“Antes de entrar em palco digo sempre uma oração. Sinto como se uma luz viesse do céu e entrasse diretamente na minha cabeça”. Esta é só uma das poderosas frases que Chazz Palminteri disse nesta entrevista que concedeu à MAGG, a propósito da chegada da peça da sua vida a Portugal. E quando falamos em peça da sua vida, é mesmo isso que queremos dizer: é não só a maior que já fez, como a que conta mesmo a sua história.
“A Bronx Tale: One Man Show”, criada, produzida e interpretada por Chazz Palminteri, é uma peça de teatro a solo, inspirada na própria infância do ator de “Os Suspeitos do Costume”, passada no Bronx, Nova Iorque, nos anos 60. É uma história de crescimento e identidade, ao mesmo tempo que consegue ser um retrato da vida num bairro italiano-americano daquela época. No entanto, há uma peculiaridade: na história de Chazz Palminteri, ele está entre uma família digna e um homem do crime.
E isto aconteceu mesmo na sua vida, mas já lá vamos. Na peça, o ator de 73 anos interpreta 18 personagens diferentes, desde membros da sua família, amigos do bairro, figuras do crime organizado e colegas de escola. Ou seja, apesar de ser um espetáculo de um homem só, Chazz Palminteri consegue fazer com que cada personagem fique completamente distinta, e tudo através de sotaques, gestos, expressões e movimentos. Usa poucos adereços, e no palco só tem uma cadeira.
O enredo centra-se então num jovem chamado Calogero (o seu alter ego, quase), que se encontra dividido entre dois modelos: o seu pai honesto e trabalhador, e Sonny, um mafioso carismático e bastante perigoso. A peça acaba por explorar temas como poder, moralidade, lealdade, amizade, família e escolhas de vida, mostrando como certas influências, boas ou más, moldam mesmo a personalidade de um jovem.
É, assim, uma história que combina humor, drama e emoção, e apesar de ser bastante pessoal para Chazz Palminteri, acabou por se tornar do mundo, com frases icónicas e ensinamentos sobre tentação e responsabilidade que, para o ator, todos deveriam ouvir. Poderá fazê-lo no dia 10 de junho no Cinema São Jorge, uma vez que “A Bronx Tale: One Man Show” chega a Portugal nesse dia. Os bilhetes (aqueles que ainda restam) custam entre os 20€ e os 30€, e enquanto não chega o dia, pode ler a entrevista.
Espreite as fotos de Chazz Palminteri.
Um espetáculo a solo com 18 personagens exige um rigor interno enorme. A peça está coreografada ao milímetro ou ainda há espaço para improvisação?
As duas coisas. É tudo muito detalhado e cada movimento que eu faço tem um propósito. Sempre que me desloco para um determinado ponto do palco e marco aquele lugar, há um ponto específico ali e tenho de acertar nele para que as luzes apareçam no momento certo. Não nos podemos esquecer de que interpreto 18 personagens e não mudo nada, não troco de roupa nem coloco capas.
A única forma de distinguir cada personagem é através do sotaque, dos gestos do corpo, das luzes e do som, e as luzes e o som são muito, muito importantes. Mas, às vezes, se sinto que o público está realmente a rir muito num determinado momento, começo a improvisar um pouco e prolongo essa parte.
E no meio de tudo isso, o que é que foi mais desafiante: construir cada personagem ou desaparecer completamente entre elas?
Boa pergunta. A parte mais desafiante foi quando escrevi a primeira versão da peça e tinha cinco pessoas a falar ao mesmo tempo numa cena. Isso levou algum tempo e fiquei bastante frustrado, e lembro-me de continuar a tentar e a reagir, a repetir aquilo vezes sem conta e a dizer a mim mesmo “isto tem de funcionar.” Havia uma personagem que se virava e depois mudava para outra personagem, e demorou algum tempo até conseguir acertar nisso.
Não sei bem como explicar quanto tempo demorou, mas foi cerca de uma semana inteira a trabalhar nisso constantemente, horas e horas. E quando finalmente consegui fazer aquilo funcionar, foi fantástico.
Depois de contar esta história durante décadas, nunca teve receio de que a memória começasse a transformá-la numa espécie de mito? Como é que se distingue o Chazz que viveu esses momentos do Chazz que agora os interpreta?
Não se distingue, porque cada vez que faço este espetáculo, volto lá. Antes de entrar em palco digo sempre uma oração, porque sei que quando entro em palco algo mágico acontece. Sinto como se uma luz viesse do céu e entrasse diretamente na minha cabeça, e então simplesmente acontece.
