Rock in Rio Lisboa. Zarko, Francisca Borges e Aragão. O futuro da música portuguesa escreve-se em três autênticas vozes

No primeiro dia de Rock in Rio Lisboa, a 20 de junho, a MAGG esteve à conversa com três nomes que vão certamente elevar a indústria musical portuguesa. Leia a entrevista.

Zarko (@beatrizmorais_fotografia), Francisa Borges e Aragão (@joao.vicentee_)

Há palcos que representam mais do que um concerto – e para muitos artistas, o Rock in Rio é precisamente isso: um símbolo de chegada, um objetivo traçado desde os primeiros ensaios ou desde as primeiras músicas partilhadas. Sendo um dos maiores e mais reconhecidos festivais em Portugal, capaz de juntar alguns dos maiores nomes nacionais e internacionais da música, este continua a ser um espaço onde sonhos ganham forma, e é sempre bom acompanhar essas conquistas.

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E foi precisamente nesse cenário que a MAGG conversou com Zarko, Aragão e Francisca Borges. Três artistas em momentos diferentes das suas carreiras, com sonoridades distintas e percursos únicos, mas unidos por uma visão comum: construir um caminho próprio na música portuguesa sem perder a sua energia. São eles, entre tantos outros nomes, que constituem o futuro da indústria musical nacional, e não podemos deixar de afirmar que estamos em boas mãos. 

Mas afinal, como é que se constrói uma identidade artística numa indústria em constante mudança? Entre novas tendências, a pressão dos números e a procura por um lugar próprio, os três deixaram claro que não há fórmulas, e sim muita descoberta, experimentação e, acima de tudo, autenticidade. “A cada single que sai eu percebo melhor quem sou como músico, e acho que estou a construir uma coisa cada vez mais minha”, começou por dizer Zarko à MAGG.

Natural da Madeira, o artista tem vindo a conquistar o público nos últimos anos, e a viragem na sua carreira deu-se não só depois da sua colaboração com Diogo Piçarra em “Vem-me Salvar” como também quando lançou “1, 2, 3” com Latte, música que remete ao festejo que o jogador João Neves faz para a namorada, a atriz Madalena Aragão. Apelido que, na verdade, dá nome a outro artista que também tem vindo a crescer na indústria, e que partilha da mesma opinião que Zarko

“O mundo de um artista acaba por ir muito à procura de si próprio, e a música reflete muito isso. É uma descoberta constante, não só do eu pessoal, mas também do artístico. Acho que estamos sempre a descobrir sonoridades, um artista completo é alguém que ouve e absorve um bocado de tudo”, continuou Aragão, que lançou a sua primeira música há 10 anos e desde aí que tem consolidado a sua carreira com temas como “Tranquilo”, “Viver”, “Beijo Teu” e, mais recentemente, com o êxito “Amor de Agosto”. 

Já Francisca Borges, que explodiu nas redes sociais com os temas “Coitada” e “Temos Pena”, tem uma carreira mais recente, mas acredita também que a identidade artística de alguém segue muito a sua própria personalidade. “Sou uma amante de música desde sempre e vivo imenso através dela. A minha identidade acaba por vir muito daí, porque sou muito introspectiva, até ligeiramente autobiográfica, é difícil fugir da minha identidade completamente”, disse à MAGG. 

Os requisitos das redes sociais

E se a identidade artística está em constante construção, a autenticidade parece ser o alicerce comum aos três. Num momento em que as redes sociais, os algoritmos e os números assumem cada vez mais protagonismo, fica apenas uma questão: até que ponto é possível criar sem pensar em quem está do outro lado? Para Francisca Borges, a resposta é simples, e a verdade é que a composição exige um momento de recolhimento e introspecção quase absoluto. 

