Envelhecer não é só ter rugas. 5 perguntas para perceber o que muda (e o que a medicina estética pode fazer)

A ideia de que a medicina estética serve apenas para apagar rugas está cada vez mais ultrapassada. Para perceber o que realmente acontece ao rosto com o passar dos anos, respondemos a cinco perguntas essenciais com a ajuda de quem percebe do assunto.

Já lá vai o tempo em que a conversa em torno da medicina estética era dominada pela ideia de corrigir rugas, devolver volume, disfarçar sinais de cansaço e, sobretudo, aproximar o rosto de uma versão mais jovem. Ao que tudo indica, a narrativa está a mudar, porque, embora o fantasma do envelhecimento continue a pairar sobre grande parte das pessoas, a própria ciência passou a olhar para este processo com todas as ramificações que acarreta e a centrar-se menos na aparência somente.

Afinal, envelhecer continua a ser inevitável e a forma como cada pessoa escolhe viver essa mudança é, sobretudo, individual. Há quem encare cada ruga como parte da própria história e nunca sinta vontade de recorrer a qualquer tratamento, mas há também quem prefira ter mais acompanhamento profissional e mitigar algumas das alterações do rosto ou da pele, procurando preservar características com as quais sempre se identificaram e que não querem perder. E nenhuma destas escolhas deve ser mais suscetível a julgamento do que a outra.

O papel da medicina estética não é, portanto, determinar por qual desses caminhos deve seguir – porque, repetimos, trata-se de uma escolha individual –, mas informar, orientar e oferecer opções a quem as procura, pelo que essa mudança de paradigma acompanha também a evolução da própria especialidade. Ou seja, se durante muitos anos o foco esteve na correção dos sinais mais visíveis do envelhecimento, hoje a medicina estética está a seguir outro rumo. E quem o diz é Andreia Casimiro, médica especialista em Medicina Estética, da MP Clinic, em Cascais.

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Hoje, a medicina estética tornou-se mais acessível, mais segura e muito mais preventiva“, explica a especialista, acrescentando que a evolução científica viabilizou o desenvolvimento de tratamentos, que, muito mais do que corrigir sinais de envelhecimento, “estimulam os mecanismos naturais de regeneração do organismo”. Entre eles estão, por exemplo, os bioestimuladores de colagénio e outras terapias regenerativas, cujo objetivo é melhorar gradualmente a qualidade da pele, a firmeza e a elasticidade.

E Nicole Fernandes, sócia e diretora-executiva da clínica, confirma-o, dizendo ainda que esta forma de olhar para a medicina estética esteve presente desde o primeiro dia. “Sempre acreditámos numa abordagem natural, onde o objetivo é realçar aquilo que cada pessoa já tem de bonito, e não alterar a sua identidade”, diz à MAGG, defendendo que as melhores práticas são aquelas em “que as pessoas olham para alguém e pensam: ‘Está com ótimo aspeto’, sem conseguirem perceber exatamente porquê”.

Mas, afinal, o que significa realmente envelhecer? Será que tudo se resume às rugas? A medicina estética serve apenas para parecer mais novo? Existe uma idade certa para começar a prevenir os sinais do tempo? E haverá situações em que a melhor decisão é, simplesmente, não fazer nada? Estas são algumas das questões que ajudam a perceber como a forma de encarar o envelhecimento está a mudar e o que a medicina estética pode (ou não) fazer neste processo.

O envelhecimento tem que ver só com rugas?

É habitual, quando o tópico incide sobre o envelhecimento cutâneo, que se pense imediatamente em rugas. No entanto, é algo bastante redutor, já que, do ponto de vista biológico, estas pequenas marcas que residem, a partir de certa idade, na nossa pele são o reflexo de todo um processo bastante mais complexo que está a acontecer anos antes e do qual, muitas vezes, não damos conta.

“O envelhecimento do rosto acontece de forma gradual e envolve todas as as suas camadas, não apenas a pele”, explica Andreia Casimiro, explicando que, à medida que os anos passam, o tecido ósseo sofre reabsorção, os compartimentos de gordura alteram-se e perdem sustentação, assim como alguns músculos, que vão perdendo a tonicidade ou, pela sua contração repetida, dão origem às rugas de expressão.

Achava que a lista ficava por aqui? Desengane-se. Paralelamente, a produção de colagénio e elastina diminui, o que faz com que a pele fique mais fina, menos firme e menos elástica. “É por isso que o envelhecimento facial deve ser entendido como um processo tridimensional, que envolve todas as estruturas do rosto e não apenas a superfície da pele“, acrescenta a especialista.

