Há amores que ficam para a história e o de John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette é um deles. Fizeram um casal icónico e extremamente comentado na altura, algo que foi amplificado pelo peso óbvio do apelido histórico daquele que era o solteiro mais cobiçado dos Estados Unidos, o guarda-roupa minimalista, a omnipresença mediática e o desfecho trágico, em 1999, quando a dupla morreu num acidente de avião. Agora, a história está a ser contada em televisão.

Dizemos isto porque já estrearam os primeiros três episódios de "Love Story: John F. Kennedy Jr. and Carolyn Bessette", a série da FX, disponível na Disney+, produzida por Ryan Murphy e criada por Connor Hines, que parte desse fascínio coletivo para reconstruir a relação do casal, com toda a aura, glamour e tensão que a cultura pop lhe atribuiu.

Contudo, nem só desta dupla se faz a festa. Antes da publicist da Calvin Klein, houve outra mulher a fazer o coração do filho do ex-presidente dos Estados Unidos bater mais depressa: Daryl Hannah, estrela de filmes como "Blade Runner" e "Splash". E é precisamente aqui que a série começa a dividir opiniões, uma vez que, na ficção, a atriz (interpretada por Dree Hemingway) surge, aos olhos dos espectadores, completamente descaracterizada.

Não, não falamos do nível físico (porque aí, de facto, não existem quaisquer razões de queixa, porque Dree Hemingway é, à falta de melhor expressão, a cara chapada da personalidade a quem dá vida). Quem acompanha o trabalho da atriz queixa-se, sobretudo, do facto de esta ser retratada como carente, instável, excessivamente dramática e uma presença quase inconveniente no caminho do romance “destinado” a acontecer.

A polémica está a ser tão grande que até publicações norte-americanas estão a reagir. Por exemplo, a "Vogue" questionou de forma taxativa porque é que a produção está a retratá-la "tão mal”, apontando que a personagem é "desequilibrada, irritante e demasiado [o estereótipo de] atriz", chegando a parecer uma figura queixosa e obcecada, caracterização que a publicação considera pouco convincente. A questão que se impõe é simples: até que ponto esta imagem corresponde aos factos? Vamos por partes.

Como foi o relacionamento da atriz com JFK Jr.?

Temos de recuar ao início da década de 80. Segundo a "Vanity Fair", Daryl Hannah e John F. Kennedy Jr. conheceram-se quando as suas famílias passavam férias na ilha de St. Martin, nas Caraíbas. Anos mais tarde, em 1988, voltaram a cruzar-se no casamento de Lee Radziwill, tia de JFK Jr., com o realizador Herbert Ross, que tinha sido o realizador da atriz em "Flores de Aço". Esse reencontro marcou o início de uma relação que rapidamente se tornou uma das mais escrutinadas.

JFK Jr. era estudante de Direito na Universidade de Nova Iorque, herdeiro de uma das famílias mais conhecidas dos Estados Unidos e já eleito pela revista "People" como o homem mais sexy do ano. Daryl Hannah era uma atriz em ascensão, reconhecida pela intensidade dos seus papéis e por uma beleza etérea que Hollywood explorava ao máximo. À superfície, pareciam de mundos distintos, mas partilhavam gostos semelhantes, como atividades ao ar livre.

A relação foi descrita como intensa, apaixonada e, por vezes, turbulenta. Amelia Barlow, citada no livro "JFK Jr.: An Intimate Oral Biography", recorda-a como "fantástica, aventureira", mas acrescenta que, comparada com o casamento posterior do filho do ex-presidente dos Estados Unidos, havia nela "um pouco mais de ingenuidade ou imaturidade", bem como "mais fogo – e mais confronto".

O mediatismo foi constante. Em 1993, o casal acabou mesmo por ser capa da "People", onde ficava patente que o solteiro mais cobiçado dos Estados Unidos tinha finalmente encontrado o seu par. Nesse mesmo ano, Daryl Hannah confessava à "Entertainment Weekly" o cansaço provocado pela exposição. "Está a tornar-se muito irritante. Perguntam-me sobre isso o tempo todo. Esta manhã telefonei ao canalizador e até ele me perguntou. Por amor de Deus, só estou a tentar arranjar os canos. Porque é que não falam de outra coisa?", diz a "People".

