A nova aposta de ficção da SIC estreou-se esta segunda-feira, 14 de setembro, com Sara Barradas, Diogo Amaral e Sofia Ribeiros nos papéis principais. Eis o bom, o mau e o absolutamente inacreditável do primeiro episódio.
A nova novela da SIC estreou-se na antena da estação de Paço de Arcos. “Destino Maior” chegou com um elenco recheado de pesos pesados da representação portuguesa, como Sara Barradas, Sofia Ribeiro, Diogo Amaral, José Mata, Rita Blanco, Patrícia Tavares e Carolina Carvalho, que se constituem como os núcleos familiares das famílias (bem contrastantes) dos protagonistas.
“Destino Maior” arrancou com uma dupla de protagonistas marcante: este é o primeiro projeto que Sara Barradas protagoniza na SIC após anos de ligação à TVI, ao lado de Diogo Amaral e de Sofia Ribeiro no papel da grande vilã. E sim, como em quase todas as novelas, as personagens a que estes atores dão vida – Lúcia (Sara Barradas), Eduardo (Diogo Amaral) e a pequena Matilde (Luísa Bacalhau) – estão destinadas a cruzarem-se e a criarem uma linda família.
Como fãs de ficção nacional, já sabemos que as produções adoram um bom sobressalto, porém o primeiro episódio levou a fasquia da desgraça a um nível praticamente astronómico. Só na estreia, assistimos a agressões, um parto no meio do mato, bebés a morrerem, trocas clandestinas de recém-nascidos, assassinatos por empurrão nas escadas e até uma miocardite fulminante.
Pelo meio, sobrou tempo para vilãs dignas de ficção nacional, vício em raspadinhas e com demasiados reviravoltas a acontecerem em simultâneo, o que nos deixou a questionar se não teríamos mudado, sem querer, para um filme de terror da década de 80.
A premissa prometeu emoção, o elenco esforçou-se ao máximo, mas a quantidade de clichés acumulados em menos de uma hora de televisão é quase impressionante. Estivemos de olhos postos na estreia de “Destino Maior” e dizemos-lhe tudo o que funcionou (e o que deu vontade de rir).
1.Viagem ao passado, santinhas e violência doméstica
A novela abre com a clássica viagem no tempo até 2015. Lúcia (Sara Barradas) surgiu grávida num barco a rezar a Nossa Senhora dos Avieiros, num ambiente de puro dramatismo. Descobrimos rapidamente que o pai da criança é Samuel, o companheiro de Lúcia. E se a palavra red flag precisasse de um rosto, Samuel (José Mata) seria o modelo perfeito.
Depois de fingir arrependimento e mandar o clássico “não volta a acontecer”, Samuel passou das ameaças à violência física assim que se apercebeu de que Lúcia preparava uma mochila para fugir para Faro, numa tentativa de construir uma nova vida para si e para a sua filha.
Numa cena intensa, enquanto tenta escapar de Samuel, Lúcia ganha coragem, puxa de uma faca para se defender – viva o empoderamento e a coragem feminina – e consegue escapar para a rua, correndo freneticamente pelo mato. A nossa única dúvida científica é: como é que uma mulher em estado tão avançado de gravidez consegue dar um sprint digno de atletas olímpicos? O pânico faz milagres, efetivamente.
2. O efeito sonoro de desenho animado e os bombeiros atrasados
O realismo acaba por chegar quando as dores do parto desarmam Lúcia, a fazem parar e perder a faca. Samuel aproveita-se da fraqueza de Lúcia apanha a faca, e numa tentava de tentar agarrar Lúcia, acaba por desferir-lhe um golpe no braço.
A polícia surge entretanto, porém, Samuel consegue escapar e atira a faca ao mar – com direito a um efeito sonoro que parecia sair diretamente dos “Looney Tunes” – e mergulha no rio para escapar. A forma como o vilão reaparece ao emergir da água é uma homenagem não declarada aos clássicos do cinema de terror.

Com Lúcia a entrar em trabalho de parto no meio da vegetação, um dos agentes da PSP pergunta se já ligaram para os bombeiros. O colega responde que sim, mas avisa que a ambulância ainda vai demorar a chegar. Adoramos quando a ficção copia a realidade do Serviço Nacional de Saúde com este nível de ironia. O parto acaba por ser feito ali mesmo, no mato, com a ajuda de uma médica que por acaso passava na procissão.
3. A velhota da aldeia e a troca de bebés mais irrealista de 2015
Enquanto Lúcia dá à luz uma bebé saudável e desmaia de exaustão, fruto das agressões que sofreu por parte de Samuel, no hospital da região “Hospital Ribatejo” outra mulher, Mariana, enfrenta complicações graves após o parto. É aqui que surge Celeste, a madrasta agoirenta e bisbilhoteira de Lúcia, que, falida pelo vício nas raspadinhas, deve uns modestos 2 mil euros em donativos à igreja.
