A MAGG falou com Isa Silvestre, psicoterapeuta e especialista em psicologia clínica e da saúde, sobre como a decisão de Cristiano Ronaldo de sair do estágio da Seleção Nacional pode (ou não) influenciar gerações mais novas.
Cristiano Ronaldo voltou a estar no centro das atenções, mas, desta vez, não foi pelos golos. Depois de ter ficado no banco durante toda a partida frente à Noruega no passado domingo, 27 de setembro, o capitão da Seleção Nacional falhou sessões de treino em grupo e acabou por deixar a concentração da equipa portuguesa no país, garantindo que, “a seu tempo”, explicará as razões que motivaram a decisão. Várias conversas com Jorge Jesus e Pedro Proença sobre o seu papel na equipa poderão ter feito parte.
Mas sem conhecer os motivos que estiveram por trás da atitude do jogador, há uma outra questão que se levanta. Isto porque, quando falamos de Cristiano Ronaldo, falamos de uma das maiores figuras do futebol mundial, seguida e admirada por milhões de pessoas e, em particular, por muitas crianças e adolescentes. Por isso, até que ponto podem as atitudes de alguém com esta dimensão influenciar a forma como os mais novos lidam com uma crítica ou até com o facto de não serem escolhidos?
Foi precisamente para perceber de que forma estes comportamentos podem ser interpretados pelas gerações mais novas que a MAGG falou com Isa Silvestre, psicoterapeuta e especialista em psicologia clínica e da saúde. E, para a especialista, há uma ideia que deve estar presente desde o início: Cristiano Ronaldo “é mais do que um jogador de futebol” e a verdade é que não podemos negar que o impacto que tem ultrapassa aquilo que faz dentro das quatro linhas.

“Tem aqui um grande impacto em tudo o que está relacionado com uma figura de talento, disciplina, trabalho e ambição”, começou por explicar a psicóloga, acrescentando que sempre associou o jogador, como grande parte dos portugueses (e do mundo), à “persistência, ao não desistir e ao esforço”. É, portanto, precisamente por ocupar esse lugar no imaginário de tantos jovens que aquilo que faz ou deixa de fazer pode mesmo ganhar outra dimensão.
“As crianças e os adolescentes aprendem muito através da observação”, explicou Isa Silvestre. Até porque podemos, sim, ensinar e conversar com os mais novos, dar-lhe educação em casa e passarmos-lhe certos valores, mas a verdade é que os comportamentos que observam nas pessoas que admiram também pesam nessa aprendizagem. “Cristiano Ronaldo é um modelo significativo e, claro, vai influenciar as crianças e os jovens”, reitera.
“Se sou contrariado ou não concordam comigo, vou-me embora”

Mas a influência de uma figura como Cristiano Ronaldo não significa, contudo, que todos os seus comportamentos sejam automaticamente reproduzidos pelos mais novos – ou que, neste caso, devam ser. A forma como os adultos explicam aquilo que aconteceu e ajudam não só crianças como também adolescentes a interpretá-lo pode fazer toda a diferença, e é aqui que entra a educação fora das redes sociais e dos meios de comunicação.
“Podemos comunicar com as crianças e os jovens sobre como Cristiano Ronaldo representa trabalho, persistência, acreditar em si próprio, procurar sempre resultados de excelência. Isto são mensagens extremamente positivas”, afirmou Isa Silvestre, que não descarta outro tipo de aprendizagens. “Mas também [podemos comunicar com as crianças] que podemos falhar, podemos não ser sempre os escolhidos e que nem sempre vão concordar connosco”, continuou a psicóloga. É precisamente aqui que entra uma das questões levantadas por toda esta polémica.
Isto porque, perante um episódio em que uma figura que admira se afasta depois de, alegadamente, algo não ter corrido de acordo com o que é expectável, existe o risco de os mais novos retirarem uma mensagem tão simples quanto: “Se sou contrariado ou não concordam comigo, vou-me embora”. “Existe esse risco devido às redes sociais, porque nós pegamos só num pequenino episódio e fazemos dele um problema maior”, respondeu a psicóloga.
O problema, explicou, está muitas vezes na forma como estes acontecimentos chegam até nós – através de fragmentos, títulos, vídeos e publicações que não contam necessariamente toda a história.“Estamos a falar de alguém que já tem 41 anos, que certamente tem uma história. Nós não sabemos o que está por trás desta decisão, estamos a basear-nos em suposições. As redes sociais são pequenos recortes da vida das pessoas e, muitas vezes, obrigam-nos a escolher rapidamente um lado”, reforçou.
É também por isso que Isa Silvestre alertou para o perigo de transformar a discussão numa avaliação da personalidade ou das intenções de Cristiano Ronaldo. “Parece que nós, adultos, estamos a interpretar isto como uma questão de ego, mas pode não ser. Não conhecemos a história completa do Cristiano Ronaldo e isto é muito importante: não transformar isto num julgamento sobre o Cristiano Ronaldo”, continuou, dando o seu parecer no que toca à avaliação psicológica feita ao jogador.
“É muito pouco rigoroso fazermos uma avaliação psicológica das emoções e das motivações do Cristiano Ronaldo a partir das notícias que estamos a ver”, acrescentou. Para a psicóloga, esta pode, aliás, tornar-se numa aprendizagem importante para os próprios jovens: aquilo que veem escarrapachado nas redes sociais não é a totalidade da “história de vida das pessoas”. O essencial, está, portanto, em não idealizar uma pessoa apenas e só como a sua profissão.
“Não podemos idealizar só o Cristiano Ronaldo futebolista, este protagonismo que ele tem. Há uma pessoa, há uma identidade, há aqui uma história”, disse, acrescentando ainda que é também importante ensinar os mais novos a separar as duas coisas: comportamento e identidade. “Temos de os ensinar a distinguir o que é o comportamento e o que é a identidade da pessoa. Esta atitude, cujo porquê ainda não foi revelado pelo próprio, é um comportamento, não a sua identidade total”, enfatiza.
A mesma lógica pode ser aplicada às próprias crianças. Uma má nota não faz de uma criança um mau aluno, tal como não ser escolhido para uma equipa não lhe retira valor. “Não é por não sermos escolhidos que perdemos o nosso valor”, salientou Isa Silvestre – e é aqui que o mesmo episódio pode ser visto por outra perspetiva. Afastarmo-nos de uma situação também pode significar estabelecer limites, defender aquilo em que acreditamos ou não aceitar algo que consideramos injusto.
Uma geração com menos espaço para ouvir um “não”?

