A prevenção continua a ser a arma mais eficaz contra o cancro da pele, mas isso não significa que os portugueses saibam proteger-se do sol. Das falsas crenças sobre o protetor solar, o bronzeado ou os sinais suspeitos, estes são os erros que deve evitar.
Não é preciso passar horas na praia para provocar danos na pele. Bastam pequenas exposições repetidas ao longo dos anos para que a radiação ultravioleta deixe marcas invisíveis que, mais tarde, podem traduzir-se em rugas, manchas ou até cancro da pele. Apesar de a informação sobre proteção solar estar hoje mais acessível do que nunca, continuam a existir ideias erradas que levam muitas pessoas a desvalorizar os riscos da exposição ao sol e a manter comportamentos que comprometem a saúde da pele.
É precisamente para contrariar essa realidade que a Bioderma e a Liga Portuguesa Contra o Cancro – Núcleo Regional Sul voltaram a unir forças numa campanha de sensibilização que está a percorrer praias portuguesas até 29 de agosto. A iniciativa leva rastreios dermatológicos gratuitos a várias praias do País, com o objetivo de facilitar a deteção precoce de lesões suspeitas e reforçar a importância da fotoproteção e da vigilância regular da pele.
“Os rastreios são importantes para observar e sensibilizar pessoas que, de outra forma, teriam dificuldade em aceder a estes cuidados de saúde“, afirma Maria Cristina Fialho, Interna de formação específica de Dermatovenereologia. Para a especialista, este impacto extrapola a deteção precoce, sendo que passa, também, por aumentar a literacia da população sobre uma doença que continua a ser, em muitos casos, evitável. “O mais importante é as pessoas olharem para a sua própria pele e saberem reconhecer os principais sinais de alerta e os seus fatores de risco”, sublinha.
Embora hoje se fale mais sobre os perigos da radiação ultravioleta, continuam a existir falsas crenças que contribuem para diagnósticos tardios e para uma proteção inadequada da pele. Com a ajuda da especialista, esclarecemos sete dos mitos mais comuns sobre proteção solar e prevenção do cancro da pele.
Bronzeado não é sinónimo de saúde?

Há poucas coisas a continuarem tão enraizadas como a ideia de que uma pele bronzeada é uma pele saudável. Visualmente, até pode parecer mais apelativa, sim, mas, do ponto de vista da dermatologia, verifica-se precisamente o oposto. A cor que surge depois da exposição solar não representa uma adaptação benéfica do organismo nem uma proteção reforçada contra os raios ultravioleta. É, na verdade, uma resposta – ou uma prova taxativa, se quisermos – de que a nossa pele decidiu defender-se de uma agressão.
“A cor do ‘bronzeado’ decorre de um aumento da produção de melanina em resposta a uma agressão, a exposição à radiação UV. Isto é verdade tanto para a exposição à luz solar como para o uso de solários”, explica Maria Cristina Fialho. A especialista acrescenta que essa produção de melanina acontece depois de a radiação provocar alterações no ADN das células da epiderme. O pigmento funciona como uma espécie de “guarda-chuva” à volta do núcleo celular, tentando proteger o material genético de novas agressões.
Contudo, essa proteção não é milagrosa, diga-se de passagem. “Embora a melanina ofereça alguma proteção adicional, esta é limitada e não transforma o bronzeado numa proteção contra futuras exposições. Assim, o bronzear da pele é uma resposta ao dano já existente induzido pela radiação UV, que se acumula com cada episódio subsequente”, reitera.
Não é só um tipo de radiação que envelhece e danifica a pele?
Os raios UVA e UVB costumam surgir lado a lado nas embalagens dos protetores solares, mas o papel de cada um pode ficar bem claro para todos. Aliás, arriscamo-nos a dizer que um deles é bem mais conhecido do que o outro. Contudo, e embora atuem de forma diferente, uma coisa é certa: ambos contribuem para o envelhecimento cutâneo e para o desenvolvimento de cancro da pele, razão pela qual a proteção deve abranger os dois. Mas, afinal, qual é a diferença?
Segundo Maria Cristina Fialho, os raios UVA penetram mais profundamente na pele e desempenham um papel importante no fotoenvelhecimento, estando associados ao aparecimento de rugas, hiperpigmentação e flacidez através da produção de stress oxidativo. Já os UVB têm uma ação mais superficial, mas estão mais fortemente relacionados com as mutações no ADN das células da epiderme e com o desenvolvimento de várias formas de cancro cutâneo, sendo também os principais responsáveis pelos escaldões.
Ainda assim, a especialista sublinha que ambos acabam por contribuir para estes processos, pelo que “a fotoproteção ideal deve incluir filtros que protegem tanto contra UVA como UVB”.
Aplicar protetor uma vez chega?
