A noite de quinta-feira, 9 de julho, ficou, portanto, logo marcada por toda a emoção que Nick Cave & The Bad Seeds levaram até ao NOS Alive. Saiba tudo sobre o concerto.
Ainda antes de Nick Cave subir ao palco principal do NOS Alive, um QR code ocupava os ecrãs gigantes – bastava apontar o telemóvel para aceder à “The Red Hand Files”. E o que é isto, perguntam? Trata-se de uma plataforma onde o músico australiano responde a perguntas enviadas pelos fãs, muitas delas sobre perda, amor, fé ou luto. Era um convite discreto, mas revelador: antes mesmo da música começar, o artista preparava o público para entrar num universo onde a vulnerabilidade ocupava um lugar central.
A noite de quinta-feira, 9 de julho, ficou, portanto, logo marcada por toda a emoção que Nick Cave & The Bad Seeds iam fazer com que os festivaleiros sentissem, especialmente ao abrir o espetáculo com “Get Ready For Love”. Num concerto onde a intensidade foi a palavra de ordem, o músico voltou a mostrar o porquê de continuar a ser uma das figuras mais carismáticas da música contemporânea, entregando um espetáculo intenso, expressivo e profundamente ligado ao público.
Isto porque apesar da carga emocional das canções, Nick Cave mostrou-se surpreendentemente próximo, fazendo da interação com o público uma das imagens de marca da noite. Desde os primeiros temas que o músico abandonou a zona mais recuada do palco para se aproximar da primeira fila, tocando nas mãos dos fãs, trocando olhares, sorrisos e, em vários momentos, cantando diretamente para quem estava ali perto. A certa altura, chegou mesmo a apoiar-se sobre a multidão, num dos momentos mais intensos e memoráveis do espetáculo.
E sim, a estética do concerto acompanhou de forma exímia a identidade da banda – os ecrãs, dominados pelo preto e branco e por uma linguagem visual de inspiração vintage, reforçavam o ambiente melancólico, sombrio e quase cinematográfico que caracteriza grande parte da discografia de Nick Cave. No entanto, essa atmosfera contrastava com a energia do vocalista, que raramente esteve parado e percorreu o palco de um lado ao outro durante boa parte da atuação, como por exemplo em “From Her to Eternity”.
Essa intensidade acabou por se refletir também na sua interpretação. Sempre muito expressivo, Nick Cave alternou entre momentos de maior contenção e explosões de emoção, demonstrando uma impressionante capacidade vocal e uma presença em palco difícil de ignorar – aqueles acordes mais grossos mesmo ao estilo da música rock saiam-lhe da garganta como se não fosse nada. Cada música parecia ser vivida com a mesma entrega, independentemente do ritmo ou da carga emocional.
No entanto, nem todo o alinhamento manteve o mesmo ritmo. Algumas canções, mais lentas e melancólicas, abrandaram naturalmente a dinâmica do concerto, fazendo com que o público se fechasse mais e não se mostrasse tão explosivo. Ainda assim, esses momentos acabaram por reforçar o caráter emocional do espetáculo e nunca quebraram por completo a ligação entre artista e plateia, que ficava cada vez mais composta ao longo do tempo – se era para ver Nick Cave ou guardar lugar para Twenty One Pilots, isso já não sabemos.
Mas foi quando chegaram temas como “Red Right Hand”, eternizado pela série “Peaky Blinders”, que o entusiasmo voltou a subir de tom, e notou-se perfeitamente que o público esperava ansiosamente por essa música – é daquelas canções que podemos não conhecer o artista, mas conhecemos a letra de trás para a frente. Ou seja, ficou evidente que o concerto foi pensado, sobretudo, para quem acompanha a carreira de Nick Cave & The Bad Seeds há vários anos, mas acabou por envolver também quem conhecia apenas alguns dos seus temas.
E algo que corrobora isso são os momentos mais intimistas que aconteceram ao longo do concerto. Ao piano, o músico australiano convidou o público a acompanhá-lo numa das canções da noite, “Carnage”, criando um ambiente de comunhão entre banda e plateia, mais que não fosse por toda a emoção que estava a depositar na música. Embora o público nem sempre se fizesse ouvir de forma expressiva, era evidente, pelas reações e pela entrega, que muitos viviam o concerto de forma intensa, deixando-se levar pela voz de Nick Cave.
No final, mesmo para quem não acompanha de perto a carreira de Nick Cave & The Bad Seeds, tornou-se fácil de perceber o porquê de continuarem a reunir uma base de fãs tão fiel. Mais do que um concerto, a presença do músico no NOS Alive foi uma demonstração de entrega, proximidade e intensidade artística, onde a melancolia das canções encontrou um contraste inesperado na energia do seu protagonista. Dançou, brincou, berrou e quase se emocionou, e tornou quase duas horas de concerto numa viagem cheia de emoção.