“Tenho quase de fazer uma meditação para estar mesmo comigo ali”, contou, explicando que a música só faz sentido quando vem de um lugar de dentro do próprio artista..”A partir do momento em que começas a escrever para os outros, deixas de fazer música”. Aliás, a intimidade do processo criativo foi também destacada por Aragão, que o compara a uma relação construída com tempo e dedicação. “É quase como um namoro com a música”, explicou, provocando o riso de Zarko. 

“É preciso dedicar aquele tempo sem distrações, e tem de haver um equilíbrio. Nós acabamos por refletir o nosso eu, as nossas experiências, mas também ouvimos histórias de outras pessoas e isso reflete a nossa arte. A música acaba por ser quase uma receita de ingredientes que toda a gente vai pondo um bocadinho”, disse o artista. Já Zarko acredita que o verdadeiro desafio está em encontrar o equilíbrio entre a honestidade artística e a capacidade de criar ligação com quem ouve. 

“O desafio para mim é criar algo que seja genuinamente meu, mas que também se conecte com outras pessoas”, afirmou. Até porque, apesar de defender a autenticidade acima de tudo, Zarko não esquece que a música ganha uma nova vida quando chega ao público, que a sente sempre de maneiras diferentes. “Ninguém quer fazer música para ninguém ouvir. O objetivo é esse, é ser verdadeiro e conseguir chegar aos outros, fazê-los sentir e saber que fomos nós próprios”.

E o que reserva o futuro?

Mas se o presente destes artistas passa pela descoberta constante da sua identidade, o futuro parece estar menos ligado a números, prémios ou estatísticas e mais àquilo que querem acrescentar à música portuguesa. E, curiosamente, nem Francisca Borges, nem Zarko e nem Aragão falam em mudar a indústria por completo – falam antes em contribuir para ela à sua maneira, seja através de singles ou apenas através das suas próprias personalidades. 

“Não sinto que falte propriamente nada, mas quando comecei este projeto queria muito música que desse para gritar, dançar e saltar”, disse Francisca. “Queria músicas que ressoassem de forma mais direta, mais simples em termos de escrita. Neste projeto fui mais por aí, menos metafórico, mais direto, com menos barreiras”, acrescentou. Já para Aragão, o foco está menos naquilo que falta e mais naquilo que pode existir em maior quantidade: valorização entre artistas. 

Até porque, num meio muitas vezes marcado por comparações, o cantor acredita que há espaço para todos crescerem lado a lado. “Não estamos em competição. Há espaço para todos. Se olharem para o céu vão ver que todas as estrelas brilham”, disse, deixando claro que a música portuguesa só tem a ganhar quando os artistas se veem mais como colegas do que como concorrentes.

No fim, quando questionados sobre aquilo que gostariam que as pessoas reconhecessem neles daqui a alguns anos, as respostas voltaram a encontrar-se num ponto comum: a genuinidade. “Quero que me vejam como uma pessoa genuína, na música ou fora dela”, admitiu Zarko, que apesar de não esconder a ambição de crescer, garante que o que mais valoriza está longe dos números. “Mais do que prémios ou números, quero que me vejam como alguém verdadeiro”. 

Aragão partilha uma visão semelhante, e admite que nunca conseguiu separar completamente a pessoa do artista. “Quero ser lembrado não só como Aragão artista, mas também como pessoa, até porque eu não sei distinguir. A verdade é que a música fica ligada a memórias, e se as minhas músicas fizerem parte da vida das pessoas, eu já estou a fazer o que quero continuar a fazer no futuro”, disse, com Francisca Borges a concordar com o colega. 

“Os artistas que mais me marcam são os que fazem parte da minha vida através da música. Se eu conseguir que alguém pegue numa música minha e a torne parte da sua vida, já fiz o meu trabalho”, rematou a artista. Assim, num festival onde tantos artistas sonham um dia atuar, as respostas de Zarko, Aragão e Francisca Borges mostram que o futuro da música portuguesa não se constrói apenas através de sucessos virais, e sim através de artistas que acreditam que a autenticidade é o melhor caminho para chegar às pessoas.

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