Pediram-me que escrevesse um texto sobre amamentação, ou melhor, sobre mães que escolhem não amamentar. Já escrevi sobre este tema no meu blogue umas quinhentas vezes, com várias abordagens, vários tons e estilos. Dei mil voltas à cabeça até chegar à conclusão de que não quero escrever sobre não amamentar mas sobre liberdade e sororidade.

Claro que para isso é absolutamente imprescindível que vos contextualize e vos conte a minha história e para isso, necessariamente, terei que falar sobre amamentação. Ou melhor, sobre não amamentação.

Nasci, em Lisboa, há 38 anos, uma grande prematura, com pouco mais de um quilo. Para complicar o cenário, nasci com uma malformação no sistema nervoso central e tive que ser operada com 15 dias, em Coimbra, no único sítio do país onde arriscaram fazer uma operação de tamanha complexidade a uma recém-nascida com baixo peso. No pós-operatório tive uma meningite e a minha mãe acha que sou como os gatos e que tenho sete vidas. É capaz.

Já que falamos da minha mãe deixem-me contar-vos que quando eu nasci ela tinha 20 anos e entrou num pânico terrível quando, após parir e perguntar à médica obstetra o sexo do seu bebé (na altura não havia ecografias), lhe responderam que não importava que ela soubesse o sexo “afinal, isto era para morrer!”. Isto era eu.

Devido a todo esse stresse pós-parto o leite secou à minha mãe. Eu não fui amamentada e aí começa a minha história com a amamentação.

Vivi 32 anos muito bem com esta informação — que me era totalmente irrelevante — de que tinha sido criada a leite adaptado mas depois…engravidei. Ora, devido à lesão vertebro-medular resultante da malformação congénita de que vos falei o cenário da gravidez de alto risco sempre esteve em cima da mesa. E verificou-se.

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Há quem diga que “gravidez não é doença” e isso é como tudo, uma verdade relativa, uma não verdade absoluta. Durante as 34 semanas que estive grávida estive verdadeiramente doente: o meu corpo não aguentava todas as mudanças resultantes da gravidez e comecei a ter complicações várias que tiveram o seu ponto alto com três pielonefrites (infeções renais) que punham em risco a minha bebé e também a mim própria. Durante essas 34 longas semanas em que já sabiam o meu nome de cor nas urgências do hospital o prazer de estar grávida era nenhum, as dores eram tremendas, nos últimos dois meses tinha que me auto-algaliar de 45 em 45 minutos noite e dia e não conseguia dormir nem descansar mas — caramba! — eu sou uma mulher prática e sabia que tudo iria acalmar quando a minha filha nascesse. O que importava era que ela chegasse, saudável e feliz. Principalmente saudável, porque feliz iria ser eu a tratar de a fazer.

A ideia em si não era, para mim, natural, orgânica e bonita e não me passavam imagens romantizadas sobre a amamentação pela memória quando projetava o ato."

Não fiz um plano de parto. Não me importava quem estaria presente (não esteve o meu marido, só eu e a equipa clínica, e tudo bem), qual a forma que os médicos — que para mim são quem percebe de saúde materno-fetal — decidiam que deveria ser feito o parto (foi uma cesariana eletiva com uma raqui-anestesia pois eu não poderei nunca fazer um parto vaginal nem receber uma anestesia epidural e tudo bem), se havia velinhas acesas ou música ambiente: o que me importava era que a Ana nascesse em segurança e saudável. Só isso. Sem floreados.

Quando a Ana nasceu senti uma descarga enorme de adrenalina e uma felicidade tremenda mas aqui “não vou ensinar a missa ao papa”: todas as mães devem sentir emoções semelhantes. Com uma diferença — o corte daquele cordão teve uma simbologia de alívio: o meu corpo imperfeito e pouco saudável impedia-me de ter uma sensação de controlo sobre a saúde do meu bebé in útero e agora, cá fora, a sensação de controlo, domínio e segurança sobre a minha bebé era brutalmente apaziguadora. Havia eu, o meu marido, a minha mãe, a minha tia e uma família alargada enorme cheia de mãos para ajudarem e eu acredito mesmo naquela coisa do “it takes a village to raise a child!”.

