Estima-se que, em Portugal, cerca de 2,5 milhões de mulheres já estejam na fase da vida onde o período deixa de ser problema, mas vêm outros tantos atrás: a menopausa. Conhecida pelas inconstantes que carrega e assinalando o fim da fertilidade, a verdade é que esta é uma fase perfeitamente normal na vida de uma mulher, mas ainda há muitos que a veem como um bicho de sete cabeças. No entanto, basta descomplicar.
“A menopausa é um diagnóstico clínico, o que muita gente desconhece”, começa por dizer Maria Ana Kadosh, especialista em medicina geral e familiar, à MAGG. “Ou seja, é um diagnóstico que se faz após uma mulher estar sem menstruar durante 12 meses e que não haja nenhuma causa identificada que justifique essa ausência de menstruação. Nós definimos a menopausa como a última menstruação."
Mas não é só isto. Na verdade, a fase da menopausa é constituída por três fases de transição, sendo elas a perimenopausa, a menopausa e a pós-menopausa. Como os nomes indicam, estas acontecem antes, durante e depois, deixando claro que não é um diagnóstico que vai simplesmente desaparecer. É algo que fica com a mulher, e é algo com que tem de se aprender a lidar.
“Chamamos de perimenopausa à fase que, no fundo, antecede a menopausa e na qual as mulheres já podem sentir muitos sintomas que se relacionam, essencialmente, com a diminuição dos níveis de estrogénios, que é uma hormona sexual feminina e que é essencial para a saúde reprodutiva e para a regulação do nosso ciclo menstrual”, explica a especialista. Ou seja, a perimenopausa surge na transição com menstruação irregular, enquanto que a menopausa é então o marco de 12 meses e a pós-menopausa e já depois dessa data.
Os sintomas da menopausa
Contudo, Maria Ana Kadosch acrescentou que é ainda na primeira fase que chega o sintoma mais reportado de todos: os afrontamentos. “Os estrogénios também têm outras funções no bem-estar físico e mental da mulher, e por isso é que existindo uma queda muito grande destes estrogénios, começam a aparecer sintomas como os suores e os afrontamentos, e eles podem, muitas vezes, prolongar-se na pós-menopausa”. Este é um sintoma que afeta 70% das mulheres, e pode acontecer até 10 vezes num só dia.
Mas não são os únicos. Numa primeira fase também existem alterações no sono, na memória e até na concentração, podendo existir “uma diminuição na memória verbal” e até “um aumento do risco de depressão”. Já na menopausa, os sintomas incluem “a secura, irritação da vagina, possíveis infeções urinárias e a diminuição da líbido”. Este é um sintoma raramente falado por vergonha de quem o tem, mas deixamos claro: não é a única.
“Muitas mulheres não associam. Acham que perderam o líbido porque estão sobrecarregadas com a dinâmica familiar ou dinâmica profissional. Há muitas perturbações no orgasmo e dor nas relações sexuais e há estratégias terapêuticas e do estilo de vida que podem ser adotadas e, portanto, é importante que as mulheres falem sobre isto em consulta”, explicou a especialista.
E além de todos estes sintomas, também existem complicações que podem chegar tarde, e que são realmente muito importantes para se ter em consideração. “A primeira são as complicações cardiovasculares, porque a principal causa de morte após a menopausa é por causa vascular, e é fundamental que haja neste período uma atenção redobrada. E depois, sem dúvida alguma, ao haver uma queda dos estrogénios, temos também um aumento do risco de doenças como, por exemplo, a osteoporose”, disse Maria Ana Kadosh.
As mudanças e a vida saudável
No entanto, não é só por dentro que existem alterações - e não estamos a falar do físico das mulheres. Falamos de momentos como o desempenho profissional ou as relações com os outros, que muitas vezes ficam esquecidas e são fundamentais. “As relações sociais saudáveis são um dos pilares mais importantes, porque aquilo que os estudos nos mostram é que as mulheres que têm boas relações não só são mais felizes, como são fisicamente mais ativas e vivem mais anos."
“E aquilo que nós sabemos é que as mulheres que não estabelecem tão boas relações à sua volta têm um aumento do risco de AVC, de doenças cardiovasculares, menor densidade mineral óssea e aumento de mortalidade por todas as causas”, acrescenta a especialista. Ou seja, o objetivo aqui, assim como noutros casos que não na menopausa, é criar um estilo de vida saudável e confortável.
Para Maria Ana Kadosh, que tem um certificado internacional em medicina do estilo de vida, este objetivo incide em seis pilares: alimentação saudável, atividade física regular, evição de substâncias nocivas, saúde do sono, gestão do stresse e relações sociais saudáveis. “Isto são os seis pilares que nós trabalhamos numa consulta de medicina do estilo de vida para, no fundo, otimizar a saúde e o bem-estar da mulher que está a passar por uma perimenopausa ou por uma menopausa."
“No caso da alimentação, é importante que as mulheres percebam que a dieta mediterrânea tem efeitos muito benéficos não só ao nível da melhoria do humor, na melhoria dos sintomas depressivos, mas também na redução do peso, da pressão arterial e do colesterol, assim como faz efeito protetor contra doenças cardiovasculares”. Já no caso da atividade física, esta é fundamental para “reduzir a inflamação no tecido adiposo e no músculo”, uma vez que a menopausa altera a composição corporal.
“Outra coisa que as pessoas desconhecem é que a severidade dos sintomas aumenta muito com a ingestão de bebidas alcoólicas. A parte do sono também é fundamental porque a diminuição dos estrogénios aumenta o cortisol e diminui a melatonina, o que leva a distúrbios, e o stresse também tem de ser controlado. Aqui, promovemos algumas técnicas de relaxamento como o mindfulness, sem esquecer a psicoterapia”, remata.