De empregada de mesa ao império na restauração. Viviane Rocha construiu uma vida entre sucessos, riscos e recomeços

À MAGG, Viviane Rocha fala das dificuldades e dos segredos para o sucesso. Leia a entrevista e conheça a história da empresária brasileira.

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Estudava Medicina, tinha planos para casar e imaginava um futuro completamente diferente daquele que viria a construir. Mas uma desilusão amorosa levou-a a atravessar o Atlântico e a começar do zero em Portugal. Mais de duas décadas depois, Viviane Rocha tornou-se um dos nomes mais reconhecidos da restauração nacional, com vários espaços de sucesso no currículo, quatro filhos e uma capacidade quase compulsiva para criar novos projetos.

Nasceu em 1976, no Brasil, estudou Medicina durante dois anos, mas rapidamente percebeu que aquele não era o seu caminho. “No Brasil temos aquela ideia de fazer uma faculdade que dê dinheiro porque é um país em crise. Foi assim que o meu pai me criou. Primeiro, uma profissão que desse dinheiro e depois quando eu tiver dinheiro, aí escolho alguma coisa que me faça feliz”, começa por explicar em entrevista à MAGG.

Foi então que decidiu fazer as provas de ingresso para entrar no curso de Direito e, até ao início das aulas, aproveitou para regressar a casa dos pais. Durante esse período, apaixonou-se e começou a fazer outros planos para a vida. Apesar de ser uma história da qual prefere não falar, Viviane Rocha conta que acabou por desistir da faculdade e que já tinha planos para casar-se – mas, em 2001, o namoro acabou por chegar ao fim.

A desilusão amorosa motivou a vinda para Portugal e, com apenas 25 anos, mudou radicalmente de vida e de continente. Começou por trabalhar como empregada de mesa e garante que, apesar de se ter deparado com uma realidade diferente, a adaptação não foi complicada. “Eu sou uma pessoa que se adapta muito facilmente a qualquer coisa. Eu danço conforme a música. Foi uma adaptação fácil”, frisa.

E como nasceu a ideia de criar o primeiro projeto próprio?

Pouco tempo depois de servir às mesas, já estava a gerir um espaço na Marina de Cascais. “Quando eu comecei a trabalhar na restauração, eu percebi que era um ramo que eu gostava. Sempre gostei de ter a casa aberta e cheia de amigos e foi isso que quis levar para os meus restaurantes. E qualquer pessoa que faça com vontade e bem feito destaca-se imediatamente nesse ramo”, adianta.

Tal como muitos portugueses, Viviane Rocha é fã de gastronomia chinesa e japonesa. Quando chegou a Portugal, encontrou uma lacuna no mercado que acabaria por inspirar o seu primeiro projeto, a Confraria. “Sempre comi comida diferentes com os meus pais, às vezes era um jantar árabe, outras chinês e japonês, e aqui não era um hábito. E uma das coisas que eu senti mais falta naquela altura era japonês e o sushi. Havia uma escassez e eu vi que havia uma grande lacuna no mercado, havia poucos e carrísimo”, admite.

A ideia teve de ficar na gaveta durante algum tempo, já que a empresária casou-se e foi mãe. “O projeto saiu da gaveta não na melhor altura da minha vida pessoal porque tinha uma bebé de 2 anos e gémeos de 1 ano. Na altura foi uma decisão muito difícil para mim porque sabia que ia ter tempo para os meus filhos, mas também alguma coisa dizia-me que era o caminho certo e eu não me arrependo de o ter seguido”, diz.

A Confraria de Cascais teve tanto sucesso que, no espaço de um ano, recebeu um convite de Gonçalo Dias, do LX Boutique Hotel, em Lisboa, para abrir uma segunda casa. “Foi uma decisão muito fácil de tomar porque já tínhamos muitos clientes de Lisboa, então apenas levámos a Confraria para mais perto”, continua Viviane Rocha.

E não há duas sem três. A Confraria chegou ao Mercado da Ribeira e pode dizer-se que foi uma oportunidade caída do céu, já que tudo aconteceu através de uma conversa com uma jornalista. Enquanto lhe explicava o conceito do mercado, perguntou a Viviane Rocha se gostaria de fazer parte do projeto. “Adorava” – foi a resposta da empresária, o que levou a jornalista a fazer alguns telefonemas para avançar com o negócio. “Decidimos tudo em 24 horas”, frisa.

