TikTok e Instagram ensinaram-nos a vestir. O problema? Também nos tornaram cada vez mais parecidos. Agora, a moda quer recuperar o estilo próprio
Abra o TikTok, o Instagram ou o Pinterest e faça uma experiência: procure inspiração para se vestir. Em poucos minutos, vão aparecer os mesmos ténis, as mesmas calças largas, o mesmo casaco, a mesma combinação de cores e, provavelmente, até a mesma mala. Nunca tivemos acesso a tanta inspiração de moda — e talvez nunca nos tenhamos vestido de forma tão parecida. É precisamente contra esta uniformização que está a nascer uma das tendências mais interessantes de 2026: o “anti-algorithm dressing”, ou, numa tradução livre, vestir-se contra o algoritmo. A expressão tem sido usada pela imprensa de moda para descrever uma reação à sucessão de estéticas virais — da clean girl ao quiet luxury — que transformaram tendências em autênticos uniformes globais. A British Vogue considera que as coleções de primavera/verão de 2026 já funcionaram como um exercício de “anti-algorithm dressing”, enquanto o outono/inverno aprofundou a procura por fantasia, criatividade e individualidade.

A lógica é simples: em vez de se vestir para encaixar numa estética com nome, veste-se para parecer consigo próprio. E isso pode significar misturar um blazer clássico com uma T-shirt de futebol, usar padrões que supostamente não combinam, juntar uma saia romântica a umas sapatilhas gastas ou recuperar aquela peça estranha que estava esquecida no fundo do armário.
A Vogue já antecipava esta mudança ao apontar individualidade, autoexpressão e estilo pessoal como forças importantes de 2026. Frida Tordhag, da plataforma de previsão de tendências Heuritech, explicou à publicação que o individualismo estava a influenciar diretamente a forma como as pessoas se vestiam e que a moda voltava a ser mais divertida, colorida e rica em texturas.
Até a Prada está de olho nisto
Nas passerelles, há sinais por todo o lado. A Prada construiu a coleção de outono/inverno 2026 em torno da sobreposição e da possibilidade de usar as mesmas peças de maneiras diferentes. A própria marca fala numa expressão de histórias, memórias e experiências pessoais através da roupa.


E não é apenas alta moda. No street style, regressaram as misturas improváveis, a roupa vintage, os acessórios aparentemente aleatórios, os contrastes de cor e aquilo que durante anos seria considerado “demasiado”. A Vogue Portugal identifica precisamente a “miscelânea eclética” como uma tendência de 2026: padrões sobre padrões, diferentes estéticas no mesmo conjunto e poucas regras de conjugação.

Há também uma razão comportamental para esta mudança. Os algoritmos aprenderam demasiado bem aquilo de que gostamos. Mostram-nos versões sucessivas do mesmo conteúdo e ajudam tendências a atingir milhões de pessoas quase instantaneamente. O resultado pode ser uma espécie de paradoxo: quanto mais inspiração temos disponível, menos inesperadas se tornam algumas escolhas. Por isso, a próxima grande tendência da moda pode nem ser um sapato, uma mala ou uma cor. Pode ser simplesmente voltar a vestir-se sem que um algoritmo ratifique a sua escolha.