Sandra May, a autora, falou com a MAGG sobre o sucesso, que tem conquistado cada vez mais leitores pela sua narrativa inquietante. Saiba mais sobre a obra.
Nos últimos anos, a literatura portuguesa tem vindo a afirmar-se cada vez mais através de uma nova geração de autoras – que, verdade seja dita, têm conquistado todos os leitores com histórias cada vez mais ousadas, intensas e difíceis de largar. No entanto, há um género literário específico que tem vindo a ganhar mais destaque, e “Tu Mataste-me Primeiro”, de Sandra May, é o exemplo perfeito de que os thrillers psicológicos já não se escrevem só em inglês.
Propondo uma viagem inquietante pela mente humana e pelas fronteiras entre culpa e justiça, tudo começou com um sonho em 2021, onde a autora acordou com uma frase a ecoar-lhe na cabeça: “eu matei o meu marido”. “Esse momento acabou por ser o ponto de partida do livro. A partir daí, comecei a construir toda a narrativa, e sempre senti que este livro iria marcar a minha vida”, disse Sandra May à MAGG. O resultado é, portanto, um thriller psicológico que surpreende desde a primeira página.
Aqui, a história acompanha Serena, uma mulher aparentemente comum que, ao chegar aos 40 anos, entra num profundo processo de reflexão sobre a sua vida. O que começa como uma crise existencial transforma-se rapidamente num colapso emocional e psicológico, mas há uma particularidade: logo no início, a protagonista assume que matou o marido – e não, não demonstra qualquer arrependimento. Aliás, até refere que, na verdade, o faria novamente sempre que pudesse.
Ainda assim, Sandra May fez questão de sublinhar que a protagonista ama o marido, mas que acredita que aquilo que viveu justifica o que fez. É precisamente essa dualidade que torna Serena uma personagem tão desconcertante quanto fascinante, até porque o próprio título deixa bem claro que, para ela, foi o marido que a matou primeiro. “Ela sente-se morta por dentro, como se já não houvesse nada nela. É uma mulher que, apesar de estar viva fisicamente, já perdeu a sua identidade emocional”.
Esta ideia atravessa todo o livro, e Sandra May optou por uma narrativa que alterna entre o passado e o presente para dar mais contexto ao leitor. Ou seja, por um lado, a protagonista encontra-se numa sala de interrogatório já depois de ser detida, e por outro ficamos a conhecer toda a sua vida com o marido.“Esses momentos introspectivos ajudam a mostrar que a Serena não é simplesmente louca, mas sim alguém com uma visão distorcida da realidade”, continuou a autora.
Do outro lado da barricada está então a inspetora Darcy Cox, que vai ter um papel fundamental em toda a obra. Inspirada numa antiga professora universitária de Sandra May, esta é “uma mulher extremamente inteligente, confiante e empática”, cuja presença na narrativa vai inclusive ter algumas semelhanças com a protagonista. “Ela representa uma figura feminina forte, mas também humana, assim como a Serena. Mas a Serena tem traços meus, tentei explorar também os meus lados mais sombrios.”
No entanto, muito mais do que um thriller psicológico, “Tu Mataste-me Primeiro” procura provocar reflexão nos leitores. Serena questiona constantemente conceitos como o perdão, a moralidade ou as relações humanas, acabando por se tornar também numa voz crítica da sociedade. “Ela questiona, por exemplo, se o perdão é realmente possível ou apenas uma ilusão. É uma personagem sem filtros morais tradicionais, o que permite explorar críticas sociais através da sua visão.”
Desta forma, ao longo da narrativa cruzam-se temas como saúde mental, relações abusivas, violência doméstica, culpa, justiça e responsabilidade emocional, e é no final da obra, através do diário pessoal de Serena, que o leitor assiste ao culminar desse percurso psicológico. “Percebemos que ela já está num estado de perda total de identidade, ela começa a duvidar da sua própria realidade. É o ponto em que se torna claro que entrou num estado de colapso psicológico profundo”, disse Sandra May.
E se o objetivo era deixar marca, a autora acredita que o conseguiu. “Quero provocar uma reflexão interna. Não se trata apenas de gostar ou não da história, mas de questionar a própria vida”. Isto porque, mais do que descobrir quem matou quem, o desafio passa por perceber o que pode levar alguém a perder-se de si próprio. “Mais do que uma história, quero que seja uma experiência emocional que leve a questionar escolhas, emoções e relações”, rematou a autora.
“Tu Mataste-me Primeiro”, publicado pela Euforia, está disponível por 14,85€.
