Do 4.º para o 5.º ano muda tudo. Professora e psicóloga explicam como ajudar as crianças nesta transição de ciclo

A entrada para o 5.º ano pode ser desafiante devido a muitas mudanças. A MAGG questinou uma psicóloga clínica e uma professora sobre como se pode tornar a transição mais tranquila.

A transição do 4.º para o 5.º ano é, para muitas famílias, um dos momentos mais desafiantes do percurso escolar dos filhos. Deixam de ter só um professor e passam a ter vários, assim como disciplinas, muitos deles mudam de escola, ganham uma carga horária maior e têm de aprender, sozinhos, a gerir uma autonomia que nunca lhes tinha sido exigida.

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Se para os adultos a mudança de escola pode parecer uma adaptação relativamente simples, para uma criança de 9 ou 10 anos a realidade pode ser bastante diferente. O 5.º ano representa uma espécie de quebra com aquilo que conhecem e, a isto, acresce ainda uma expectativa que nem sempre é fácil de gerir. Muitos alunos chegam ao segundo ciclo com a ideia de que tudo será mais difícil, de que terão mais trabalhos de casa ou de que vão ter de se desenrascar sozinhos.

Mesmo quando a criança está entusiasmada com a mudança, essa mistura de curiosidade e receio pode manifestar-se através de comportamentos que os pais nem sempre associam imediatamente à ansiedade. É por isso que a preparação não deve começar apenas no primeiro dia de aulas. Criar rotinas, antecipar aquilo que vai mudar e dar espaço para que a criança fale sobre os seus medos são algumas das estratégias que podem facilitar a adaptação.

Mas perceber onde termina o nervosismo natural e começa uma ansiedade que merece atenção também é importante – e é precisamente aí que entram os sinais a que pais e professores devem estar atentos. A MAGG falou com Micaela Gonçalves, psicóloga clínica da Academia Transformar, e com a professora Ana Mangericão para perceber como é que esta fase pode ser vivida com mais tranquilidade.

“Ser desconhecido é visto como perigoso”

Micaela Gonçalves, psicóloga clínica na Academia Transformar, olha para esta transição do ponto de vista emocional. Segundo a psicóloga, é comum que as crianças fiquem mais apreensivas, durmam pior e fiquem fisicamente mais agitadas, além de apresentarem muitos pensamentos excessivos sobre o que as espera.

“Se a criança não é normalmente ansiosa e depois começa a apresentar estes comportamentos perto da altura de voltar à escola, em que vai haver esta transição, então não é normal, e nós temos que perceber o que é que está a passar com eles”, alerta a especialista.“Porque é isso que provoca a ansiedade, é eles sentirem que estão num ambiente desconhecido para eles, e ser desconhecido é visto como perigoso”, resume.

Micaela Gonçalves, psicóloga clínica, Academia Transformar

Já Ana Mangericão, professora dos primeiro e segundo ciclos, já viu de perto o impacto da mudança do 4.º para o 5.º ano. “Deixam de ter apenas um professor, ou vá, poucos professores, quando, ali no 4.º ano, já têm mais do que um, vão passar a ter um professor por disciplina”, explica a docente, acrescentando que a mudança está associada também a uma troca de escola e de horário.

“No 5.º ano muda muita coisa e, portanto, para além de estarem muito ansiosos, sentem-se também um bocadinho perdidos e precisam aqui de uma orientação”, descreve, referindo-se aos primeiros dias de um aluno vindo do quarto ano. É por isso que sublinha que “é muito importante, aqui, o diretor de turma ou algum professor fazerem a integração desses alunos”.

Na opinião de Ana Mangericão, a preparação para esta mudança devia começar antes da entrada dos mais novos no segundo ciclo. “Ainda no 4.º ano, o professor preparar aos bocadinhos aquilo que vai ser a entrada no segundo ciclo. A nível de organização do estudo, eles aprenderem a tirar apontamentos, a fazer esquemas, a sublinhar informação importante, porque, depois, no segundo ciclo, já se pressupõe que todos os alunos saibam fazer isso com autonomia e isso nem sempre acontece”, continua.

Ana Mangericão, professora

Quais são os sinais a que os pais devem atentar?

