Génio, polémico ou ambos? John Galliano vai ser o tema da próxima Met Gala e está a dividir opiniões

John Galliano foi um dos criadores mais influentes da moda, mas a sua carreira ficou irremediavelmente marcada pelos comentários antissemitas que fizeram com que fosse despedido da Dior, em 2011. E é por isso que a escolha está longe de ser consensual.

@SzilveszterMako para ZARA

Em 2027, o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art vai dedicar a sua grande exposição anual – aquela que dita o tema da Met Gala – a John Galliano. Chama-se “John Galliano: Horizons” e será a primeira grande retrospetiva numa exposição inteiramente dedicada ao designer britânico. Esta abre ao público a 9 de maio de 2027, logo após a Met Gala, e prolonga-se até janeiro de 2028. O anúncio foi recebido com entusiasmo por muitos, mas também abriu um debate inevitável: será possível celebrar um génio criativo sem ignorar o peso do seu passado?

A resposta não é assim tão simples e talvez seja por isto que esta é uma das decisões mais interessantes de Anna Wintour e Andrew Bolton enquanto responsáveis pelo Costume Institute, em Nova Iorque. Porque, goste-se ou não de John Galliano, é praticamente impossível falar da história da moda das últimas quatro décadas sem lhe dedicar um capítulo, porque o britânico criou mundos inteiros e transformou as passerelles numa mistura de história, literatura, cinema, teatro e arte e edificou, à volta das suas criações, autênticas narrativas.

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Isso ficou patente desde tenra idade, quando apresentou a coleção de final de curso na Central Saint Martins, em 1984, através da qual já era evidente a sua ambição. Les Incroyables, inspirada na Revolução Francesa, revelou um criador obcecado por contar histórias através da construção das silhuetas. O reconhecimento chegou rapidamente e, nos anos seguintes, o designer acabaria por revolucionar sucessivamente a Givenchy, a Dior e, mais tarde, a Maison Margiela. A sua visão mudou a alta-costura, sendo que, a par de um exercício de perfeição técnica, passou também a ser um ato de fantasia e de querer desafiar os limites do ofício.

Grande parte dessa reputação construiu-se durante a década de 1990, considerada por muitos a idade de ouro da criatividade na indústria da moda. Foi precisamente nesse período que John Galliano apresentou algumas das coleções mais influentes de sempre – veja-se a de outono/inverno de 1994 da Dior, por exemplo, que continua a ocupar um lugar mítico no coração dos entusiastas da indústria (incluindo Anna Wintour, que já admitiu publicamente que, se tivesse de escolher a sua linha favorita de sempre, da autoria de qualquer designer, seria essa precisamente, confirma a “Paper“).

John Galliano Dior Pret a Porter Fall Winter 1994

Aliás, a atual diretora de conteúdo da Condé Nast – e antiga editora-chefe da “Vogue” norte-americana – foi, durante décadas, uma das suas maiores defensoras e apoiou publicamente o seu regresso à moda, depois de ter sido forçado a afastar-se. E, agora, acabou por consolidar ainda mais a sua posição em relação ao mesmo. “Não há ninguém mais merecedor de uma exposição desta envergadura do que John Galliano“, disse, de acordo com a “Vogue“, sobre o facto de o designer ser o tema da Met Gala do ano que vem.

A exposição não vai limitar-se a mostrar vestidos icónicos, mas também vai incluir esboços, cadernos de investigação, fotografias de arquivo e materiais inéditos que ajudam a perceber o processo criativo por detrás de algumas das coleções mais importantes. A par disso, de acordo com Anna Wintour, e porque “a sua carreira não se resume a um único momento”, não vão “ignorar nenhum dos momentos mais sombrios do passado” desta figura. “Faz parte do que o moldou”, admite ainda, dizendo que “a exposição vai abranger todo o percurso da sua carreira e vai abordar todos esses aspetos”.

Mas é precisamente aqui que reside a polémica, sendo que qualquer conversa sobre John Galliano acaba, inevitavelmente, por fazer qualquer um regressar a 2011. Nesse ano, o designer foi despedido da Dior depois de serem divulgados vídeos onde fazia comentários antissemitas e proferia declarações de admiração por Adolf Hitler num café em Paris, noticiou, na altura, o “The Guardian“. O caso levou à sua condenação pela justiça francesa por injúrias públicas de caráter antissemita e colocou um ponto final abrupto na sua carreira, fazendo com que, durante anos, desaparecesse praticamente do mapa.

Mais tarde, o designer veio admitir que vivia com uma grave dependência de álcool e drogas na altura dos acontecimentos, entrou em reabilitação, pediu desculpa publicamente e classificou as suas palavras como “imperdoáveis”. A sua lenta reconstrução profissional culminaria, anos depois, na direção criativa da Maison Margiela, onde esteve de outubro de 2014 a dezembro de 2024, tendo voltado a ser amplamente elogiado pelo trabalho que desempenhou – mas deixando no público a sensação de que deveria estar de pé atrás, não estivéssemos na presença de uma bomba relógio no que a polémicas diz respeito.

Assim, ao que tudo indica, em vez de separar a arte do artista, como se costuma dizer, o Metropolitan Museum promete colocar ambas as realidades lado a lado e à vista de todos. Segundo Andrew Bolton, a exposição vai abordar explicitamente a queda de John Galliano, as consequências das suas ações e a forma como esse episódio alterou a leitura da sua própria obra, pelo que não será uma celebração do designer isenta de críticas, mas um retrato completo de uma figura cuja genialidade artística convive inevitavelmente com uma vida repleta de escândalos.

A preparação da exposição, pelo menos, parece demonstrar precisamente isso. Antes de avançar com o projeto, de acordo com a “Deadline“, Andrew Bolton e Anna Wintour reuniram-se com vários líderes da comunidade judaica para discutir de que forma a exposição poderia abordar o passado do designer de forma responsável, sem que ficasse no ar a sensação de que se tentou apagar o que aconteceu (tema que deu pano para mangas aquando da Met Gala de 2023, quando o tema se assumiu como Karl Lagerfeld, uma figura igualmente polémica).

Por isso, como em tudo na vida, que está longe de ser consensual, ficam as questões: se celebrar John Galliano sem falar de 2011 seria reescrever a história e ser conivente com os comentários que este teceu em relação a uma das maiores tragédias de todos os tempos, ignorar o seu trabalho completamente também não seria apagar um dos criadores que mais influenciaram a forma como a moda é pensada? Será possível que ambas coexistam sem que se anulem?

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