Andreia Casimiro, médica especialista em medicina estética (OMD 13568)

Na prática, isto significa que os primeiros sinais nem sempre são aqueles que imaginamos, porque, antes de surgirem rugas profundas, é comum perder-se luminosidade, hidratação e firmeza. O rosto pode ficar com um aspeto mais cansado, mesmo depois de uma noite de sono espetacular, e pequenas alterações nos volumes faciais começam a modificar subtilmente a expressão. “Estas mudanças acontecem de forma gradual e, por isso, passam frequentemente despercebidas até serem comparadas fotografias de alguns anos antes“, admite a médica.

É precisamente por isso que a conversa sobre envelhecimento deixou de estar exclusivamente centrada em “apagar rugas”, porque compreender como o rosto muda permite perceber que nem sempre a resposta é preencher ou corrigir. Em muitos casos, pode simplesmente ter que ver com cuidar da qualidade da pele, estimular os mecanismos naturais de regeneração ou, inclusivamente, optar por não fazer qualquer tratamento. O ponto de partida é sempre o mesmo: conhecer o processo antes de tomar uma decisão.

O objetivo é parecer ter menos idade?

O mito que dizia que a medicina estética procura “voltar atrás no tempo” também não corresponde à realidade, segundo Andreia Casimiro. “Do ponto de vista médico, envelhecer bem não significa não envelhecer. Significa preservar a saúde e a função dos tecidos ao longo do tempo, minimizando os efeitos do envelhecimento de forma natural”, reitera.

A médica sublinha que o objetivo não passa por transformar um rosto nem por apagar todas as rugas, mas por manter uma aparência saudável, equilibrada e em harmonia com a idade de cada pessoa, respeitando sempre a sua identidade. Esta é uma visão com a qual Nicole Fernandes concorda, sendo que, para ela, também nunca foi sobre o que acontece à frente do espelho.

[Envelhecer] Não significa querer parecer ter 20 anos para sempre, mas sim chegar a cada idade com saúde, autoestima, confiança e qualidade de vida“, explica. Isso implica olhar para o envelhecimento de forma integrada, cuidando da pele, mas também da saúde física, da saúde mental, da alimentação, do exercício, do descanso e das relações. Este processo será bem sucedido se for sinónimo de que sejamos capazes de “olhar para o espelho em qualquer fase da vida e sentir orgulho na pessoa que somos, sabendo que estamos a cuidar de nós por dentro e por fora”.

A par disso, defende a dupla, a medicina estética não deve ditar a forma como cada pessoa vive o envelhecimento. Deve, antes, acompanhar quem escolhe recorrer à mesma, respeitando aquilo que torna cada rosto único. É precisamente essa mudança de perspetiva que está a redefinir a especialidade, porque, em vez de o objetivo final ser a perseguição de uma juventude utópica, procura ajudar cada pessoa a continuar a reconhecer-se ao espelho.

“O objetivo é valorizar os traços naturais do rosto, evidenciar os seus pontos fortes e atenuar alguns sinais de envelhecimento, sem alterar quem somos. A ideia é harmonizar, e não transformar”, garante Andreia Casimiro. Já Nicole Fernandes, estando a par do perfil de pacientes que procuram a sua clínica, admite que estes sabem que lá não se fazem “transformações exageradas”, existindo antes uma “procura recuperar características que o tempo foi alterando, para que a paciente volte a olhar para o espelho e sinta que se reconhece”.

A prevenção é a melhor aliada?

A medicina estética só faz sentido quando os sinais de envelhecimento já são muito evidentes é uma ideia que está, segundo Andreia Casimiro, desatualizada. Tal como acontece noutras áreas da medicina, a prevenção pode permitir preservar durante mais tempo a qualidade dos tecidos e reduzir a necessidade de intervenções mais invasivas no futuro. Isso não significa, porém, que exista universalmente uma idade “certa” para começar a pensar sobre este assunto e, consequentemente, agir.

“Cada pessoa envelhece de forma diferente”, explica a médica. Embora alguns tratamentos preventivos possam “fazer sentido entre os 25 e os 30 anos”, a decisão depende sempre das características individuais, dos objetivos e da existência de uma indicação clínica. Em muitos casos, é nesta idade que se deve considerar ter uma primeira consulta, sendo que esta serve, sobretudo, para esclarecer dúvidas e perceber quais são as melhores estratégias para promover um envelhecimento saudável.

Aliás, em muitos casos, a consulta de avaliação até é útil para que as pessoas cheguem à conclusão de que a prevenção não tem que envolver necessariamente uma panóplia de procedimentos. Para pessoas mais jovens, um público que já começa a ter curiosidade sobre isto cada vez mais cedo, acrescenta a especialista, aquilo que pode fazer verdadeiramente diferença continua a ser uma rotina de skincare adequada, proteção solar diária e hábitos de vida saudáveis. 