Depois de Samuel ser finalmente detido pela polícia no hospital – enquanto tentava tirar dos braços de Celeste (Rita Blanco) a filha e gritar a plenos pulmões que Lúcia e a bebé são dele, “vivas ou mortas” –, Celeste acaba por ficar com a recém-nascida enquanto aguarda pela operação de Lúcia.
Quando a bebé de Mariana acaba por morrer, Celeste tem a ideia brilhante de propor à mãe de Mariana uma troca de bebés. A justificação? Celeste não tem dinheiro para criar a criança caso Lúcia venha a falecer e a família de Mariana tem posses. É aquela clara dicotomia de ricos vs. pobres que os guionistas das novelas portuguesas tanto adoram explorar.
O mais impressionante é que alguém desta mesma equipa responsável pelo guião achou credível que, em pleno ano de 2015, uma bebé recém-nascida ficasse esquecida no corredor de um hospital ao colo de uma total desconhecida? Mais ainda: conseguiram mesmo convencer a enfermeira do serviço a alinhar no crime em troca do pagamento do lar de idosos da mãe? Que específico.
Celeste por sua vez quando se apercebe que Lúcia sobreviveu tenta recuperar a bebé, porém volta logo atrás quando recebe a transferência de 15 mil euros, enviada pela mãe da Mariana. Afinal, a ética tem um preço – que, com as rendas a estes valores, mal dá para pagar alguns meses de uma casa em Lisboa.
4. A vilã do espartilho e a queda dramática nas escadas
Com a história a avançar no tempo, somos apresentados ao núcleo familiar de Mariana e do marido, Eduardo. A forma como a novela ilustra o passar dos anos – através de sequências de animação baseadas nos desenhos de Eduardo – é genuinamente criativa, fresca e um dos pontos mais altos do episódio.

No entanto, a fofura dura pouco. Entra em cena Vera, a irmã de Mariana, ao abrigo do rótulo de vilã desde o primeiro segundo. Num tom de pura provocação, Vera pede ajuda ao cunhado Eduardo para desapertar o sutiã e é apanhado em flagrante por Mariana. A discussão escala rapidamente, revelando que as duas são meias-irmãs e que Vera nutre uma inveja doentia pela vida da irmã.
A discussão muda-se para o topo das escadas e Vera, num impulso de raiva, empurra Mariana. E porque novela que se preze não passa sem o cliché da vilã a empurrar a vítima do cimo de uma escadaria, esta morre na hora (mesmo que a fatalidade diga respeito a apenas cinco degraus). No funeral, Vera chora copiosamente, mas não tarda a ocupar o lugar da falecida: anos mais tarde encontra-se prestes a casar com Eduardo e a gerir a empresa da família… de polpa de tomate (nada contra, mas aqui houve claramente um esforço para ser inovador no negócio de família).
5. O ataque cardíaco oportuno e o reencontro no momento certo
Se achava que as desgraças ficavam por aqui (como nós), desengane-se. Lúcia, que chora a “morte” da filha atirando flores ao rio Tejo ao som de “Eu sei” de Sara Tavares – momento para colocar o lenço encharcado ao lado do sofá –, tenta reorganizar a vida.
Convence a irmã, Elsa, a fugir para o Canadá para recomeçarem do zero. O problema é que Elsa sofre imediatamente um ataque cardíaco, é diagnosticada com uma miocardite viral e os planos vão por água abaixo. Tragédia número 15087? Check.
Saltando para o presente, Lúcia trabalha numa loja de roupa a aturar um chefe autoritário, enquanto a filha biológica (que pela perda da mãe deixou de falar) é maltratada pela “tia/madrasta” Vera.
No fecho do episódio, esta deixa a criança sozinha à porta da loja onde Lúcia trabalha. Um criminoso aborda a menina na rua para lhe roubar o tablet, mas lúcia intervém no segundo exato e salva a criança. Mãe e filha reencontram-se finalmente, sem saberem quem são, enquanto ficam a olhar uma para a outra num final de episódio ao estilo de “Avenida Brasil” (quem sabe sabe).
Em suma, “Destino Maior” não poupou nos recursos do melodrama clássico. Houve crime, vilania desmedida, polpa de tomate, raspadinhas e mortes a um ritmo alucinante. Se o objetivo era garantir que o telespectador não tirava os olhos do ecrã com medo de perder mais um falecimento ou tragédia, a SIC cumpriu a missão com distinção. Resta saber se o enredo terá fôlego para manter este ritmo de tragédia sem que, até ao final da temporada, sejamos obrigados a gritar: “morreram todos”, a la José Rodrigues dos Santos.





