou muito antes disso. Cabeça de cartaz de domingo, 28 de junho, o último dia do festival, a verdade é que, apesar de não ter esgotado, este era um dos dias mais esperados pela geração mais jovem, mas nós também fazemos parte dela e uma coisa garantimos: não foi, de todo, um dos melhores espetáculos do festival. Foi, verdade seja dita, um dos mais mornos que existiu.

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Ainda faltava algum tempo para o rapper aparecer no Palco Mundo e já centenas de pessoas se juntavam à frente das grades, mas tudo porque foram atraídas por um DJ que parecia ter uma única missão: garantir que ninguém chegava parado ao concerto. E conseguiu. Entre Travis Scott, Drake, Bad Bunny e até algumas escolhas mais inesperadas, o aquecimento transformou-se numa pequena festa, daquelas em que o público salta sem precisar de um motivo especial.

A certa altura, parecia até que o concerto já tinha começado, e foi também durante esse momento que se viu uma das atitudes mais positivas da noite. No meio da animação, dos moshpits e da crescente agitação, o DJ não hesitou em interromper a música para garantir que algumas pessoas que se estavam a sentir mal recebiam ajuda. Foi um gesto simples, mas que mostrou atenção ao público numa altura em que a energia estava particularmente elevada. 

E talvez tenha sido precisamente por causa dessa preparação tão eficaz que a entrada de 21 Savage acabou por soar estranha. Isto porque não houve o grito coletivo que normalmente acompanha a chegada de um cabeça de cartaz, não houve aquela explosão imediata de entusiasmo que faz um recinto inteiro tremer. Houve expectativa, claro, mas também uma reação surpreendentemente contida para um dos nomes mais conhecidos do rap contemporâneo.

A verdade é que, durante boa parte do espetáculo, a energia pareceu concentrada em pequenos grupos espalhadas pelo recinto. Na frente, junto às grades, viam-se fãs a cantar, a abrir moshpits e a viver cada música como se fosse a última. No entanto, nas filas mais atrás, o cenário era bastante diferente: muitas pessoas limitavam-se a absorver as músicas, outras conversavam entre si e algumas começaram mesmo a abandonar o recinto ainda com bastante concerto pela frente.

Não é necessariamente um problema, até porque nem todos os concertos precisam de ser explosivos do princípio ao fim, mas depois de termos ficado deslumbrados com Rod Stewart, seria de esperar que um dos artistas mais ouvidos da nossa geração desse um espetáculo e pêras. Mas quando um artista passa grande parte da atuação a pedir mais barulho ao público, torna-se difícil ignorar que talvez a ligação não estivesse a acontecer da melhor maneira.

E isso, portanto, acabou por ser uma constante ao longo da noite. 21 Savage manteve-se fiel àquilo que é enquanto artista, com poucas distrações, pouca conversa e pouco espetáculo. De fato de treino, quase sem grande vontade, apresentou as músicas de forma direta, deixando que fossem elas a carregar o espetáculo. Para quem gosta disso, o concerto terá cumprido o objetivo, mas para quem procurava uma experiência mais dinâmica, houve momentos em que tudo pareceu demasiado estático.

Aliás, nem a própria produção do espetáculo ajudou. Os grandes ecrãs raramente acrescentavam algo novo ao que se passava em palco, algo que não foi, de todo, o caso noutros espectáculos – batendo na tecla do Rod Stewart novamente, a dinâmica dos ecrãs foi algo que elevou todo o cenário – e algumas pausas acabaram por quebrar ainda mais o ritmo. Houve momentos em que as luzes desapareciam, 21 Savage saía brevemente de cena e o silêncio instalava-se.

Curiosamente, os momentos de maior entusiasmo surgiram quando eram feitas referências a outros artistas. As colaborações conhecidas com nomes como Travis Scott ou Post Malone despertaram reações imediatas e fizeram o recinto ganhar nova vida durante alguns minutos, com algumas pessoas que estavam a ir embora a correr novamente para ao pé do palco. Foi nesses instantes que se ouviu o público mais alto, mais participativo e mais próximo daquilo que normalmente se espera de um concerto desta dimensão.

Ou seja, uma coisa é certa: é demasiado notória a falta de presença em palco de 21 Savage. É um dos artistas mais ouvidos desta geração, sim, mas parece que nem sequer se dá ao trabalho de o mostrar, tendo apenas o DJ inicial em palco, o seu nome no grande ecrã e uma movimentação de braços que o faziam balançar ao som das músicas de vez em quando. Limitou-se a cumprir o alinhamento, deixando muitas vezes a impressão de que estava apenas de passagem e não a querer criar um momento único.

Mas talvez a grande questão nem seja sobre 21 Savage. Ao longo da atuação, tornou-se impossível não pensar no contexto, porque o Rock in Rio Lisboa é um festival historicamente associado a grandes espetáculos pop e rock. Mas o rapper trouxe algo diferente: um concerto mais fechado sobre si próprio, menos espetacular e menos dependente da interação com o público. E talvez aí esteja parte da explicação para a reação encontrada, que foi quase nenhuma.

Porque, no final da noite, ficou a sensação de que não faltavam pessoas para ver 21 Savage, uma vez que o recinto se encheu para o receber logo no início com a ajuda do DJ. O que faltou foi transformar essa curiosidade numa ligação com o público, e isso ficou claro quando as luzes se acenderam no final. Não houve uma explosão de euforia nem a sensação de termos assistido a um momento histórico, e quando a parte mais memorável de uma atuação acontece antes do artista entrar em palco, normalmente isso não é positivo.

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