Já antes da gravidez eu tinha decidido que amamentar não era para mim mas tinha a mente aberta e, nestas coisas, nunca se diz que desta água não beberei. A ideia em si não era, para mim, natural, orgânica e bonita e não me passavam imagens romantizadas sobre a amamentação pela memória quando projetava o ato. Não significa que, se optasse pela amamentação, as coisas até não tivessem corrido às mil maravilhas e tivesse vivenciado uma  experiência avassaladora. Nunca saberei. E tudo bem.

O parto da Ana foi provocado porque uma pielonefrite não me dava tréguas e havia risco de septicémia. Dois dias antes fui ao hospital para me serem dadas as injeções de maturação pulmonar para a Ana e voltei a perguntar à minha médica obstetra a vitalidade de amamentar ou não a minha bebé (atenção que não usei a palavra “importância”, isso eu já sabia, sou uma pessoa informada e que sabe onde buscar a informação para além dos googles e dos blogs, falei com todo o pessoal clínico sobre este tema e estava ciente da importância da amamentação mas eu queria saber era quais os riscos e as implicações se eu decidisse avançar com a minha vontade de não amamentar a minha filha). A médica obstetra, mais uma vez, reforçou a importância da amamentação mas reiterou que, à partida, não seria vital fazê-lo e que os riscos associados à alimentação com leite artificial não eram significativos de forma isolada. Claro que, comparando, a amamentação traria uma série de plus, de benefícios, mas a alimentação artificial não comportava minus ou prejuízos, não iria lesá-la, pelo que, continuou a deixar ao meu livre arbítrio a manutenção ou não da minha decisão.

Assisti a conversas de chat sobre mim chamando-me de má mãe, de egoísta e de inconsciente. Que não me quis sacrificar pela minha filha. Que o meu marido me deveria ter obrigado (!). Tudo bem."

E foi de escolha reiterada que se tratou quando, nascida às 34 semanas, sem precisar de ir para a incubadora e com uma saúde de ferro e um peso simpático, e com a técnica de canguru em curso, a Ana com minutos de vida recebeu o seu primeiro leite via biberão.

Durante estes quase seis anos de Ana fiquei conhecida na blogosfera como a “mãe que não quis amamentar”. Li críticas tenebrosas, insultos, recebi palavras de agoiros e desejos que as coisas nos corressem mal, assisti a conversas de chat sobre mim chamando-me de má mãe, de egoísta e de inconsciente. Que não me quis sacrificar pela minha filha. Que o meu marido me deveria ter obrigado (!). Tudo bem.

A maioria das pessoas continua a achar que eu sou “contra a amamentação” como se isso fizesse algum sentido, quando o que eu sou é a favor da liberdade, da livre escolha e da capacidade da decisão da mulher sobre o seu próprio corpo. Seja qual for a sua motivação que eu cá resumo-me à minha insignificância e não me sinto com nenhuma legitimidade para dizer se o argumento de uma mulher sobre decisões que afetam a sua própria vida e o seu próprio corpo são ou não válidas, sejam razões estéticas, clínicas, de bem estar emocional ou o que quer que seja.

Tudo bem para mim que sei quem sou e a minha história, que conheço os contextos e as motivações e que sou segura desta decisão que tomei informada e de plena consciência, com o apoio da minha médica obstetra, do meu marido e da minha família.  Era só dessa validação que eu precisava.

Mas não está tudo bem para as centenas de mães que não conseguiram, não puderam ou — como eu — não quiseram amamentar e que, passados seis anos, ainda me escrevem a perguntar como resisti às pressões externas, aos julgamentos, à culpa. Que dizem que o meu testemunho foi importante porque só há testemunhos positivos sobre amamentação e ninguém escreve testemunhos positivos sobre a não amamentação. Ou sobre a alimentação, vamos lá deixar de usar a negação da amamentação para se referir à alimentação de tantos e tantos bebés.

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Os argumentos são vários e o tom é sempre de guerra e nunca de respeito ou compreensão. Acham que a minha natureza como mulher era a de amamentar e que não se poderia tratar de uma escolha, que infâmia vem a ser esta?! Quando lhes falo que todos os dias faço – eu e elas — várias escolhas “anti-natura” relacionadas com o meu corpo (tomo pílula para impedir a minha fertilidade ou não como tudo o que o meu apetite sugere e faço dieta quando me sinto gordalhufa, por exemplo) reviram os olhos e ficam ainda mais zangadas, ainda que o corpo seja meu e as maminhas estejam incluídas.