Mas toda a polémica à volta de Cristiano Ronaldo acaba, assim, por abrir espaço para uma discussão maior: estamos perante uma geração com maior dificuldade em lidar com a frustração, ouvir um “não” ou aceitar uma opinião diferente? Isa Silvestre começou por fazer uma ressalva. “Lidar com a frustração sempre foi e será sempre um grande desafio para o ser humano”. No caso das crianças, essa dificuldade é ainda maior do ponto de vista do desenvolvimento.
Ainda assim, há um fator que, na opinião da psicóloga, pode estar a contribuir para tornar esse processo mais difícil. “Não há espaço para o tédio, para a espera. Já não há espaço para se pensar e refletir e isto também tem dificultado a nossa reflexão e, logo, a autorregulação”, explicou. Por isso, perante uma frustração, há hoje em dia uma facilidade muito maior em passar imediatamente para outro tipo de estímulo, seja através do telemóvel, do tablet, da televisão ou de qualquer outro ecrã.
“Quando não há espaço para o tédio, também não há espaço para a criatividade. Não há espaço para descobrirmos coisas novas e, consequentemente, para também aprendermos a identificar o que estamos a sentir e como é que podemos lidar com isso”, afirma. É por isso que brincar, estar ao ar livre, socializar e até falhar continuam a ter um papel tão importante no desenvolvimento humano, assim como a persistência, uma característica sempre associada a Cristiano Ronaldo.
“Esta admiração pelo jogador vem da persistência, da ambição, de ouvir um ‘não’, da capacidade de perder. São competências emocionais muito importantes”, continuou. Mas onde termina, então, a capacidade saudável de defendermos aquilo em que acreditamos e onde começa a dificuldade em aceitar uma crítica ou uma opinião diferente? Para a psicóloga, parte da resposta está na forma como comunicamos. “É a forma assertiva como falamos, o explicarmos o que estamos a sentir”, diz.
Ou seja, dizer “isto está-me a fazer sentir desta forma” permite defender uma posição sem transformar o outro num adversário, e o problema começa quando deixa de existir espaço para isso. “Quando há acusação, quando há uma crítica constante, quando há esta necessidade de ter um alvo, de acusar alguém, de termos um vilão na história, é o que prejudica tudo o resto”, explicou Isa Silvestre. E as redes sociais, claro, são um grande terreno para esse tipo de polarização.
Assim, talvez a principal aprendizagem para os mais novos não esteja em decidir quem tem ou não razão nesta história. Pode estar, isso sim, em aprender a olhar para as figuras que admiram com pensamento crítico, sem que isso implique deixar de as admirar. “Eu posso admirar alguém, eu tenho um ídolo e admiro esta pessoa, sem considerar que ela tem de fazer tudo bem”, concluiu a psicóloga. Até porque, por maior que seja o nome, “é uma pessoa, tem várias ideias, tem uma identidade”.
