Pode parecer estranho, mas o regresso dos fones com fios pode ser interpretado através do cruzamento de moda, nostalgia, cultura pop e até preocupações com a tecnologia sem fios. Perceba do que falamos.
Passámos anos a tentar acabar com os fios, rendemo-nos às versões super XPTO que funcionam por Bluetooth, comprámos capas fofas para pôr as caixas dos mesmos e até já entrámos em pânico quando algum desaparecia dentro da mala, aceitando como inevitável que, a qualquer momento, pelo menos um deles morreria na praia. Agora, há quem esteja a olhar para os fones com fios e a pensar: afinal, isto até é giro.
Tal como tudo na vida, é comum que alguém pegue numa coisa que há uns anos nos parecia completamente ultrapassada e, com meia dúzia de celebridades e uma boa fotografia no Instagram, lá consegue convencer o público de que este esteve do lado errado da história. Foi assim que os fones com fios passaram de um objeto que se escondia no bolso a um acessório que se exibe com orgulho, sendo que Justin Bieber parece querer levar a brincadeira ainda mais longe.
A marca do cantor canadiano, SKYLRK, estará a preparar uma linha de áudio e os primeiros modelos que começaram a aparecer nas mãos de Hailey Bieber e Kylie Jenner são tudo menos discretos. São fones com fios, sim, mas em cores como verde néon e azul elétrico e com um pequeno detalhe que fez com que o desejo crescesse mais rápido do que uma chama regada a combustível: alguns destes gadgets têm iluminação integrada e brilham quando estão a ser usados. Aparentemente, ouvir “Baby” com uns meros fones já não chega.
A mulher do artista foi quem deu o primeiro grande vislumbre do que aí vem, tendo publicado uma série de fotografias no Instagram em que aparece com diferentes versões dos fones: verde para exercício ao ar livre, azul noutra fotografia e um modelo iluminado para o período noturno. Kylie Jenner também apostou na versão verde néon. Os produtos ainda não chegaram oficialmente às lojas, mas a “Hypebeast” confirma que estes fazem parte da futura linha SKYLRK Audio e a “Forbes” descreveu estas aparições como uma espécie de soft launch da nova categoria da marca.
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Não dizemos que o timing não seja genial, considerando que os fones com fios já estavam a voltar. Por exemplo, Bella Hadid começou a aparecer regularmente com os clássicos EarPods da Apple, numa altura em que toda a gente estava doida com as últimas gerações dos AirPods. Tanto assim foi que a “Vogue” chegou a olhar para este gadget como uma espécie de luxo ao contrário, no sentido em que se tratava de uma mulher que, embora pudesse ter todos e quaisquer fones que quisesse, preferia ser vista com os mais banais.
Mas Bella Hadid não foi a única a fazer parte deste movimento não declarado, já que Lily-Rose Depp e Zoë Kravitz também ajudaram a transformar os fones com fios numa espécie de uniforme das cool girls – e o mesmo se pode dizer de Dua Lipa, que já os incorporava nos looks como mais um acessório. Harry Styles, segundo a “Teen Vogue“, entrou igualmente na equação, provando que a tendência não é propriamente exclusiva de quem passa mais tempo a escolher o outfit do que a escolher a playlist.
E é aqui que a coisa começa a ficar engraçada, porque ninguém precisa realmente dos fios para ouvir música, mas os fios são ótimos para fazer parte de um look. A lógica é esta: se os AirPods foram desenhados para desaparecer – seja pela cor ou pela dimensão –, aqueles que contam com cabo fazem exatamente o contrário. Isto porque ficam pendurados, atravessam o pescoço, aparecem por cima da camisola e, dependendo da pessoa, acabam provavelmente enrolados no bolso. É uma forma de usar a tecnologia como parte do styling.
Não dizemos isto em vão, até porque, em 2025, Dove Cameron levou a coisa literalmente para a cabeça ao aparecer no desfile da Collina Strada, em Nova Iorque, com fones Apple com fios integrados no penteado. Sim, como se fossem acessórios de cabelo. A “Vogue” chamou a atenção para o momento e para esta transformação dos fones num elemento de styling, lá está. Por isso, o facto de Justin Bieber querer acrescentar-lhes luz também pode ter, em parte, que ver com o surgimento desta tendência.

Os SKYLRK parecem partir da ideia que “se vamos voltar a usar fios, então que tenham graça, pelo menos”. A par disto, não podemos dizer que não diz respeito a algo comportamental, porque também o é. É o regresso a objetos que foram desenhados para fazer apenas uma coisa, não precisam de bateria, de serem emparelhados e não desaparecem dentro de uma almofada porque alguém decidiu que seria boa ideia tornar cada peça praticamente invisível. É só ligar e a coisa funciona.
Como se isto não bastasse, também podemos associar o crescimento dos fones com fios à velha discussão da exposição à radiação de radiofrequência. Antes que alguém comece a deitar os AirPods pela janela: não, não há evidência científica que permita dizer que os fones Bluetooth são perigosos para a saúde. A radiofrequência utilizada pelo Bluetooth é radiação não ionizante e os dispositivos funcionam com níveis de potência baixos. A ARPANSA, autoridade australiana de proteção contra radiação, diz não existir evidência estabelecida de que os dispositivos Bluetooth provoquem efeitos adversos para a saúde dentro dos limites de exposição recomendados.
A investigação, ainda assim, continua. A Agência Internacional para a Investigação do Cancro classificou em 2011 os campos eletromagnéticos de radiofrequência como “possivelmente carcinogénicos para os humanos”, uma classificação Grupo 2B que indicava uma possibilidade a investigar, e não uma prova de que Bluetooth ou telemóveis provocassem cancro. A Organização Mundial da Saúde continua a acompanhar a investigação nesta área, lê-se no site oficial, embora as revisões sistemáticas destes órgãos continuem sem encontrar evidência que sustente os alegados efeitos adversos que pairam sobre estes dispositivos como fantasmas.
Portanto, se alguém disser que voltou aos fones com fios para fugir à radiação, estamos perante uma escolha pessoal e não perante uma recomendação médica sustentada pela ciência. O argumento mais convincente continua a ser outro e é bem mais fácil de aceitar: numa era em que vivemos rodeados de objetos que necessitam de bateria, como os telemóveis, os computadores, os relógios inteligentes e até a escova de dentes, não é preciso carregar o raio dos fones. Ponto final.









