Não precisou do maior palco para dar um dos maiores concertos do NOS Alive. Da voz irrepreensível ao alinhamento sem tempos mortos e uma presença em palco que não dá tréguas, Zara Larsson é uma das popstars mais subestimadas da atualidade.
© Hugo Macedo
Zara Larsson pertence àquele estranho limbo em que toda a gente conhece as músicas, mas poucos acompanham aquilo que faz a seguir. Passou, aliás, algum tempo nessa posição ingrata. Depois de uma sequência de êxitos que definiu a segunda metade da década de 2010, como “Uncover” ou “Lush Life”, a cantora sueca continuou a lançar música, mas pouco se ouviu falar – e não que lhe falte talento, mas porque o ciclo da indústria, como tantos outros, continuou a avançar a um ritmo frenético.
Ironia das ironias, foi precisamente a Internet que a trouxe de volta. Nos últimos anos, “Symphony”, a colaboração com os Clean Bandit lançada em 2017, ganhou uma nova vida graças ao TikTok, tornando-se banda sonora de milhões de vídeos e apresentando Zara Larsson a uma geração que, em muitos casos, nem sequer sabia quem estava por detrás daquela voz. A artista percebeu rapidamente o fenómeno e transformou um momento viral numa nova oportunidade para reescrever a narrativa da própria carreira.
Essa renovada atenção coincidiu com uma fase particularmente inspirada. “Midnight Sun”, lançado em 2025, mostrou uma Zara Larsson mais segura, mais confiante e menos interessada em seguir tendências do que em defini-las. Continua a fazer pop, claro, mas uma pop mais luminosa e assumidamente feita para ser vivida em palco (ou online, até), através da qual as canções passam a ser experiências coletivas.
Era precisamente essa artista que queríamos encontrar no segundo dia do NOS Alive. A única dúvida prendia-se com o facto de atuar no Palco Heineken. Afinal, conseguiria um concerto ali competir com a experiência do Palco NOS? Especialmente sabendo que muita gente se deslocou ao Passeio Marítimo de Algés esta sexta-feira, 10 de julho, para vê-la? A resposta chegou antes de terminar a primeira música. Se Álvaro Covões, diretor-geral da promotora de espetáculos Everything Is New, insiste que, neste festival, não existem palcos principais nem secundários, Zara Larsson acabou de lhe dar um dos melhores argumentos possíveis.
A experiência do Palco Heineken foi agradável
Confessamos que fomos para o Palco Heineken com alguma desconfiança. Não em relação a Zara Larsson, mas à experiência em si. É inevitável associar os palcos secundários a produções mais pequenas, menos impacto visual ou até um ambiente menos envolvente. Durante anos habituámo-nos a pensar assim e, diga-se de passagem, este concerto fez-nos questionar essa ideia (ou preconceito, temos de admitir).
A verdade é que tudo funcionou melhor do que aquilo que antecipávamos. O som esteve irrepreensível do princípio ao fim, sem nunca perder definição, mesmo nos momentos mais explosivos. A proximidade entre a artista e o público criava uma sensação de intimidade rara num festival desta dimensão, enquanto o próprio espaço acabava por beneficiar de uma temperatura muito mais agradável do que a do Palco NOS, onde o vento se fazia sentir com intensidade – sim, depois de uma vaga de calor, os menos de 20ºC e o vento que se faziam sentir não são particularmente agradáveis.
Ficámos, por isso, com a sensação de que não era só Zara Larsson que estava a ganhar, porque o próprio Palco Heineken saiu valorizado. Afinal, é mesmo verdade o que dizem: há concertos que enchem um recinto e conseguem fazer-nos esquecer que existem outros palcos maiores a poucos metros dali. E isso aconteceu.
Zara Larsson dá nova vida às canções
Há uma razão para continuarmos a comprar bilhetes para concertos numa altura em que praticamente toda a música do mundo cabe num telemóvel. Ver Zara Larsson ao vivo é perceber que ouvir uma canção no Spotify e assisti-la em palco são experiências completamente diferentes. Não porque as músicas mudem, mas porque ela embeleza ainda mais a forma como as canta.
Playback deve ser uma palavra que não cabe no dicionário da artista sueca, porque o microfone esteve sempre ligado. Ao longo do concerto, multiplicaram-se os agudos, os riffs improvisados e pequenas variações melódicas que davam uma nova vida a canções que já conhecemos de cor. Não houve a sensação de estar a ouvir uma reprodução fiel das versões de estúdio. Muito pelo contrário, aliás, uma vez que parecia que cada tema estava a ser reinventado naquele preciso momento.
Foi precisamente isso que tornou momentos como “Midnight Sun” (especialmente a versão com que encerrou o concerto, que parecia uma autêntica canção de embalar) ou “Uncover” ainda mais impactantes. Em palco, Zara Larsson canta com uma segurança que faz parecer tudo fácil e talvez seja esse o maior elogio que se pode fazer a uma vocalista.
