A desistência foi anunciada pelo próprio nas redes sociais. John Galliano foi um dos criadores mais influentes da moda, mas parece que os erros cometidos pelo caminho não o vão voltar a deixar brilhar.
Foi a 31 de julho que o Metropolitan Museum of Art dividiu opiniões. Se por um lado houve quem tivesse gostado da ideia de que John Galliano seria o homenageado da exposição do Costume Institute de 2027, intitulada de “John Galliano: Horizons”, por outro houve quem não fosse capaz de ignorar o peso do seu passado e passar um pano branco nas controvérsias e polémicas associadas ao designer.
Agora, o próprio decidiu afastar-se e desistir da exposição. Resta apenas uma dúvida: se a sua história e polémicas associadas já eram bem conhecidas do público, o que é que levou John Galliano a recusar esta oportunidade de voltar a entrar no jogo?
Para responder a esta pergunta, temos de olhar para o seu percurso. Falar da história da moda das últimas quatro décadas sem dedicar um capítulo a John Galliano é praticamente impossível. O britânico criou mundos inteiros e transformou as passerelles numa mistura de história, literatura, cinema, teatro e arte e edificou, à volta das suas criações, autênticas narrativas.
Desde tenra idade que ao dar os primeiro passos no final de curso na Central Saint Martins, em 1984, ficou evidente a sua ambição. Les Incroyables, inspirada na Revolução Francesa, revelou um criador obcecado por contar histórias através da construção das silhuetas. O reconhecimento chegou rapidamente e, nos anos seguintes, o designer acabaria por revolucionar sucessivamente a Givenchy, a Dior e, mais tarde, a Maison Margiela.
A sua visão mudou a alta-costura e foi um dos criadores mais influentes da moda, mas a sua carreira ficou irremediavelmente marcada pelos comentários antissemitas e declarações de admiração por Adolf Hitler num café em Paris, que fizeram com que fosse despedido da Dior, em 2011.
O designer foi condenado pela justiça francesa por injúrias públicas de caráter antissemita e colocou um ponto final abrupto na sua carreira, fazendo com que, durante anos, desaparecesse praticamente do mapa. Mais tarde, o designer admitiu que vivia com uma grave dependência de álcool e drogas na altura dos acontecimentos, entrou em reabilitação, pediu desculpa publicamente e classificou as suas palavras como “imperdoáveis”.
Em 2027, John Galliano iria voltar ao holofotes e ser o tema da próxima exposição do Met com “John Galliano: Horizons”, o que gerou muita polémica. Contudo, decidiu desistir. A decisão foi anunciada pelo próprio esta segunda-feira, 31 de agosto, através de um post na sua conta de Instagram.
Na publicação, John Galliano não revela de imediato a decisão da desistência. O estilista começa por agradecer ao Metropolitan Museum of Art e aos responsáveis pelo projeto, criando, inicialmente, a expectativa de que a exposição iria mesmo avançar. “Eu estou profundamente grato ao Metropolitan Museum of Art, e, em particular, a Max hollein, Andrew Bolton e Anna Wintour, pela extraordinária honra de terem proposto uma exposição dedicada ao meu trabalho”, lê-se na publicação.
“Ver o meu percurso criativo a ser considerado por uma instituição que admiro profundamente comoveu-me mais do que consigo expressar. Estarei para sempre grato pela confiança, pelo cuidado e pelo conhecimento que Max, Andrew, Anna e toda a equipa do Met dedicaram a este projeto”, continua por dizer o estilista. É só depois destas palavras de agradecimento que revela a decisão de desistir da exposição.
“Depois de muita reflexão e discussão com todas as pessoas envolvidas, eu decidi, com grande tristeza, que é melhor que a exposição não se realize neste momento”, afirma. “Continuo plenamente responsável pela dor causada pelas minhas palavras no passado, em particular pelo sofrimento que causei às comunidades judaica e asiática, e continuo profundamente arrependido. Compreendo que um arrependimento significativo não se alcança através de uma exposição, de um reconhecimento institucional ou de um simples gesto público. É uma responsabilidade contínua, demonstrada através da escuta, da aprendizagem e da forma como cada um se comporta ao longo do tempo”.
John Galliano não deseja que o debate em torno das polémicas coloquem o Met “numa posição difícil”, nem queria “desviar a atenção do extraordinário trabalho do Costume Institute”. O estilista reconhece que uma exposição que homenageasse o seu trabalho seria “dolorosa para algumas pessoas”.
John Galliano prossegue com agradecimentos a quem esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis. “Gostaria também de expressar a minha mais profunda gratidão a todos aqueles que me orientaram, apoiaram e acompanharam ao longo destes quinze anos de sobriedade e recuperação do alcoolismo e da dependência. A vossa sabedoria, paciência e humanidade ajudaram-me mais do que alguma vez conseguirei expressar adequadamente. Estou profundamente em dívida por me terem dado, como prometeram, uma vida melhor do que alguma vez poderia ter sonhado”.
“A minha gratidão ao Met, a Max, Andrew e Anna permanece profunda e duradoura. A sua generosidade, humanidade e crença na importância da moda enquanto arte, cultura e história – bem como a sua compreensão da fragilidade humana e da possibilidade de crescimento – permanecerão sempre comigo”, termina John Galliano por escrever.
Assim, a tentativa do Met de reconciliar o legado criativo e a responsabilidade ética no universo da moda foi por água abaixo, deixando a instituição com um grande trabalho pela frente: descoberta de um novo caminho para a primavera 2027. Desta forma, parece mesmo que o passado de John Galliano ainda é pesado e que, por enquanto, não é possível colocar as duas realidades lado a lado e à vista de todos.