Quando termino, saio do palco literalmente sem saber muito bem para onde ir, e demoro cerca de 20 ou 25 minutos a voltar a mim. Às vezes dizem-me “Sr. Palminteri, tem de ir para a esquerda”, e eu respondo “para onde?”. Depois alguém que trabalha comigo vem ter comigo e diz “por aqui, Sr. Palminteri”, e levam-me para o camarim. Só então começo a acalmar-me e a relaxar um pouco, e é como se não fosse exatamente eu a fazer aquilo. Há uma sensação muito estranha no meu corpo, mas também é mágico.
A peça é uma reconciliação com o seu passado? Talvez até uma carta de amor?
Absolutamente. É uma carta de amor para a minha mãe e para o meu pai, para o Sonny, para o meu bairro e para os meus amigos com quem cresci. Para aquele lugar, para o Bronx, Belmont e Arthur Avenue. Isto é uma carta de amor. Eu queria colocar tudo isso numa espécie de cápsula do tempo, preservá-lo, porque no futuro as pessoas podem perguntar “como é que era aquela comunidade italiana há muitos anos?”. Quer saber como era? Vá ver “A Bronx Tale”.
Ainda volta ao Bronx? Sente saudades?
Sim. Não sei se me lembro exatamente de tudo como era, mas gosto de voltar lá. Vou lá às compras com a minha mulher, faz parte de quem eu sou. Os primeiros 21 da vida moldam-te para sempre, e as amizades que fazemos quando temos 7, 8 ou 9 anos nunca se esquecem. Eu tinha 25 amigos muito próximos e ainda hoje sou amigo de muitos deles. Quatro já morreram, mas ainda somos 21 e continuamos amigos, e isso é algo incrível de se ter.
Falou do Sonny e eu queria precisamente perguntar-lhe sobre isso. Alguma vez teve medo de romantizar o Sonny ou sempre soube onde traçar a linha moral?
Não. Eu romantizei completamente o Sonny, até porque quando era jovem não era assim tão inteligente. Mas houve algo que sempre me manteve no caminho certo: o meu pai. Ele dizia-me sempre “não me importa o que o Sonny te diz. Só por estares perto dele vais ser influenciado, e algo mau pode acontecer apenas por estares perto dele”. E ele tinha razão.
Quando somos jovens, o poder é muito sedutor, quase contagiante. Imagine crescer num bairro onde o homem mais poderoso o trata como se fosse um filho, essa sensação cresce consigo. Mas não é real, não é a vida real. E os meus pais estavam sempre do outro lado a lembrar-me “desce à terra, tens de trabalhar para viver”.
A razão pela qual “A Bronx Tale” funciona tão bem, mesmo depois de todos estes anos, é porque é uma catarse. O Sonny morre e a família reúne-se, e todas as pessoas que veem aquilo entendem o sentimento. As pessoas choram, as pessoas riem. É incrível ver.
Na psicologia existe a ideia de que precisamos de integrar o nosso lado mais sombrio para nos tornarmos pessoas completas. O Sonny foi, de certa forma, a sua sombra?
Sim, sei exatamente do que está a falar, Carl Jung falava muito sobre a sombra. Eu diria que o Sonny alimentou a minha sombra, porque mesmo quando ele dizia coisas positivas, havia também coisas negativas naquele mundo. E essas coisas fizeram-me perceber que eu tinha de ser mais forte do que pensava ser e maior do que imaginava. De certa forma, isso fez a minha sombra crescer um pouco.
A icónica frase “a coisa mais triste na vida é o talento desperdiçado” tornou-se quase universal. Alguma vez teve medo de desperdiçar o seu próprio talento?
Sim. Quando era jovem e estava a tentar tornar-me ator e escritor em Nova Iorque, estava a trabalhar, mas não estava a dar 100 por cento. Até que um dia percebi que aquilo tinha de parar. Podia dizer que queria ser escritor ou que queria ser ator, mas se não fizer o trabalho, qual é o sentido? É isso que muitos jovens não entendem: é preciso fazer o trabalho. Todos os dias da sua vida têm de estar em movimento, e se não está a avançar, está a recuar.
Quer ser escritor? Escreva. Quer ser advogado? Vá para a faculdade. Quer aprender um ofício? Vá para uma escola técnica e seja o melhor nisso. Mas tem de agir, e outra coisa muito importante, especialmente numa idade mais jovem, é manter distância de pessoas negativas. Se é a pessoa mais inteligente da sala, está na sala errada.
Se o rapaz de 9 anos do Bronx pudesse hoje sentar-se na plateia, acha que ficaria orgulhoso ou surpreendido?
Ele ficaria certamente orgulhoso.