Viviane Rocha conta ainda que chegou a ponderar abrir outro espaço no Porto, devido à elevada procura, ideia que acabou por não avançar. Atualmente, já não está com a Confraria desde 2025. Depois de três projetos bem-sucedidos, foi tempo de mudar de sabores e abrir o Gulli Cascais, um restaurante italiano na Baía de Cascais. “Foi um estrondo gigante, mas o hotel do restaurante foi vendido e os novos donos não queriam um restaurante com tanto movimento, mas sim um mais tranquilo”, afiança, deixando claro que considerava que aquela localização era “fundamental” para o negócio e decidiu abandonar o projeto.

Entretanto, Viviane Rocha adquiriu parte da Vela Latina, dando origem ao Nikkei, um restaurante de sushi com influências peruanas e um chef vindo diretamente do Peru. Mas, antes da abertura, criaram o Waka, uma espécie de “tubo de ensaio” que esteve aberto durante dois anos para perceber se o conceito seria bem recebido em Portugal. “Funcionou lindamente, mas era um restaurante mínimo, não tinha sequer 30 lugares. Houve uma aceitação gigante, mas como negócio em si era um espaço pequeno”, afirma.

Depois da abertura do Nikkei, seguiram-se mais dois projetos. Primeiro, a Charcutaria, na Vela Latina, com uma esplanada ideal para petiscar queijos e beber vinho ao final da tarde. Depois, o Forest, também integrado na Vela Latina e que funcionava em regime de self-service. Com a pandemia e a consequente quebra do turismo, teve de despedir-se do projeto, já que a maioria dos clientes eram turistas.

Nem todos os projetos correram como esperado. O Bossa, criado numa fase particularmente difícil da sua vida pessoal, acabou por fechar ao fim de um ano e meio. “O Waka não foi uma falha, mas o Bossa sim, porque este foi o meu projeto sozinha e estava numa fase pessoa da vida complicada”, admite. “Abri o Bossa com metade do empenho que costumo ter nos meus projetos. O Bossa não correu bem por culpa minha, não tinha o esforço e dedicação que precisava“, continua.

Hoje, vê esse período como uma lição importante. “Quando só acertamos e tudo parece ser fácil, cria-se a ilusão de que não falhamos. E o Bossa veio dar-me essa humildade, que não foi fácil na altura, mas que hoje agradeço. Foi um ponto de crescimento, não me arrependo, até agradeço”, reforça.

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O mais recente projeto chama-se Casa do Largo e marca a sua estreia a solo. Apesar do entusiasmo, admite que a experiência do Bossa a fez avançar com mais cautela. “A meio do projeto tive medos e hesitei, tive inseguranças e ainda bem. Com o Bossa fui com a confiança de que tudo daria certo, o que era infantil, e com a Casa do Largo foi o contrário. Esse medo fez-me focar nos detalhes ao pormenor para não cometer os mesmos erros”, afirma, acrescentando que acredita “que vai ser uma casa para ficar”.

Depois de mais de duas décadas na restauração, garante que ainda está longe de abrandar. “Por mais que tenhamos amor, nada chega. Eu não consigo parar de pensar. Não vou ficar por aqui”, afiança.

Contudo, fora da restauração, tem também apostado noutras áreas. Em 2023 lançou uma coleção de joias com a Pricci, criou uma marca de roupa de padel e, mais recentemente, desenvolveu uma coleção de malas. Com quase 63 mil seguidores no Instagram, continua ainda ativa nas redes sociais, embora rejeite o rótulo de influencer.

“Não me intitulo como influencer nem gosto. Eu fazia um diário da minha vida e tive um reconhecimento que não estava à espera, mas hoje eu dedico-me muito pouco a isso porque nas redes sociais tudo é igual”, explica, admitindo que, hoje com 50 anos, olha para o seu percurso com alguma surpresa, pois “não sabia onde iria chegar” e foi apenas “respondendo ao que a vida” lhe pedia.

Sendo mulher e mãe de quatro filhos, reconhece que o caminho nem sempre foi simples. Ainda assim, acredita que o sucesso depende sobretudo da coragem para arriscar, da capacidade de trabalho e da resiliência.

“Tenho funcionários com menos 20 ou 30 anos que me perguntam de onde é que eu tiro a energia. Eu tiro da necessidade. Para uma pessoa ter sucesso num negócio, há princípios básicos: o primeiro é ter coragem de tentar, caso contrário fica-se estagnado. Depois a atenção às oportunidades, ter coragem para avançar e claro, é preciso o empenho e resiliência para entender que nem tudo está nas nossas mãos”, remata.

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