"Pensa positivo". Quantas pessoas terão ficado mais bem dispostas depois de alguém lhes dizer isto? Exato, nenhuma. Não há como evitar: há momentos da vida que são negativos e fugir deles é contraproducente. Sem tristeza não há alegria. Sem infelicidade, não existe felicidade. Os dois polos vão sempre existir, e ignorar aquele que soa a pior significa que estamos a reprimir emoções — e toda a gente sabe que tudo o que mete a palavra "reprimir" não traz nada de bom.

Não é que devamos sucumbir ao negativismo crónico. Nada disso. Mas há um equilíbrio certo para todas as emoções. E o excesso de um aparente bem-estar pode ser tão nocivo como o do mau-estar. Forçarmo-nos a estar bem, até quando não estamos, pode ter consequências terríveis para a nossa estabilidade e inteligência emocional, diz à MAGG o psicólogo Fernando Magalhães.

A esta espécie de ditadura do positivo dá-se o nome de positivismo tóxico. "É uma crença de que precisamos de estar sempre bem, de só mostrar sucessos e realizações, de mostrar o que a cultura popular identifica como positivo ('como as férias ou corpo perfeitos'), de apenas sentir emoções “agradáveis”, em qualquer situação", explica o psicólogo.

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Minimizam-se e desvalorizam-se as emoções negativas e quase que há uma responsabilização de falha pessoal quando se cede a um estado mais triste. Só que é impossível estar sempre bem. Não acredite em tudo o que o seu Instagram lhe mostra — é absolutamente impossível estarmos sempre bem.

A tentativa de fugir ao mau funciona como uma pescadinha de rabo na boca: quanto mais reprimimos a nossa tristeza, mais tristes ficamos. "Esta crença é irrealista pois quando existe uma preocupação tão grande em obter emoções positivas, acaba por gerar mais sofrimento e emoções negativas, de frustração, raiva", explica. "Reprimir e negar emoções apenas as torna mais fortes. Somos seres humanos que sentem toda a gama de emoções, desde a tristeza, raiva, até à satisfação e alegria."

Fernando Magalhães destaca a tal questão dos polos e do papel de cada emoção. "Todas as emoções têm um papel na vida e precisamos da tristeza, para em comparação, perceber a alegria. Precisamos do medo para nos afastar de perigos e da tristeza para nos indicar o que é importante fazer; da alegria para nos impulsionar a algo, por isso todas as emoções devem ser compreendidas e levadas em consideração."

O positivismo tóxico agrava a ansiedade

Faz sentido: estar ansioso e reprimir a ansiedade só pode resultar em mais ansiedade. "A aceitação da ansiedade é crucial para a reduzir", diz. Há que, no entanto, distinguir: aceitar não é rejeitar uma solução. "Aceitar não é resignação, é reconhecer que há sensações físicas e emocionais, é deixar que elas passem livremente no corpo, sem qualquer repressão, até que comece a baixar."

Temos de nos permitir sentir. "Aceitar é não ter vergonha ou culpa da ansiedade, é autorizar-se a sentir, a deixar chegar a emoção, para depois a deixar partir."

Mas em quadros livres de ansiedade também há consequências do positivismo tóxico.

1. Gera mais tristeza. "A negação, repressão, ou vergonha de emoções mais negativas vai provocar mais tristeza, culpa e vergonha."

2. É um obstáculo para as questões que têm de ser resolvidas. "As emoções existem com uma finalidade, dão um sinal para algo que precisa ser feito na vida, ou para chamar a atenção para algo."

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2. Bloqueia o desenvolvimento da inteligência emocional. A inteligência emocional é a nossa capacidade de reconhecermos aquilo que estamos a sentir, consegui distinguir emoções — nossas e dos outros — e de conseguirmos digerir aquilo que sentimos.

Esta é uma capacidade que se desenvolve com a vida, na reflexão das experiências que vamos acumulando. O positivismo tóxico é um inimigo à sua evolução, diz o psicólogo.

"Esta atitude não permite desenvolver a inteligência emocional, pois nega-se uma boa parte da vivência humana e pode criar distanciamento entre as pessoas, pois podem fingir estados emocionais, evitando uma empatia verdadeira entre as pessoas — como se as relações ficassem superficiais."

3. Pode afastar as pessoas. "Se estamos a criar uma falsa imagem,  excessivamente positiva, [o positivismo tóxico] também poderá afastar as pessoas, já que estas não se vão sentir confortáveis, vão-se inibir de expressar coisas negativas, ao compararem-se com alguém 'sempre' realizado", explica. Preferimos pessoas 'imperfeitas', que mostram vulnerabilidades, tal como nós, porque isso cria um maior à vontade para nas relações pessoais expressarmos tudo o que podemos sentir."

4. Pode fazer mal à saúde física. Reprimir o sofrimento é aumentá-lo e prolongá-lo. "A tristeza prolongada pode provocar problemas cardiovasculares, reduzir a eficácia do sistema imunitário e ficar mais vulnerável a doenças."

De onde é que vem a onda do positivismo tóxico?

Em primeiro lugar, é preciso distinguir. Uma coisa é a psicologia positiva, outra é o positivismo tóxico. “Há uma diferença abismal entre psicologia positiva, um ramo de estudo da psicologia como ciência, e o tipo de positivismo tóxico, promovido, em geral por não-psicólogos."

É que, contrariamente ao tóxico, da psicologia positiva fazem também parte as emoções mais negativas. “A psicologia positiva estuda o modo de pessoas viverem vidas mais felizes e realizadas e isto inclui o sofrimento como parte integrante da vida. Em média, sentimos 3 emoções positivas para cada negativa, isto é a vida real."

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O surgimento e crescimento do coaching pode ter, segundo o psicólogo, contribuído para o aumento desta corrente que nos diz que o pensamento positivo é a chave da felicidade. "Acredito que este conceito cresceu porque, repentinamente, surgiram 'coaches' e outras pessoas sem formação nem habilitações na área da psicologia, que juntamente com um marketing muito agressivo, divulgam intensamente um conjunto de ideias disparatadas, pseudo-científicas, que criam a ilusão do pensamento positivo que permitiria conseguir tudo na vida", considera.

"Há empresas que fazem formações de três dias e prometem desbloquear todas as crenças limitadoras para conseguir tudo na vida. Vejo muitas mensagens do género: 'Basta ser muito positivo, abandone crenças bloqueadoras e irá ter abundância na vida'. Se as coisas correm mal é porque não foi positivo que chegue."

 Estas ideias foram-se enraizando no senso comum, fazendo com que não fossem questionadas. Mas vale a pena perguntar: isto faz sentido? Esta pessoa é credível?

"Como em tudo, as pessoas precisam analisar bem aquilo que estão a comprar ou acreditar. Num tema tão importante como a saúde mental, deviam verificar se aquela pessoa que fala de emoções, de pensamentos, da mente, é de facto qualificada em saúde mental, se é um psicólogo ou psiquiatra licenciado e inscrito na Ordem dos Psicólogos ou dos Médicos."

 Uma formação de três dias na área da psicologia não tem como resultar. Não há métodos flash. "Psicoterapia é uma área muito complexa, de formação que dura vários anos e que permite compreender o processo mental — que inclui todas as emoções."

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