Os medicamentos para controlo do peso podem reduzir o apetite e aumentar a sensação de saciedade. Mas, quando as refeições passam a ser mais pequenas, a qualidade nutricional ganha ainda mais importância. A nutricionista Priscila Araújo explica o que deve mudar na sua alimentação.
Nos últimos anos, os medicamentos que atuam sobre as vias do GLP-1 vieram transformar a abordagem ao tratamento da obesidade. Ao reduzirem o apetite e aumentarem a sensação de saciedade, podem ajudar na perda de peso, mas a alimentação continua a ter um papel fundamental.
É precisamente sobre este tema que Priscila Araújo, nutricionista clínica há mais de 10 anos, se especializa. A exercer atualmente em farmácia comunitária, na região de Setúbal e Grande Lisboa, acompanha diariamente pessoas com diferentes objetivos e necessidades e defende uma visão da nutrição que vai além do peso ou dos números na balança.
Comer menos não significa retirar alimentos do prato. Significa garantir que, mesmo com refeições mais pequenas, o organismo continua a receber os nutrientes de que precisa.
Quando o apetite diminui, é natural que as refeições sejam menores e que a vontade de petiscar ou de terminar o prato desapareça. O desafio passa por conseguir incluir, num menor volume de comida, proteína, hidratos de carbono, gorduras, vitaminas, minerais e fibra. As recomendações atuais reforçam também que a medicação para controlo do peso deve ser acompanhada por alterações na alimentação e atividade física.
Por isso, o planeamento ganha importância. Uma ingestão alimentar muito reduzida pode dificultar o aporte adequado de alguns micronutrientes. A suplementação pode ser considerada quando a alimentação não é suficiente, mas deve ser feita com aconselhamento de um profissional de saúde.
A importância da massa muscular
Há ainda outro ponto que merece atenção: a massa muscular. Durante a perda de peso, pode também ocorrer perda de massa muscular, pelo que garantir proteína suficiente e incluir treino de força na rotina pode ajudar a preservá-la.
Alguns efeitos associados a estes medicamentos, como náuseas, sensação de enfartamento precoce ou obstipação, podem tornar a alimentação mais desafiante. Fazer refeições pequenas, comer devagar, mastigar bem e manter uma boa hidratação são estratégias que podem ajudar.
Uma oportunidade para reaprender a comer
Com o apetite mais controlado, algumas pessoas conseguem prestar mais atenção aos sinais de fome e saciedade e começar a adotar hábitos diferentes. Nesse sentido, o tratamento pode ser também uma oportunidade para reaprender a comer.
E há outra questão importante: o que acontece quando a medicação termina?
Os medicamentos podem ajudar no controlo do apetite, mas as mudanças alimentares e de estilo de vida construídas durante o tratamento são importantes para a manutenção dos resultados a longo prazo. Por isso, o acompanhamento nutricional e a atividade física devem fazer parte da estratégia.
Não existem duas pessoas iguais, nem duas estratégias alimentares que funcionem exatamente da mesma forma. Para Priscila Araújo, o acompanhamento personalizado antes, durante e depois do tratamento permite ajustar a alimentação, proteger a massa muscular e identificar eventuais necessidades nutricionais.
Perder peso pode começar por comer menos, mas cuidar da saúde passa por garantir que cada refeição continua a contar.