A escolha do protetor solar costuma concentrar grande parte das atenções, mas, acredite, o problema começa muitas vezes antes disso. Mesmo quem opta por um FPS elevado acaba frequentemente por aplicar uma quantidade insuficiente de produto ou por esquecer a reaplicação ao longo do dia, reduzindo significativamente a proteção que espera obter.
De acordo com Maria Cristina Fialho, os ensaios laboratoriais são realizados com uma aplicação de dois miligramas de protetor por centímetro quadrado de pele, uma quantidade que a maioria das pessoas está longe de utilizar. “Caso seja aplicada uma quantidade inferior, o FPS real será consideravelmente inferior, conferindo uma falsa sensação de segurança e aumentando o risco de dano solar”, alerta. A especialista acrescenta ainda que esta redução não acontece de forma linear, ou seja, aplicar metade da quantidade recomendada não significa obter metade da proteção indicada na embalagem.
Para facilitar a aplicação correta, existe uma orientação simples que pode fazer toda a diferença: a chamada regra dos dois dedos, que consiste em aplicar uma linha contínua do produto ao longo do dedo indicador e do dedo médio para cobrir o rosto, o pescoço e cada membro superior. Para cada perna, bem como para o tronco e as costas, deve ser utilizada aproximadamente o dobro dessa quantidade. É uma forma prática de garantir que a pele recebe uma cobertura mais próxima daquela que foi utilizada para determinar o FPS do produto.
A reaplicação é igualmente indispensável. Maria Cristina Fialho recomenda que o protetor seja aplicado 15 a 30 minutos antes da exposição solar (idealmente, ainda em casa) e renovado de duas em duas horas, sempre que a exposição seja prolongada. Este intervalo deve ser mais curto se a rotina incluir mergulhos, transpiração intensa ou secagem com a toalha, situações que comprometem a uniformidade da película protetora. “Ao reaplicarmos não estamos a duplicar o FPS do protetor, mas sim a repor a barreira que se torna irregular ao longo do tempo”, remata.
Se usar FPS 50 posso ficar mais tempo ao sol?

É um dos equívocos mais comuns quando se fala de proteção solar e, ao mesmo tempo, um dos que pode ter consequências mais graves. Muitas pessoas escolhem um protetor com FPS 50 convencidas de que isso lhes permite prolongar a exposição ao sol sem riscos acrescidos, mas o número que aparece na embalagem não corresponde ao tempo que é possível permanecer ao sol. É, porém, um parâmetro medido em condições muito específicas.
“O FPS (fator de proteção solar) foi definido com base na dose eritematosa mínima (DEM), ou seja, a quantidade de radiação UVB necessária para induzir eritema (vermelhidão)”, explica Maria Cristina Fialho, esclarecendo ainda que, em laboratório, um protetor com FPS 50 faz com que seja necessária uma quantidade cinquenta vezes superior de radiação UVB para provocar o mesmo nível de vermelhidão. “Isso não significa que se possa ficar 50 vezes mais tempo ao sol“, sublinha.
A diferença entre os testes laboratoriais e a vida real evidencia por que motivo esta interpretação está errada. A especialista recorda que fatores como o suor, os mergulhos no mar ou na piscina, a fricção da toalha ou, simplesmente, a tendência para aplicar menos produto do que o necessário fazem com que a proteção real seja inferior àquela que é medida durante os ensaios. “O FPS não traduz o ‘tempo’ que pode durar a exposição solar, mas sim a eficácia na redução de radiação UV que atinge a pele em condições laboratoriais ideais“, acrescenta.
Por isso, um FPS elevado deve ser encarado como uma camada adicional de proteção e nunca como uma carta branca para passar mais horas ao sol. Continuam a ser fundamentais, então, medidas como evitar a exposição nas horas de maior intensidade, procurar locais de sombra e recorrer a chapéus, roupa adequada e óculos de sol. A lógica é esta: a eficácia do protetor depende tanto da sua formulação como da forma correta de o utilizar.
Se estiver à sombra não preciso de protetor solar?
Procurar a sombra é um dos conselhos mais repetidos pelos dermatologistas, mas isso não significa que, ao fazê-lo, a pele deixe de estar exposta à radiação ultravioleta. Ainda existe a ideia de que um guarda-sol, uma árvore ou um chapéu eliminam por completo o risco, quando, na realidade, são apenas uma parte da estratégia de proteção. O mesmo acontece com quem acredita que um dia nublado dispensa o uso de protetor solar.
Segundo Maria Cristina Fialho, a radiação UV chega à pele por três vias diferentes: a direta, que recebemos diretamente do sol; a difusa, que é dispersa pela atmosfera e chega de diferentes direções; e a refletida, devolvida por superfícies como a areia, a água, o betão ou até a neve. “Enquanto que estas medidas de proteção reduzem a exposição através da via direta, não têm tanto impacto nas duas restantes”, afiança.
