"Borboletas" no estômago, mãos suadas, pupilas dilatadas, coração a bater mais rápido. Isto quando estamos apaixonados. Quando a relação acaba vêm os problemas de pele, queda de cabelo, perda de peso, dificuldade em dormir e, em casos mais drásticos, sintomas semelhantes a um ataque cardíaco. Os efeitos físicos de uma break-up são reais, dolorosos e, em alguns casos, podem mesmo levar ao hospital.

Uma neurocientista, uma dermatologista e um médico de clínica geral explicam-nos tudo — quando é bom e estamos apaixonados, e quando é mau e o mundo parece ter acabado.

O amor explicado pela neurociência

Em 2005, a investigadora Helen Fisher realizou um estudo com estudantes universitários. “Foram mostradas fotografias de pessoas estranhas e da pessoa pelo qual o participante estava apaixonado, para perceberem o que é que muda no cérebro”, explica à MAGG Diana Prata, investigadora principal no Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. “O estudo concluiu que as zonas mais ativadas foram as zonas de recompensa.”

Sexo, drogas, comida, poder, reconhecimento, vitória. O circuito cerebral da recompensa é ativado quando recebemos estímulos que nos dão prazer — mesmo que nos possam ser prejudiciais, como é o caso das drogas. "Esse mesmo centro de recompensa é ativado quando, por exemplo, os participantes são expostos a um jogo e dizem-lhe ‘ganhou 5€ na resposta’”, continua Diana Prata.

Perante este estímulo de prazer, o cérebro responde com um aumento de dopamina (neurotransmissor associado ao bem-estar) na zona de recompensa. É neste ponto que tudo se torna incrivelmente maravilhoso quando corre bem — e incrivelmente complicado quando corre mal.

Acha que está apaixonado? Estes são os sintomas físicos

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Mãos suadas, coração a bater descompassado

O mesmo é válido para a ansiedade, rubor da pele e aumento da fenda palpebral (arregalar dos olhos). As culpadas disto tudo são as hormonas adrenalina e noradrenalina, que originam ainda sentimentos de alegria, desejo e atenção focada. Não consegue pensar em mais nada a não ser nele? Pois, está aqui a explicação.

Borboletas no estômago

Isso deve-se à libertação de cortisol, a chamada hormona do stresse. Estar apaixonado é ótimo, mas também é stressante. Ela também aparece quando estamos numa situação de perigo, como por exemplo num assalto. O nosso corpo, porém, não consegue distinguir entre os diferentes tipos de stresse. Por outras palavras, ele não faz a menor ideia se está apaixonado ou a enfrentar um urso. O resultado é o mesmo.

Perda de apetite

Devido precisamente à libertação de cortisol, há uma perda de apetite. Isto acontece porque a hormona, quando libertada, contrai os vasos sanguíneos em torno do estômago e intestino. Isto leva à perda de apetite e, em alguns casos, náuseas.

Menor sensibilidade à dor

Em 2010, a Universidade de Stanford colocou um grupo de indivíduos a olhar para fotografias de pessoas de quem gostavam. O que é que descobriram? Que esse ato levava a uma redução da dor moderada em cerca de 40% e da dor intensa em mais de 15%.

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Pupilas dilatadas

Quando se sente atraído por alguém, há uma estimulação do sistema nervoso simpático, que origina a dilatação dos olhos.

Dormir melhor

Conhecida como a hormona do amor, a oxitocina está associada à sensação de prazer e bem-estar, segurança e fidelidade, mas também facilita a expulsão do leite durante a fase da amamentação e promove as contrações na hora do parto. Esta é mais uma hormona que é libertada quando está apaixonado. E o que é que provoca? Além de ajudar a regular os padrões de sono, acalma-o e contribui para uma sensação geral de bem-estar. Também é ela que nos torna incapazes de reconhecer defeitos no novo parceiro, dando força à ideia de que, às vezes, o amor é mesmo cego.

Isto dura para sempre?

