Inteligência artificial já consegue detetar ameaças antes dos humanos. Startup portuguesa quer revolucionar a vídeo-vigilância

A Guardian quer transformar câmaras de videovigilância em sistemas inteligentes capazes de detetar ameaças em tempo real, antecipar riscos e agir antes de ser tarde.

A inteligência artificial já escreve textos, cria imagens, responde a perguntas e até ajuda médicos a identificar doenças. Mas há outra área onde a tecnologia promete provocar uma verdadeira revolução — e que pode ter impacto direto no dia a dia de milhões de pessoas: a segurança.

Imagine um centro comercial onde uma pessoa entra com uma arma, um armazém onde alguém invade uma zona restrita durante a madrugada ou um condomínio onde um carro é furtado. Hoje, na maioria dos casos, as câmaras limitam-se a gravar tudo o que acontece. Só depois é que alguém revê as imagens para tentar perceber o que aconteceu.

E se as câmaras deixassem de ser simples “testemunhas” e passassem a agir como verdadeiros vigilantes?

É precisamente essa a aposta da Guardian, uma startup portuguesa que está a desenvolver uma plataforma baseada em inteligência artificial capaz de transformar a videovigilância tradicional num sistema que deteta, interpreta e responde automaticamente a ameaças em tempo real.

Das gravações às decisões inteligentes

Durante décadas, os sistemas de videovigilância praticamente não mudaram. As câmaras tornaram-se mais nítidas, gravam em maior resolução e armazenam mais informação, mas continuam, na essência, a desempenhar a mesma função: registar imagens.

A Guardian quer inverter completamente esta lógica.

Em vez de depender de operadores humanos que observam dezenas — ou centenas — de ecrãs em simultâneo, a plataforma utiliza inteligência artificial para analisar continuamente aquilo que está a acontecer. Se identificar uma situação suspeita, gera um alerta quase imediato e pode até desencadear automaticamente procedimentos previamente definidos.

Segundo a empresa, o sistema consegue cruzar diferentes fontes de informação, como imagem, som e outros sensores, para perceber o contexto e distinguir acontecimentos normais de potenciais ameaças.

Na prática, a tecnologia pode reconhecer comportamentos invulgares, detetar intrusões, identificar armas ou seguir automaticamente uma pessoa através de diferentes câmaras espalhadas por um edifício.

Tudo isto acontece em poucos milissegundos.

Um segurança que nunca pisca os olhos

Quem já trabalhou em segurança sabe que uma das maiores dificuldades é manter elevados níveis de atenção durante horas consecutivas.

É praticamente impossível um operador humano observar dezenas de câmaras sem perder detalhes importantes.

É precisamente aqui que entra a inteligência artificial.

Em vez de substituir completamente as equipas de segurança, a Guardian pretende libertá-las das tarefas mais repetitivas. A IA monitoriza continuamente toda a infraestrutura e apenas chama os profissionais quando existe uma situação que realmente merece atenção.

Segundo a startup, o sistema consegue atingir uma precisão próxima dos 98%, reduzindo drasticamente o tempo entre a deteção e a resposta.

Na prática, significa que os vigilantes deixam de perder tempo a observar imagens onde nada acontece e passam a concentrar-se apenas nas ocorrências relevantes.

O que muda na vida real?

Embora a tecnologia possa parecer futurista, muitas das suas aplicações são bastante fáceis de imaginar.

Num supermercado, poderá identificar uma tentativa de roubo antes mesmo de o suspeito abandonar o espaço.

Num hospital, poderá reconhecer acessos não autorizados a áreas restritas.

Num condomínio, poderá alertar automaticamente os moradores caso alguém salte um muro durante a noite.

Num parque de estacionamento, poderá seguir um veículo suspeito entre diferentes câmaras sem necessidade de intervenção humana.

Em fábricas, aeroportos, hotéis, escritórios ou centros logísticos, o princípio é exatamente o mesmo: detetar riscos o mais cedo possível para reduzir o tempo de resposta.

Um mercado que não para de crescer

A aposta da Guardian surge numa altura em que a inteligência artificial vive uma autêntica explosão em praticamente todos os setores.

A consultora Gartner estima que, até 2026, mais de 80% das empresas tenham integrado algum tipo de solução baseada em IA, quando no início de 2023 essa percentagem era inferior a 5%.

Também o mercado global da videovigilância continua a crescer impulsionado pela análise inteligente de vídeo, computação em nuvem e automação. As previsões apontam para um setor avaliado em mais de 80 mil milhões de dólares, mantendo um crescimento anual superior a 13% durante a próxima década.

Mas há um desafio importante: a privacidade

Naturalmente, quanto mais inteligentes se tornam estes sistemas, maiores são também as preocupações com a privacidade.

Na Europa, qualquer solução deste tipo terá de cumprir regras bastante exigentes, desde o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) até às novas normas previstas no AI Act europeu, que estabelecem requisitos específicos para sistemas de inteligência artificial utilizados em contextos considerados de maior risco.

Isto significa que a inovação terá de caminhar lado a lado com transparência, segurança e respeito pelos direitos dos cidadãos.

O próximo passo da startup portuguesa

A Guardian prevê iniciar ainda este ano uma fase de pré-lançamento junto de parceiros estratégicos, antes da chegada oficial da plataforma ao mercado, prevista para o primeiro trimestre de 2027.

Mas a ambição vai bastante além da videovigilância empresarial.

Os fundadores imaginam um ecossistema de segurança inteligente capaz de integrar automóveis, embarcações, drones e outras soluções autónomas, criando uma verdadeira rede nacional de monitorização inteligente.

Num mundo onde as ameaças surgem cada vez mais depressa, a grande vantagem competitiva poderá deixar de estar na capacidade de reagir.

Passará, cada vez mais, por conseguir antecipar aquilo que ainda nem aconteceu. E é exatamente aí que a inteligência artificial quer assumir o papel principal.

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