40 capítulos, filmada no Rio de Janeiro e com uma história verídica sobre o empoderamento da mulher. Foi como "Dona Beja" chegou ao catálogo da HBO Max no início deste mês de fevereiro, sabendo como conquistar o público todo logo desde o primeiro momento - isto porque a série brasileira encontra-se desde aí nos primeiros lugares das produções mais vistas. Com Rita Pereira no elenco, uma das portuguesas a fazer parte desta história à frente do ecrã, e depois de meses vividos no Brasil, a sua personagem ganha assim finalmente asas.

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“Dona Beja” conta a história verídica de Ana Jacinta de São José, mais conhecida como Dona Beja, uma cortesã brasileira do século XIX que revolucionou as mentalidades conservadoras e quebrou muitos tabus. Bastante feminista, a cortesã lutou muito pelos direitos das mulheres perante uma sociedade patriarcal, e a história envolve-se então num enredo transformador e poderoso sobre o papel da mulher. A personagem de Rita Pereira é Siá Boa, filha de mãe indígena e pai português que sai de casa para tentar encontrar a mãe, mas a vida troca-lhe as voltas.

"O que mais me atraiu na Siá Boa foi, desde o início, a força silenciosa dela", começou por dizer a atriz à MAGG. "É uma jovem que nasce entre dois mundos, com uma identidade muito complexa, e que cresce com essa sensação de não pertencer totalmente a lado nenhum. Ela sai de casa à procura da mãe, mas, no fundo, está à procura de si própria, do seu lugar no mundo. Mesmo quando a vida não lhe corre como ela sonhava, a Siá não desiste, não se vitimiza, ela adapta-se, aprende, cai, levanta-se e continua", explicou Rita Pereira.

E quando a vida não lhe corre bem, falamos mesmo de ter de recorrer a situações mais complexas para conseguir sobreviver. Siá Boa torna-se prostituta numa taberna depois de chegar ao Brasil vinda de Portugal, e tudo aquilo com que sonhou parece que vai cair por água abaixo. "A Siá vive emoções muito intensas, ela ama, sonha, sofre, perde, reencontra-se, ajuda, compreende o outro, tudo num curto espaço de tempo. O mais exigente foi encontrar verdade em cada fase, sem dramatizar em excesso nem simplificar", disse a atriz.

No entanto, o foco da personagem não está no que ela passou, e sim no que ela está prestes a viver: mais tarde, Dona Beja apaixona-se pela essência de Siá Boa e resgata-a da taberna, deixando que a jovem começa-se a trabalhar para ela. Isto traz, claro, uma grande volta na história da jovem luso-brasileira, e o segredo, como explicou Rita Pereira, é mesmo não romantizar o seu sofrimento - a história da personagem é muito mais do que isso. "As dificuldades que ela enfrenta são duras e reais, mas a série não fica presa a isso. O foco está na forma como ela resiste, como continua a acreditar".

E por falar em apaixonar, é claro que Siá Boa também vai ter a sua dose, ficando encanta com um dos protagonistas. No entanto, quando pensa que o amor aconteceu, descobre algo importante que dá novamente a volta à sua história, mas sem nunca perder a esperança de um dia casar e ser feliz. "A Siá tem a capacidade de passar do amor à amizade profunda por respeito ao Fortunato. A relação com a Dona Beja mostra exatamente isso, mesmo nos contextos mais difíceis, ainda existe afeto, cuidado, proteção e um enorme empoderamento feminino", disse.

Mas os grandes méritos da série são outros: mesmo tendo como fundo o século XIX, temas como o feminismo, a igualdade, a identidade, a homossexualidade e as pessoas transgénero são dos mais importantes, deixando claro que desde esta altura que a luta tem vindo a crescer. Isto acaba também por aproximar o público desta geração, que também continua a lutar por todos os seus direitos. "A Siá vive na pele o que é ser vista como 'diferente', como é ser julgada antes de ser conhecida. Isso faz-nos refletir sobre preconceitos que ainda existem hoje", começou por dizer.

"Enquanto mulher, identifico-me muito com a luta por espaço, por voz e por respeito. O feminismo, para mim, é exatamente isso, a liberdade de sermos quem somos, sem termos de pedir licença. Enquanto artista, sinto que é importante dar voz a estas histórias, porque elas ajudam-nos a crescer como sociedade. É um exercício de empatia e consciência. Não é só representar, é honrar histórias que foram silenciadas durante muito tempo", continuou Rita Pereira, acrescentando que "Dona Beja" pode mesmo vir a gerar "identificação, reflexão e, sobretudo, mais respeito".

Assim, a nova série da HBO Max afirma-se como um retrato intenso de resistência, identidade e transformação, combinando drama histórico com temas profundamente atuais - que já eram, na verdade, temas prioritários na altura. Grazi Massafera é quem dá vida a Ana Jacinta, a conhecida Dona Beja, e do elenco fazem parte nomes de peso como David Junior, Bianca Bin, Deborah Evelyn,  André Luiz Miranda, Pedro Fasanaro, Indira Nascimento, Otavio Muller, Isabela Garcia e muito mais. Virgílio Castelo, Joana Solnado e Pedro Carvalho são os outros portugueses no elenco.

Espreite as fotos da série.