Fomos ver “Rosaline, a Ex do Romeu” – e Shakespeare nunca pareceu tão atual. Tudo sobre a peça que está a conquistar Lisboa

A MAGG já teve oportunidade de assistir a “Rosaline, a Ex do Romeu” e saímos do Auditório dos Oceanos com uma certeza: este não é um espetáculo para ver uma única vez.

Romeu e Julieta. Mesmo quem nunca leu uma única página de William Shakespeare conhece a história: duas famílias rivais, dois jovens apaixonados, um romance proibido e um desfecho trágico que atravessou séculos de história, transformando os dois protagonistas num dos casais mais famosos da literatura. No entanto, há um pequeno detalhe que fica quase sempre esquecido pelo caminho. Antes de Julieta, Romeu estava apaixonado por outra mulher. E Rosaline? Alguém se lembra dela?

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É precisamente esta a personagem que ocupa o centro do palco em “Rosaline, a Ex do Romeu”, o novo musical original da UAU que estreou no passado dia 9 de setembro no Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa. A produção 100% portuguesa parte de uma personagem que é apenas brevemente mencionada no clássico de Shakespeare e dá-lhe aquilo que nunca teve: uma história – e, sobretudo, uma voz, daquelas bem independentes e donas de si.

Interpretada por Rafaela Monteiro, Rosaline é a primeira paixão de Romeu (Emanuel Almeida) e, como se a situação já não fosse suficientemente complicada, prima de Julieta (Inês Branco). Só que a jovem que encontramos em palco está longe de existir apenas enquanto “a ex”: Rosaline quer escolher o próprio destino, encontrar o amor e escapar às expectativas de uma sociedade e de uma família que parecem já ter decidido por ela como deverá ser o resto da sua vida.

É nesse ponto que o musical acaba por se distanciar da história que todos conhecemos, uma vez que, como já explicado, Rosaline não é muito comentada na obra original. Aqui, entre encontros, desencontros, paixões e várias tentativas de impedir que Romeu e Julieta vivam o amor, a protagonista acaba por iniciar uma jornada bem mais importante – a sua. E o resultado? Uma comédia romântica e musical sobre amor, sim, mas também sobre independência, identidade e autodescoberta.

Assim, com texto e encenação de Renato Arroyo, o espetáculo troca qualquer tentativa de reproduzir o século XVI por uma Verona colorida, acelerada e bem contemporânea, com referências atuais, humor, coreografias e uma linguagem próxima das novas gerações. Além disso, chegou com uma vontade evidente de pegar numa história com mais de 400 anos e perguntar: e se a contássemos nos dias de hoje? É, portanto, uma peça de teatro a não perder até dia 1 de novembro.

Romeu e Julieta ficam em segundo plano – há uma nova protagonista em Verona

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Ora, a MAGG já teve oportunidade de assistir a “Rosaline, a Ex do Romeu” e saímos do Auditório dos Oceanos com uma certeza: este não é um espetáculo para ver uma única vez. Há tanta coisa a acontecer em palco – dos figurinos às coreografias, passando pelo cenário, pelas músicas e pelos pequenos pormenores espalhados pela narrativa – que é fácil imaginar uma segunda visita, nem que seja para se descobrir qualquer coisa que passou despercebida na primeira.

Mas comecemos pelas vozes. Num musical, poderiam ser precisamente elas a denunciar alguma fragilidade, mas a verdade é que, aqui, parece acontecer exatamente o contrário. O elenco segura as quase duas horas de espetáculo com atuações impressionantes, acompanhadas por coreografias que complementam toda a história – e se tivermos de tirar o chapéu a alguém é, sem dúvida, a Vânia Blubird, que interpreta Dona Verona e a Ama de Rosaline. Que vozeirão, meus amigos.

E depois há os figurinos, provavelmente um dos elementos mais difíceis de ignorar: exuberantes, coloridos e carregados de personalidade, ajudam a construir esta Verona que parece viver algures entre o universo de Shakespeare e o presente. A cenografia e a iluminação (destaque para o número a solo de Paulo Sousa, que interpreta Páris) completam uma produção onde é evidente que houve investimento, detalhe e, sobretudo, cuidado.

Há ainda uma escolha inteligente na forma como a história é contada – o espetáculo não parte do princípio de que toda a gente sabe sobre o amor entre Romeu e Julieta de cor. A narrativa vai recuperando o clássico, contextualizando aquilo que precisamos de saber e, ao mesmo tempo, abrindo espaço para contar a história que Shakespeare deixou por escrever. Isso permite que quem conhece a obra encontre conforto na história, mas também que alguém que saiba pouco sobre ela consiga acompanhar Rosaline.

E talvez seja aí que esteja uma das maiores qualidades do musical. “Rosaline, a Ex do Romeu” parece ter sido feito para uma nova geração de espectadores, uma vez que não é um teatro parado, distante ou preso a diálogos de outro século. É sim uma peça rápida, divertida, visual, musical e atual, e pode muito bem funcionar como porta de entrada para quem acha que “não gosta de teatro” – ou para quem nunca sequer pensou em entrar nesse mundo.

“Rosaline, a Ex do Romeu” entra em cena às sextas-feiras e sábados às 21 horas e aos domingos às 16 horas. O preço dos bilhetes varia entre os 16€ e os 32€.

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