Quando existe indicação, a abordagem é, obviamente, personalizada. E quais são os procedimentos mais procurados e aconselhados? Bem, Andreia Casimiro fala de “toxina botulínica, para prevenir e suavizar as rugas de expressão, sobretudo no terço superior do rosto”. Depois, há também “os bioestimuladores de colagénio e os biorremodeladores, que melhoram a firmeza e a qualidade da pele”, aos quais se juntam “os polirevitalizantes, que promovem hidratação e luminosidade”. No que diz respeito a “repor volumes e restaurar harmonia facial”, isso fica a cargo do ácido hialurónico.

Então, às vezes, o melhor é não fazer nada?

Numa clínica de medicina estética, esperar que um profissional recomende não realizar um procedimento pode ser uma ideia, à primeira vista, contraditória. No entanto, é precisamente nessa capacidade de estabelecer limites que Andreia Casimiro e Nicole Fernandes acreditam residir uma parte importante da responsabilidade médica. Afinal, numa área onde a procura cresce e as tendências mudam rapidamente, o papel do profissional não passa por responder automaticamente aos pedidos de quem entra no consultório, mas por avaliar se existe, de facto, benefício clínico em intervir.

Essa avaliação começa muito antes de qualquer tratamento, uma vez que implica compreender as motivações da pessoa, gerir expectativas e explicar que nem todos os sinais de envelhecimento precisam de ser corrigidos, da mesma forma que nem todos os procedimentos são adequados para todos os rostos ou para todas as fases da vida. Em muitos casos, a consulta termina sem qualquer intervenção. “Às vezes, o melhor tratamento é aquele que escolhemos não fazer”, confirma Nicole Fernandes.

Nicole Fernandes, sócia e diretora-executiva da MP Clinic

Para a diretora-executiva da MP Clinic, o acompanhamento deve ser construído a longo prazo e assentar numa avaliação individualizada, em vez de seguir tendências ou responder a modas passageiras. “Não me interessa se, neste momento, toda a gente quer fazer preenchimento labial. Interessa-me perceber se aquela paciente beneficia realmente desse tratamento. Às vezes, a decisão mais correta é dizer-lhe, com toda a honestidade, que não precisa“, continua ainda.

É também essa capacidade de dizer “não” que, na perspetiva das duas responsáveis, distingue uma abordagem centrada na evidência científica de uma lógica puramente comercial. Quando existe uma indicação clínica, os tratamentos podem integrar um plano pensado para acompanhar o envelhecimento ao longo do tempo. Quando essa indicação não existe, a melhor decisão continua a ser preservar aquilo que já está bem, em vez de intervir apenas porque o procedimento está na moda.

As redes sociais mudaram a forma como olhamos para o envelhecimento?

À medida que a medicina estética se torna mais acessível e deixa de ser um tema tabu – até porque, como refere Nicole Fernandes, “durante muito tempo, muitos destes hábitos foram associados à vaidade” –, cresce também a procura por informação sobre envelhecimento e os tratamentos disponíveis. As redes sociais têm desempenhado um papel importante nessa mudança, mas nem sempre é fácil distinguir aquilo que assenta na evidência do que resulta apenas da modinha do momento.

“As redes sociais tiveram um impacto enorme”, reconhece Andreia Casimiro. “Por um lado, democratizaram o acesso à informação sobre medicina estética e saúde, permitindo que mais pessoas conheçam as opções disponíveis. Por outro, sinto uma preocupação cada vez mais precoce com o envelhecimento, sobretudo entre pessoas mais jovens”, continua. Ainda assim, garante, “mais informação é sempre algo positivo, desde que seja rigorosa, baseada na evidência científica e transmitida por profissionais qualificados”.

Na prática, essa influência chega diariamente ao consultório. Há pacientes que procuram esclarecimentos depois de verem um vídeo nas redes sociais, outros que chegam com referências muito concretas e alguns que carregam inseguranças alimentadas por imagens altamente editadas ou por padrões de beleza praticamente impossíveis de reproduzir na vida real.

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Para a médica, é precisamente aí que importa focar a conversa. “Não é o envelhecimento real que se tornou incompatível; é o ideal promovido pelas redes sociais que é irrealista“, afirma. “Quando se adota uma abordagem mais consciente, o envelhecimento pode ser perfeitamente compatível com a estética: aceita-se a evolução natural do rosto, intervém-se de forma proporcional e redefine-se a beleza ao longo do tempo. Ou seja, não se trata de negar a idade, mas de a acompanhar com naturalidade”, frisa.

Nicole Fernandes partilha essa preocupação e considera que o excesso de informação nem sempre ajuda quem procura respostas. “Toda a gente tem uma opinião e parece que toda a gente é especialista”, afirma. Num cenário em que surgem constantemente novas técnicas, produtos e tendências, defende também que o mais importante continua a ser procurar aconselhamento junto de profissionais qualificados. “É importante ser acompanhado pela mesma clínica e, idealmente, pelo mesmo médico, para existir um plano de tratamento consistente, seguro e adaptado a cada pessoa”, garante.

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