Dores de barriga, dores de cabeça e falta de apetite são os sinais a que os pais devem estar atentos, sobretudo quando o sono também começa a ser afetado. “Geralmente, [se não dormirem bem], é porque não se estão a sentir bem psicologicamente”, frisa a psicóloga, dizendo que o principal motivo nesta fase é, efetivamente, o confronto com o desconhecido, como escolas maiores, professores diferentes e uma autonomia nova.

“Porque é isso que provoca a ansiedade, é eles sentirem que estão num ambiente desconhecido para eles, e ser desconhecido é visto como perigoso“, resume. A solução passa por preparar a criança com antecedência: falar sobre as mudanças que vão acontecer, visitar a escola antes do início das aulas e regularizar gradualmente os horários de sono, para que o organismo já esteja ajustado quando as aulas começarem.

“Uma criança que não dorme bem, não aprende bem”, sublinha, acrescentando que a privação de sono também reduz a capacidade da criança para regular as próprias emoções. Nesta faixa etária, entre os nove e os dez anos, recomenda-se que durmam entre nove e 11 horas por noite.

Mas os sinais vão para além da manifestação física

Além dos sintomas físicos e das alterações no sono, há outros comportamentos que podem indicar que a adaptação não está a correr bem. Um deles é a criança fechar-se em relação ao que se passa na escola, recusando-se a falar sobre o assunto ou reagindo com irritabilidade a perguntas simples sobre o dia, explica a especialista.

Outro é precisamente o oposto: um foco excessivo e desequilibrado nas atividades académicas, deixando pouco espaço para o tempo livre e o convívio. Isto é algo que os pais não devem incentivar – retirando o filho de atividades extracurriculares só para “compensar” com mais estudo, por exemplo –, já que isso tende a gerar mais desmotivação do que resultados. A descida das notas é também um sinal a levar a sério, tal como o feedback preocupado dos professores, que deve ser encarado como ajuda e não como um julgamento aos encarregados de educação.

Como é que os pais podem ajudar?

Micaela Gonçalves sublinha ainda um erro comum dos pais: por vezes, tentarem relativizar demasiado a situação, dizendo “que está tudo bem, vai ser tudo bom, tudo fantástico”, quando o mais eficaz é validar o que a criança sente. “Realmente é uma mudança. É normal que eles estejam um bocadinho ansiosos. Está tudo ok com isso”, afiança.

Segundo a especialista, dizer à criança que não há motivo de preocupação pode fazer “com que elas sintam que estão a invalidar o que eles sentem”. Trocando por miúdos, a psicóloga diz que as crianças podem pensar que “o que estão a sentir naquele momento não faz sentido” e que isso, posteriormente, “faz com que reprimam o que estão a sentir porque acham que não é válido“. Portanto, o objetivo é parar, escutar, compreender e ajudar os mais pequenos.

Atividades como “lavar logo os dentes de manhã, tomarem banho, arranjarem o cabelo, começarem a tomar um pequeno-almoço à hora que é suposto, ajudarem a pôr a mesa”, segundo a psicóloga clínica, podem ajudar na autonomia dos mais pequenos de modo a que estes também estejam integrados na rotina em casa e, consequentemente, isso os ajude a construí-la para as situações do exterior.

“Não há escola sem pais”

A professora acrescenta que, quando surgem sinais de ansiedade, o primeiro passo deve ser sempre falar com o próprio aluno. “Devemos primeiro tentar falar com o aluno, tentar perceber o que é que se está a passar e de que forma é que nós podemos ajudar”, explica Ana Mangericão, dizendo que só quando a situação persiste é que os professores devem envolver os pais e, em último caso, o psicólogo da escola.

Quanto ao papel dos encarregados de educação, Ana Mangericão é clara: “não há escola sem pais”. Por isso, reforça que a comunicação constante entre a escola e a família é essencial para perceber a tempo se algo não está a correr da melhor forma.

Se os filhos sentem ansiedade nesta fase, muitos são os pais que não ficam descartados dessa equação. O medo da não adaptação, de que os miúdos se sintam sozinhos numa escola nova ou que não consigam acompanhar o novo ritmo é, também uma fonte de ansiedade para quem está do outro lado. Sendo uma transição nova também para muitos pais, sobretudo quando é a primeira vez que se deparam com esta realidade, o receio de não saber como ajudar pode ser tão real quanto o dos próprios filhos. A melhor forma de o gerir passa por manter uma comunicação aberta com a escola e com a criança, em vez de enfrentarem sozinhos esta nova fase e, claro, se não resultar, procurar ajuda médica.

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