Os seus filhos regressaram à escola e não está a conseguir lidar? Psicóloga dá dicas para os pais gerirem a ansiedade

O regresso às aulas e, em particular, a entrada pela primeira vez na escola ou no 1.º ciclo, traz um conjunto de emoções para toda a família. Em entrevista à MAGG, uma especialista desconstrói os receios dos adultos e deixa conselhos práticos para lidar com o momento da despedida.

Para muitos pais, setembro não representa apenas o regresso à rotina depois das férias. Para quem tem filhos a entrar pela primeira vez na creche, no jardim de infância ou na escola, pode marcar também a primeira grande separação e o momento em que deixam de estar sob a supervisão familiar durante parte do dia. Entregar uma criança aos cuidados de outras pessoas, num espaço novo e com rotinas desconhecidas, pode despertar ansiedade, preocupação e até um sentimento de culpa – emoções que, segundo a psicóloga Inês Chiote Rodrigues, são perfeitamente normais nesta fase.

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“Não sei se posso dizer que os pais sentem mais ansiedade do que os miúdos, mas que é normal sentirem bastante, sem dúvida”, começa por explicar a especialista. Afinal, também para os adultos existe um processo de adaptação à nova realidade. De um momento para o outro, deixam de acompanhar de perto uma parte significativa do dia da criança e passam a confiar essa responsabilidade a educadores, professores e auxiliares, o que pode tornar a mudança emocionalmente exigente.

Na origem dessa ansiedade está, em grande parte, o corte com a rotina familiar que a entrada numa nova instituição implica. “É a primeira grande separação. As crianças vão para outro sítio ao cuidado de outras pessoas”, explica Inês Chiote Rodrigues. É uma mudança que pode ser vivida com alguma apreensão, sobretudo quando os pais começam a antecipar tudo o que pode acontecer durante aquelas horas em que não estarão presentes – desde a adaptação ao espaço até à forma como a criança vai reagir à ausência.

Ao mesmo tempo, esta separação não é necessariamente encarada apenas de forma negativa. “Há aqui um misto de culpa por entregar o filho a terceiros e de felicidade por ser uma nova etapa”, acrescenta a psicóloga. É precisamente essa coexistência de sentimentos que pode tornar o início do ano letivo particularmente intenso para os pais: existe a preocupação de deixar a criança, mas também a satisfação de a ver crescer, ganhar autonomia e começar uma nova fase do seu desenvolvimento.

Mas se a ansiedade dos pais é normal, também é importante perceber como geri-la sem a transmitir à criança de forma descontrolada. Desde a preparação dos dias anteriores até ao momento da despedida e ao reencontro no final do dia, há pequenos gestos que podem tornar esta transição mais tranquila para toda a família. A psicóloga explica o que fazer (e, sobretudo, o que evitar) para ajudar os mais novos a sentirem-se seguros nesta nova etapa.

Crianças são “esponjinhas”. Como gerir a ansiedade sem a esconder?

As crianças percecionam o estado emocional dos adultos com enorme facilidade, mas Inês Chiote Rodrigues defende que a solução não passa por fingir que está tudo bem. “As crianças são esponjinhas e absorvem o que os pais sentem”, garante, dizendo que “a ideia não é esconder nem fingir que não se sente ansiedade”.

“Somos humanos e somos pais”, sublinha a especialista. “O mais importante é os pais regularem-se e passarem confiança. Dizerem: ‘Eu sei que é difícil, vamos ter saudades, mas o pai e a mãe voltam daqui a um bocadinho e vai correr tudo bem’. Se os pais estiverem confiantes, a criança também se regula”, afiança.

Para mitigar a incerteza nos dias anteriores ao início do ano letivo, a psicóloga recomenda estratégias antecipatórias simples, como visitar a escola previamente para conhecer o espaço físico, a sala de aula e o recreio. Além disso, sublinha a importância de falar com os educadores e professores antes do primeiro dia para criar um vínculo de confiança e sugere, sempre que possível, combinar com a equipa pedagógica uma adaptação gradual, em que a criança fica apenas metade do dia numa fase inicial.

Cuidado no momento da largada e despedida

A hora de deixar a criança no portão ou na sala de aula é frequentemente o ponto mais crítico da manhã. Entre as dúvidas dos pais, há uma tentação recorrente que a psicóloga desaconselha: desaparecer sem avisar. Quer seja para evitar as lágrimas no pai ou no filho, essa não é, de todo, a estratégia mais correta.

“Aquela coisa de ‘vou fugir rápido para não ver’ está errada. Se queremos transmitir confiança, a criança tem de ter a certeza de que o pai e a mãe voltam. Se os pais desaparecem de repente, a ansiedade vai ser muito maior”, alerta Inês Chiote Rodrigues.

A despedida deve ser clara, curta e decidida, começando por dar um abraço e um beijinho de forma confiante. Em seguida, os pais devem explicar brevemente o que a criança vai fazer ao longo do dia e reafirmar que a família regressará no final da tarde para a vir buscar. Por fim, é fundamental não prolongar a saída, uma vez que permanecer muito tempo à porta transmite a indecisão e a insegurança dos próprios adultos para o filho.

Ver um filho chorar ao ser entregue à professora é uma das experiências mais dolorosas para os pais, mas a especialista desmistifica o significado dessa reação. “O facto de a criança chorar não tem nada que ver com não ficar bem. O choro é a forma que ela tem de expressar que está triste, insegura ou que não está habituada àquela pessoa. Não é um sinal de alerta nem de má adaptação”, esclarece a psicóloga. O indicador real do bem-estar deve ser avaliado ao longo do dia: perceber se a criança acabou por brincar, comer, interagir com os colegas e repousar.

O que faz no regresso a casa também importa

Quando o dia de aulas termina, a forma como os pais abordam o reencontro pode fazer toda a diferença. Depois de várias horas longe da família, é natural querer saber como correu o dia, mas perguntas demasiado genéricas, como “correu tudo bem?” ou “como te sentiste?”, raramente funcionam com os mais novos e podem até resultar em respostas igualmente vagas.

A chave está em utilizar a linguagem da própria criança, através de questões mais concretas e fáceis de responder. Em vez de procurar diretamente uma avaliação emocional, os pais podem perguntar com que meninos brincou durante o dia, o que comeu ao almoço, qual foi a atividade de que mais gostou ou qual foi a brincadeira mais divertida no recreio. “Se a criança responder que esteve num cantinho sem brincar com ninguém, aí sim conseguimos perceber indiretamente como ela se sentiu, sem que pareça um interrogatório”, exemplifica Inês Chiote Rodrigues.

No fundo, mais do que procurar respostas imediatas sobre a adaptação, importa criar espaço para que a criança conte, à sua maneira e ao seu ritmo, aquilo que viveu durante o dia. E, perante todas as dúvidas e inseguranças que esta fase pode trazer, a psicóloga deixa uma mensagem final de tranquilidade aos pais que enfrentam estes primeiros dias com o “coração nas mãos”: “Validem o que sentem. Não são maus pais por estarem ansiosos. A adaptação é um processo e esta fase de maior aperto no coração vai passar.”

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