Depois do seu energético concerto n’O Sol da Caparica, Papillon falou com a MAGG sobre o seu percurso, e não escondeu o entusiasmo sobre o futuro. Leia a entrevista.
Há nomes que já não precisam de apresentação – e Papillon, nome artístico de Rui Pereira, é, hoje, um deles. Com um percurso que começou nas batalhas e no Grognation antes de se afirmar a solo, o artista de Mem-Martins tornou-se uma das figuras incontornáveis do rap português, e desde “Deekpak Looper” até “Wonder”, a sua música tem acompanhado um processo de transformação não só artística como pessoal. “Há sempre uma nova fase, é sempre de grau em grau, e eu vou subindo”, disse o artista à MAGG.
E no palco principal d’O Sol da Caparica, essa transformação parece particularmente evidente. Acabado de sair de uma atuação que deixou o público ao rubro, Papillon admitiu que, apesar dos anos de carreira, ainda há espaço para a surpresa. “Há sempre alguma coisa que te surpreende, alguma coisa a acrescentar. Hoje vi um cartaz a dizer ‘Cantas no meu casamento?’. São coisas que normalmente não estou à espera. São os cartazes, as mensagens que aparecem. É sempre bonito”, disse.
À sua frente estavam, na verdade, várias gerações de ouvintes. Há quem o acompanhe desde os tempos da Knock Out e dos Grognation, quem tenha crescido com as primeiras músicas a solo e quem tenha chegado agora, através do último álbum. “Já tenho canções com pelo menos oito anos, e sinto que há pessoas que estão a entrar agora e é bonito ver que há essa mistura. Também me dá um reforço de sentir que ainda estou aqui, porque aquilo que fiz se manteve no tempo e continua a dar frutos”.
É, no entanto, nesse ponto que surge uma das questões mais interessantes sobre a fase atual de Papillon: depois de já ter conquistado o seu espaço, estará o artista a viver uma espécie de segunda afirmação na carreira? “Não sei se é uma segunda afirmação, porque penso sempre que o meu trajeto é o mais difícil, o mais longo, mas sinto que também o é porque me predisponho para isso”. Está, portanto, disposto a fazer o que tiver de fazer e a ficar aqui o tempo que tiver de ficar para continuar o seu sonho.
“Quem gostar gostou. Quem quiser fazer parte desta caminhada, assim será. Não estou propriamente na luta por ter a maior quantidade de pessoas a ouvir-me. Quero que as pessoas certas façam parte, e sinto que há sempre uma nova fase na minha carreira”, continuou. Essa relação com o tempo talvez também explique a forma como Papillon olha para a transformação que atravessa a sua obra, uma vez que tudo tem como base a metamorfose e o crescimento pessoal.
“Tudo aquilo em que me estou a tornar é algo que já estava aqui, estava era apenas à espera do momento para ir saindo. Mas acho que cada concerto que dou e cada canção que faço é uma espécie de permissão que me dou a mim próprio para me tornar nesta evolução todos os dias. Vou-me transformando de concerto para concerto, de álbum para álbum, de canção para canção, e, ao mesmo tempo, parece que aquilo em que me sempre quis tornar era isto. Já estava aqui dentro. Aos poucos, vai saindo”, admitiu o artista.
E talvez uma das maiores mudanças tenha sido, precisamente, aprender a aceitar o lugar de artista. Papillon e Rui Pereira são, para ele, “exatamente a mesma pessoa”, mas assumir a palavra “artista” nem sempre foi confortável. “Para mim, um artista era alguém idolatrado, venerado, aclamado, e eu não me sinto necessariamente essa pessoa. Eu faço canções. É óbvio que adoro estar em palco e adoro conectar-me com as pessoas, mas não sou propriamente alguém que tenha o desejo de ser aclamado e venerado”.
“Mas, ao mesmo tempo, assumir essa identidade era muito importante para mim. Alinhar essa ideia de ser artista e não ter medo, não ter medo dessa atitude, desse risco, do poder e da responsabilidade que é ser artista. Pouco a pouco vou assumindo mais essa personalidade e vou-me tornando mais esse artista, e acho que hoje assumo muito mais o artista que sou do que assumia antigamente. E isso tem-me ajudado, na realidade. Dá-me permissão para fazer coisas que, se calhar, antigamente me deixavam mais acanhado”.
Aliás, é por isso mesmo que faz todo o sentido assumir que, nesta fase, Papillon quer juntar todas as peças que tem à sua disposição. Isto porque no concerto d’O Sol da Caparica, o artista decidiu incorporar um monólogo no final, que nasceu de uma ideia antiga sobre amor, desilusão e amor-próprio, para dar a conhecer todos os seus lados. Este foi uma espécie de poema apresentado no seu concerto no Coliseu dos Recreios, e a decisão de o levar até ao Parque Urbano da Costa da Caparica foi, sem dúvida, a mais acertada.
“Tenho muitas ideias, muitas ideias fragmentadas, e depois tento encontrar uma maneira de as juntar e fazer com que façam sentido. Correu muito bem no Coliseu e as pessoas continuaram a pedir. Foi um brinde para as pessoas que nos têm acompanhado. Acho que é uma maneira bonita de encerrar o concerto”, rematou. E uma coisa é certa: foi um dos concertos mais bonitos do primeiro dia de festival, com o público a vibrar com cada nota e um sentimento de orgulho completamente estampado na cara de Papillon.