Nos bastidores, a estabilidade era frágil. Em 1991, John F. Kennedy Jr. conheceu Carolyn Bessette numa loja da Calvin Klein em Manhattan (ao contrário do que a série retrata, não foram formalmente apresentados pelo criador da insígnia para a qual a jovem trabalhava). Brian Steel, amigo próximo de JFK Jr., diz que este ficou “completamente encantado” pela mulher, apesar de ainda estar com Daryl Hannah. E há quem diga que houve sobreposição, até.

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O desfecho foi marcado por acontecimentos particularmente dolorosos. Em maio de 1994, durante um passeio no Central Park, John F. Kennedy Jr. perdeu o controlo da trela do cão de Daryl Hannah, o que culminou no atropelamento do animal (nisso, a série também acerta). Mas será que também é um tiro certeiro noutras coisas, como o facto de a atriz ser desprezada pela mãe de quem amava?

Jackie Kennedy não gostava da atriz?

Vamos diretos ao ponto: a série de Ryan Murphy exalta a ideia de que Jacqueline Kennedy Onassis, interpretada por Naomi Watts, via a futura nora como uma ameaça ou, no mínimo, como uma escolha inadequada para o filho. Esta faz questão de deixar isso patente em jantares de família, passeios no parque ou até com ausências e silêncios – como quando, por exemplo, faltou a um jantar só porque a atriz estava presente. No entanto, a realidade documentada é menos categórica.

No livro "JFK Jr.: An Intimate Oral Biography", Jim Hart, amigo próximo de antiga primeira-dama norte-americana, afirma que ela "não era fã daquela relação", é certo, mas faz uma distinção importante. “Não é que odiasse a Daryl. Só não queria que o filho casasse com uma atriz – era tão simples quanto isso", lê-se, de acordo com o "USA Today".

Segundo o mesmo testemunho, não existia uma grande animosidade entre ambas, mas Jackie Kennedy questionava com frequência se aquela relação seria a escolha certa para o filho. Já Sue Wexler, madrasta de Daryl Hannah, garantiu à "People" que as histórias sobre uma hostilidade fervorosa eram completamente exageradas, sendo que a atriz até tinha dito que a então sogra tinha sido "muito calorosa e afetuosa" consigo.

O que é que isto significa? Que embora pudesse haver alguma reserva por parte da mãe de JFK Jr., a ideia de que esta "odiava" Daryl Hannah parece resultar mais de uma leitura simplista (e conveniente para a narrativa) do que de um consenso histórico sólido. Por isso, de todas as vezes em que atriz, na série, aborda o assunto, entre lágrimas e de forma desesperada, dizendo que a família do companheiro é um obstáculo, pode não corresponder totalmente à realidade.

E, afinal, já houve alguma reação de Daryl Hannah?

Há personalidades presentes na série que já reagiram à mesma, como é o caso de Kelly Klein. A ex-mulher do famoso designer, de quem se divorciou oficialmente em abril de 2006, tem feito algumas publicações sobre "Love Story" no Instagram, como fotografias em que aparece ao lado de Leila George, a atriz que a interpreta, ou até retratos de Carolyn Bessette, de quem foi bastante próxima.

O mesmo não se pode dizer, porém, de Daryl Hannah. Até ao momento, a atriz não comentou publicamente a forma como é retratada na série de Ryan Murphy, e o silêncio pode dizer tudo aquilo que precisamos de saber. Não houve declarações, entrevistas ou comunicados que confirmem a sua posição face à série, embora Dree Hemingway tenha decidido escrever-lhe antes de assumir as rédeas do papel.

Em declarações ao "The Hollywood Reporter", a artista explicou que lhe enviou “uma carta de admiração”, na qual deixava patente o quanto a aprecia “como mulher e como atriz” e sublinhava que interpretar esta fase da sua vida era “uma honra”. Fê-lo, frisou, sem qualquer expectativa de resposta, iniciativa que não partiu da produção, garante.

Até porque, segundo o que uma das produtoras explicou à mesma publicação, é normal que se opte por não envolver figuras públicas retratadas em produções do género, porque, uma vez estabelecido esse contacto, corre-se o risco de criar obrigações. Isto é, pode haver pedidos para respeitar a forma de representação, lidar com versões concorrentes dos acontecimentos e a lista continua.

Ao manter uma postura centrada na investigação e não em entrevistas com as figuras retratadas, consideram conseguir uma visão "mais dimensional", mesmo reconhecendo que isso implica abdicar do contacto com as pessoas reais. E talvez seja por isso que Daryl Hannah não se tenha pronunciado e as redes sociais estejam demasiado aborrecidas com a forma como foi representada: por poder não corresponder à forma como sempre a imaginaram.

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