E tudo bem com isso. Estamos felizes: as três, sem que nem eu nem a minha mãe tivéssemos — uma por incapacidade e a outra por escolha — amamentado as respetivas crias."

Acham que estou em desvantagem na minha vinculação com a minha filha e quando dou o exemplo da minha relação com a minha própria mãe e como foi o nosso percurso e vida conjunta que foram determinantes e que construíram a nossa vinculação e o nosso afeto, acham que estou a fazer o que em psicologia se chama de “redução da dissonância cognitiva”. Só que não. A minha vinculação com a minha mãe é como a minha vinculação com a minha filha: únicas e motivo de grande segurança, contenção e conforto. E tudo bem com isso. Estamos felizes: as três, sem que nem eu nem a minha mãe tivéssemos — uma por incapacidade e a outra por escolha — amamentado as respetivas crias.

As críticas são quase todas de mulheres. Outras mulheres. Outras mães. Que não respeitam cada história de outra mulher como única. Que só veem um meio (amamentação) e não querem saber de contextos ou de fins. Que acham, do alto do seu etno-centrismo, que o que decidem é que está certo quando a certeza é uma montanha que se pode ver de tantos ângulos diferentes. Que precisam de se sentir superiores moralmente, mães mais abnegadas, mais sacrificadas, mais extremosas. Melhores mães porque acreditam, piamente, que a amamentação é que faz delas mães melhores. E tudo bem.

Não quero entrar em comparações. Nunca gostei de competições. Sei quem sou, de onde venho, para onde quero ir e o que sinto. A alimentação da minha filha nos primeiros anos de vida foi um item prazeiroso na nossa família: era responsabilidade de ambos os progenitores (e a relação da Ana com o pai é fantástica, pelo que, se perdi vinculação por não a ter amamentado, tudo bem, sinto-me compensada pela vinculação equilibrada que ela mantém com ambos os pais), permitia que eu pudesse dormir e descansar e que essa tarefa não estivesse exclusivamente atribuída a mim noite e dia (e uma mãe descansada e feliz é muito mais tranquila e estável emocionalmente e era isso mesmo que eu queria para a nossa família), dava-me segurança para reduzir a ansiedade para saber ao certo quanto a Ana comia (e como prematura era importante controlar a quantidade ingerida por ela nos primeiros meses)  e foi uma experiência tranquila e feliz.

Se tivesse amamentado poderia ser igualmente tranquila e feliz. Talvez sim, era provável. Mas não aconteceu. E o que importa é a nossa história e os resultados que dela adviram.

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Não tenho pretensões de ser a melhor mãe do Mundo: quero ser a mãe que a Ana não trocaria por nenhuma outra no Universo, a mãe dela, a que a conhece pelo lado de dentro das entranhas, a que tem uma bainha de amor na barriga que marca o dia em que ela veio fazer do Mundo um lugar melhor.

Quero ser a mãe que educa para o respeito pela liberdade individual, para não fazer julgamentos ou generalizações abusivas, para o livre arbítrio, para o respeito pelas vontades próprias (suas e dos outros) e, especialmente, para a empatia e fraternidade, ou melhor, para a sororidade.

“Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseada na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. A sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal. A sororidade é um dos principais alicerces do feminismo, pois sem a ideia de 'irmandade' entre as mulheres, o movimento não conseguiria ganhar proporções significativas para impor as suas reivindicações.” [Citação retirada de https://www.significados.com.br/sororidade/]

A Ana tem 6 anos. Tirando doenças que todos os putos têm — incluindo piolhos — é uma miúda saudável. Na verdade, era só isso que eu queria desde o início.

Porque feliz eu sei que a tenho conseguido fazer ao longo destes 6 anos. E por isso, tudo está certo.

Tudo está bem.

P.S. Existe uma fundação americana maravilhosa chamada “Fed is best foundatian” cuja consulta recomendo imenso e que pode ajudar muitas mais pessoas que este texto pessoal. Consultem-no!

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