Quando o cérebro sai do sistema de recompensa, podemos partir do campo da paixão para o do amor. Segundo vários estudos, a paixão, que provoca todos estes efeitos físicos no nosso corpo, dura entre 12 a 48 meses.

De que forma é que uma break-up afeta o nosso corpo

Os efeitos físicos que sentimos no corpo após uma separação

Às vezes simplesmente não dá para continuar. Seja porque os sentimentos mudaram ou porque houve uma traição que não se superou, seja por mútuo acordo ou porque uma das partes já não quer continuar. Nada a fazer, acabou. Começa a tristeza, a culpa e, em alguns casos, os problemas digestivos, de pele e de coração. É pior para quem é deixado? É. Mas quem decide deixar também pode sentir alguns destes sintomas.

Aumento da pressão arterial

“Um dos primeiros efeitos após uma rutura amorosa é o stresse”, explica à MAGG a neurocientista Diana Prata. “O nosso cérebro liberta uns neurotransmissores que vão fazer com que se liberte cortisol no resto do nosso corpo." Lembra-se do cortisol, a chamada hormona do stresse que nos provoca borboletas no estômago quando estamos apaixonados? Quando as coisas correm mal, ela altera-nos o batimento cardíaco e a pressão arterial.

Intestinos

“Os intestinos são altamente afetados por uma rutura amorosa”, explica à MAGG Alberto Pereira da Silva, médico de clínica geral, que acrescenta ainda que "eles são o nosso segundo sistema nervoso.” Perante uma break-up, pessoas que sofrem de cólon irritável, por exemplo, podem ver agravado esse problema. Por outro lado, quem não sofre de nenhuma patologia pode ver os problemas a surgirem.

Perda de apetite

“As endorfinas deixam de ser produzidas. Além disso, verifica-se um aumento de cortisol no sangue, o que origina mais adrenalina, pessoas mais excitadas, mais impacientes”, acrescenta o mesmo médico.

O facto de as glândulas supra-renais produzirem mais cortisol leva a uma perda de apetite. Em situações de ansiedade, porém, também há quem possa sentir mais vontade de comer, sobretudo alimentos pouco saudáveis — mas mais saborosos.

Coração descompassado

Também por culpa do cortisol pode verificar-se um aumento na frequência cardíaca, mãos trémulas e aceleração do intestino.

Dificuldade em dormir

Mais uma vez, o responsável por este sintoma é o cortisol.

Pele oleosa

Como se não bastasse, o cortisol também nos deixa a pele oleosa. “O aumento dos níveis de cortisol no sangue, que ocorre em períodos de maior stresse, estimula as glândulas sebáceas da pele, levando-as a produzir mais sebo”, explica à MAGG Helena Toda Brito, dermatologista no Hospital Lusíadas Lisboa. “As insónias também provocam aumento dos níveis de cortisol, agravando este problema.”

Queda de cabelo

“Alguns tipos de queda de cabelo podem estar associados a níveis elevados de stresse”, diz a dermatologista à MAGG.

Envelhecimento prematuro da pele por dieta desequilibrada

Lembra-se de termos falado na procura de alimentos poucos saudáveis? É perfeitamente normal numa fase de desgosto amoroso — mas traz consequências. “Os alimentos ricos em açúcares simples (muitas vezes ingeridos como “comida de conforto”) estão associados a um estado inflamatório, que está implicado no envelhecimento prematuro da pele, bem como no aparecimento ou agravamento de acne em pessoas predispostas a isso”, diz Helena Toda Brito.

Síndrome do Coração Partido

Os sintomas são os mesmos de um ataque cardíaco: dor no peito, desmaio, queda da pressão arterial. Contrariamente ao que acontece num “verdadeiro” enfarte, porém, as artérias não fecham e o coração não para de bater. Estamos perante o Síndrome do Coração Partido (o nome oficial é cardiomiopatia de Takotsubo), relatado pela primeira vez por médicos japoneses no início dos anos 90.