É precisamente por isso que podemos passar o dia debaixo de um guarda-sol e, ainda assim, acabarmos com a pele vermelha ou bronzeada – quem nunca, não é? A areia e a água continuam a refletir parte da radiação, enquanto a componente difusa atravessa facilmente os espaços que não estão totalmente protegidos. Ou seja, ha sempre uma exposição menos intensa do que ao sol direto, mas está longe de ser completamente inexistente, contrariamente ao que o eco popular teima em frisar.
O protetor solar impede a produção de vitamina D?
O receio de desenvolver uma deficiência de vitamina D é um dos argumentos mais utilizados por quem continua a querer justificar a exposição solar de forma desprotegida. A relação entre ambos existe do ponto de vista biológico, mas a realidade é bastante mais complexa do que a ideia de que usar protetor compromete inevitavelmente a produção desta vitamina.
“A síntese de vitamina D tem início na pele através da exposição à radiação UVB”, reconhece Maria Cristina Fialho, explicando que este mecanismo faz sentido do ponto de vista fisiológico. No entanto, acrescenta que, “em contexto de vida real, não se verifica um impacto tão significativo nos níveis séricos de vitamina D com o uso regular de protetor solar”. Isto acontece porque os níveis desta vitamina dependem também da alimentação – e, spoiler, porque a maioria das pessoas não aplica o protetor na quantidade nem com a frequência necessárias para bloquear totalmente a radiação UVB.
A especialista refere que alguns estudos demonstraram uma redução dos níveis de vitamina D em pessoas que utilizaram corretamente um protetor com FPS 50 em condições muito controladas. Ainda assim, alerta que esses resultados não devem ser extrapolados para o quotidiano e, sobretudo, não justificam o aumento deliberado da exposição solar. “O mais importante acaba por ser o balanço entre os riscos e benefícios da exposição à radiação UV“, afirma.
Na prática, a evidência científica continua a apontar no mesmo sentido: o benefício da fotoproteção na prevenção do cancro da pele supera largamente o eventual impacto na produção de vitamina D. Quando existe uma deficiência, esta pode ser corrigida de forma mais segura através da alimentação ou de suplementação orientada por um profissional de saúde, sem que seja necessário transformar a exposição solar num tratamento.
Só preciso de me preocupar quando um sinal muda?

Quando se fala em cancro da pele, é comum pensar apenas nos sinais escuros que mudam de forma ou de cor. Embora essa seja uma situação que deve sempre motivar uma avaliação médica, há muito mais a pesar na balança, uma vez que nem todos os tumores cutâneos surgem a partir de sinais já existentes e nem todas as lesões suspeitas têm o aspeto que a maioria das pessoas imagina.
“O melanoma é um tumor maligno dos melanócitos, as células responsáveis pela produção de melanina, pelo que se apresenta, na maioria dos casos, como uma lesão pigmentada”, avança Maria Cristina Fialho. No entanto, faz questão de desfazer um dos maiores equívocos sobre este tipo de cancro: “a maioria dos melanomas surge numa zona onde anteriormente não existia um nevo, vulgo ‘sinal’, e não a partir de nevos previamente existentes”. Ou seja, uma lesão completamente nova pode ser tão ou mais preocupante do que um sinal antigo que sofreu alguma alteração evidente.
Para ajudar a identificar alterações suspeitas, existe a conhecida regra ABCDE. A assimetria, os bordos irregulares, a presença de várias cores, um diâmetro superior a seis milímetros (embora existam melanomas mais pequenos) e, sobretudo, a evolução da lesão ao longo do tempo são sinais que justificam uma observação por um dermatologista. A especialista destaca ainda o chamado “sinal do patinho feio” – uma lesão que destoa claramente de todas as outras e que, por isso, merece especial atenção.
Mas o melanoma não é o único tumor cutâneo a exigir vigilância. A Interna de formação específica de Dermatovenereologia lembra que os carcinomas basocelular e espinocelular são bastante mais frequentes e, muitas vezes, passam despercebidos precisamente porque não terem o aspeto que tantas pessoas temem. O primeiro pode surgir como uma pequena “borbulha” que cresce lentamente e sangra com facilidade, enquanto o segundo se manifesta frequentemente como uma ferida persistente que não cicatriza.
É por isso que a prevenção não termina na aplicação diária do protetor solar. Conhecer a própria pele, observar regularmente os sinais e procurar ajuda perante qualquer alteração continua a ser uma das formas mais eficazes de reduzir o impacto do cancro cutâneo. Para a especialista, iniciativas como os rastreios gratuitos realizados nas praias portuguesas ajudam, por isso, a facilitar o diagnóstico precoce e aumentar a literacia da população.


