“O Que Resta”. Novo livro conta a história de amor entre uma avó e uma neta e o impacto do Alzheimer nessa relação

Mais do que uma história sobre perda, “O Que Resta”, de Bárbara Cardoso, trata-se de um retrato sobre aquilo que permanece, mesmo quando tudo o resto desaparece. Saiba tudo.

Créditos: @ricardo.vargues

Há livros que nascem de histórias inventadas e outros que parecem crescer a partir de algo mais íntimo. “O Que Resta”, de Bárbara Cardoso, pertence claramente a este segundo território: o da memória, da perda e das relações que nos moldam de forma silenciosa. Entre o vivido e o ficcional, a autora construiu uma narrativa que observa o impacto do Alzheimer não apenas em quem o enfrenta, mas sobretudo em quem permanece, e promete uma história arrebatadora. 

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No centro do livro está a relação entre Julieta e Sara, avó e neta unidas por um amor profundo e por uma convivência que ultrapassa o simples laço familiar. Mas entre as duas desenha-se um espelho emocional onde coexistem duas transformações: uma mulher que vai perdendo a memória e uma jovem que é forçada a crescer demasiado depressa. Desta forma, mais do que uma história sobre perda, trata-se de um retrato sobre aquilo que permanece, mesmo quando tudo o resto desaparece.

“A ideia já estava dentro da minha cabeça há muitos anos”, começou por explicar Bárbara Cardoso à MAGG. “Embora o livro não seja autobiográfico, baseei-me muito na minha experiência e naquilo que vivi enquanto adolescente, sobretudo através da minha avó”. A memória, acrescentou, tornou-se a palavra-chave de todo o processo criativo – não apenas como tema central do romance, mas também como ponto de partida para pensar a doença e o impacto que esta tem em quem rodeia quem a tem. 

Essa perspetiva de proximidade atravessa também a forma como a história é construída, até porque o livro centra-se precisamente em quem fica. “Acho que, acima de tudo, é a perspetiva que eu conheço melhor. Teria dificuldade em apropriar-me de um sentimento ou de uma experiência que não vivi”, continuou a autora. Assim, neste romance a perda é observada a partir de fora, do lugar de quem acompanha, cuida e tenta resistir ao desaparecimento gradual de quem sempre conheceu.

Ora, como já explicado, no coração da narrativa está a ligação entre Julieta e Sara, e a autora descreve esse vínculo como um paralelismo: enquanto uma vai perdendo a sua identidade, a outra ainda está a construí-la. Julieta surge como uma figura marcada por um passado difícil, e Sara, por outro lado, cresce sob essa sombra, mas carrega ainda a possibilidade da chegada de uma versão mais luminosa de si própria. “Quis deixar espaço para a possibilidade de a Sara se tornar uma versão mais leve de si”.

Essa dinâmica reflete-se também na forma como a autora define o próprio livro. Esta é uma história sobre aquilo que passa de umas pessoas para as outras e sobre “precisamente o que resta quando a pessoa que conhecemos e amamos vai deixando de ser quem era”. Ou seja, no centro acaba sempre por permanecer a ideia de transformação, não apenas da pessoa que adoece mas também de quem a acompanha, e o impacto do cuidado é, aliás, uma das dimensões mais presentes no livro. 

Na verdade, Bárbara Cardoso reconheceu que foi um tema inevitável, não só pela experiência familiar, mas também pela forma como a doença atravessa diferentes gerações. “No caso do livro, e também no que vivi, trata-se de uma doença que surge de forma precoce, que apanha famílias numa fase em que tudo ainda está a acontecer. Ter sido mãe deu-me uma nova perspetiva sobre o que é cuidar. No caso de um bebé, todos os dias ficam mais fáceis. No caso de uma doença como o Alzheimer, é o contrário”. 

No entanto, ao longo do romance, há algo que permanece sempre mesmo quando tudo parece desaparecer: os afetos. Essa persistência emocional foi, para a autora, uma das ideias centrais da obra. “Mesmo quando há perda de memória, existe algo que fica. Fica sempre uma ligação, uma sensação de reconhecimento”, disse. No fundo, aquilo que resta são as marcas invisíveis deixadas pelas relações, aquilo que se aprende com o outro e que continua a refletir-se na forma como se vive.

Assim, apesar da dureza do tema, o livro recusa a ausência de luz. A autora sublinha a importância de encontrar sempre algum tipo de beleza, mesmo nos lugares mais difíceis. “Procuro isso em tudo o que faço. Nas coisas felizes, a beleza já está lá. Nas mais difíceis, é preciso procurá-la um pouco mais”, explicou, acrescentando que é “através da escrita que conseguimos transformar momentos difíceis em algo que, de certa forma, também pode ser bonito”

No final de tudo, fica a ideia de atenção – atenção ao detalhe, àquilo que parece pequeno mas que, com o tempo, ganha outra dimensão. “Foi isso que me permitiu escrever este livro. Hoje olho para isso como uma forma de voltar a esses momentos com mais consciência.” E é aí que reside o coração de “O Que Resta”, deixando claro que, de certa forma, a pessoa que foi desaparecendo fica sempre connosco. 

Publicado pela Penguin Random House, “O Que Resta” de Bárbara Cardoso já está disponível e tem um custo de 14,99€. 

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