O corpo (e o cenário) também cantou
Se Zara Larsson conquista pela voz? Sim, mas o que é facto é que esta nunca esteve sozinha. A artista pertence a uma geração de artistas pop que entende que um concerto não vive só da música – não foi como Justin Bieber no primeiro fim de semana de Coachella, se é que nos entendem –, mas também daquilo que acontece entre cada refrão. Dança praticamente sem interrupções, percorre o palco de uma ponta à outra e consegue fazê-lo sem comprometer a qualidade vocal, algo que continua a ser muito mais raro do que parece.
Durante “Ain’t My Fault”, por exemplo, brindou o público com uma espargata que arrancou uma enorme reação da plateia, mas que nunca pareceu um momento pensado apenas para impressionar. Fazia parte da coreografia, da narrativa do espetáculo e do sex appeal – ou da simpatia, sendo que passou o espetáculo todo com um sorriso de orelha a orelha – com que domina cada segundo em palco.
A cenografia andava de mãos dadas com essa energia. As escadas cor-de-rosa, a tela com cenários que remetem para praias paradisíacas ou florestas verdejantes pintadas por um pôr-do-sol quente ou o automóvel que entra em cena durante “Hot & Sexy” ajudavam a construir o universo visual da artista, muito inspirado no início dos anos 2000, imaginário para o qual o guarda-roupa e a maquilhagem contribuíam.
O público nunca foi apenas espectador
Desde os primeiros minutos, ficou claro que Zara Larsson não estava interessada em fazer um espetáculo unidirecional. A interação foi constante e, ao contrário do que tantas vezes acontece, nunca pareceu ensaiada, pois houve espaço para rir, improvisar e responder ao êxtase de um público que conhecia – e dançava de forma eufórica – muito mais cancções do que talvez a própria artista estivesse à espera.
“Vocês são muito barulhentos”, disse, visivelmente impressionada com o entusiasmo que se fazia sentir no recinto. Mais tarde, durante “SHE DID IT AGAIN”, a sua mais recente colaboração com Tyla, puxou pelos famosos “oh-oh-oh-oh” da assistência, transformando um simples refrão num dos momentos da noite em que mais conexão que teve com o público.
E claro que não podemos deixar de mencionar outro momento que já se tornou incontornável em qualquer concerto da digressão “Midnight Sun”, que acontece no decorrer da interpretação de “Lush Life”. Depois de a coreografia da canção se ter tornado viral no TikTok, Zara Larsson passou a escolher, em cada espetáculo, um fã para subir ao palco e recriar a dança ao seu lado. No fim, oferece-lhe uma T-shirt branca, que personaliza em direto com tinta em spray.
No Passeio Marítimo de Algés, a escolha recaiu sobre um jovem chamado Afonso, que subiu a escadaria cor-de-rosa sem qualquer nervosismo (aparente, pelo menos) e com confiança de gente grande, tendo rapidamente mostrado que tinha estudado a lição. Isto porque executou a coreografia na perfeição, arrancando aplausos do público e um sorriso de aprovação da própria cantora, antes de receber a camisola grafitada que, para muitos fãs, já vale mais do que qualquer outra coisa.
O passado continua a envelhecer muito bem
Seria fácil construir um espetáculo centrado quase exclusivamente no novo álbum. Felizmente, Zara Larsson percebe que o seu catálogo é demasiado forte para ficar arrumado numa gaveta e, ao longo do alinhamento, foi recuperando vários dos temas que a transformaram num dos nomes mais reconhecíveis da pop da última década, distribuindo-os de forma inteligente entre as músicas mais recentes para que o concerto nunca perdesse ritmo, mas também não se transformasse num exercício de nostalgia.
“I Would Like”, “Ain’t My Fault”, “Never Forget You”, “Ruin My Life”, “Lush Life” e “Uncover” provaram que continuam a funcionar tão bem como quando foram lançadas – e não, não soaram datadas, nem apareceram apenas para cumprir a quota de êxitos antigos e pelos quais é aclamada. Na verdade, coexistiram naturalmente com a nova fase da artista e ganharam outra pinta quando cantadas por uma Zara Larsson mais madura, com maior domínio vocal e uma interpretação menos colada às versões de estúdio.
Esse crescimento ouve-se sobretudo nas músicas que lançou ainda muito nova. “Uncover”, por exemplo, deixou de soar apenas à balada delicada que apresentou uma adolescente ao mundo e passou a carregar o peso de uma carreira inteira. A voz está mais cheia, mais segura e mais expressiva, o que permite encontrar novas intenções em canções que pareciam já não ter segredos. É quase como ouvir as mesmas histórias contadas anos depois pela pessoa que finalmente compreendeu tudo aquilo que estava a cantar.