“A parte muscular do coração fica mais fraca temporariamente e de repente”, explica à MAGG a neurocientista Diana Prata. “Isto pode acontecer na sequência da morte de alguém que se ama ou após um rejeição de um parceiro.”

Para a ciência, esta descoberta foi extremamente importante, sobretudo quando as atenções estavam tão dirigidas para o estudo do cérebro. “O coração não é apenas um músculo que bombeia sangue. Ele também tem uma ligação muito forte com a emoção. Afinal, os poetas têm razão", esclarece a neurocientista.

A Síndrome do Coração Partido afeta sobretudo as mulheres a partir dos 55 anos.

Sintomas de abstinência

Se quando tudo corre bem e há uma nova interação num novo relacionamento, seja num encontro ou a chegada de uma mensagem, são libertadas duas hormonas: a oxitocina, a hormona do amor, e a dopamina, associada ao bem-estar, o contrário acontece quando a relação termina, sobretudo se for de uma maneira abrupta. O cérebro habituara-se a receber este cocktail hormonal e vai "revoltar-se" por não ter mais a droga — e sim, os sintomas são iguais aos de uma abstinência.

Em 2010, as investigadoras Lucy Brown e Helen Fisher analisaram a atividade cerebral de dez mulheres e de cinco homens que tinham sido recentemente rejeitados. Quando viam imagens dos parceiros, as zonas do cérebro que se ativavam eram as mesmas que estão relacionadas com vícios profundos, como a nicotina ou a cocaína. Por outras palavras, eles estavam numa fase de abstinência química.

É por isso que pode sentir tanta necessidade de perseguir o agora ex nas redes sociais ou não conseguir controlar a ânsia de lhe enviar uma mensagem. No fundo, o seu cérebro vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para “recuperar” a droga.

Após uma break-up há (mesmo) dor

Há semelhanças entre o fim de uma relação amorosa e a dor física? Foi isso que Edward Smith, investigador na Universidade Columbia, tentou perceber. Num estudo realizado em 2011, reuniu um grupo de indivíduos que tinham sido deixados nos últimos seis meses.

A ligação da mulher ao homem vai diminuindo de parceiro para parceiro. Elas têm mais dificuldade em estabelecer uma relação mais duradoura.”

“Primeiro mostraram aos participantes fotografias dos parceiros e fotografias de amigos. Depois puseram algo muito quente no braço para causar dor”, explica à MAGG a neurocientista Diana Prata. O que é que descobriram? Que há algumas partes do cérebro que são ativadas de igual modo quando olhavam para as fotos do parceiro e quando sentiam dor. Quando olhavam para as fotos dos amigos não se verificava nenhuma alteração.

“Se formos realmente rigorosos, porém, não podemos ter a certeza que são mesmo as áreas da dor, também pode ser a do nojo, imagine uma fotografia de algo que a enoja— essa área também é ativada.”

Ou seja, estas zonas do cérebro que são activadas podem estar relacionadas com estímulos muito fortes — seja uma rutura, uma dor ou algo que lhe meta nojo. “Ainda não é possível descodificar se estas áreas estão associadas à saliência, à intensidade, ou à dor.”

O amor é como a fita-cola — relação a relação, vai "colando" cada vez menos

“A oxitocina funciona como uma fita-cola. Quando a mulher estabelece uma ligação com alguém, fá-lo de forma resistente e duradoura. É uma questão hormonal, tem a ver com a forma como o cérebro funciona”, revela o médico Alberto Pereira da Silva. “Quando se descola, sofre mais com isso. Os homens não — em geral, claro —, não quer dizer que não soframos, que não tenhamos dor. Mas é diferente.”

Diz-se que o primeiro amor nunca se esquece. E talvez haja mesmo uma explicação científica para isso — tal como um pedaço de fita-cola que à primeira vez segura duas folhas de papel na perfeição, à segunda utilização custa mais. À terceira mais ainda. “A ligação da mulher ao homem vai diminuindo de parceiro para parceiro. Elas têm mais dificuldade em voltar a estabelecer uma relação mais duradoura.”

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